A Ascensão da Cultura 996 no Vale do Silício e Suas Promessas Ambíguas
Um novo modelo de trabalho, caracterizado por jornadas de 12 horas diárias, seis dias por semana, está ganhando força no setor de tecnologia, especialmente entre as startups de inteligência artificial. Conhecida como cultura 996 — uma referência ao horário das 9h às 21h, seis dias por semana —, essa prática promete acelerar a inovação e o crescimento, mas levanta preocupações significativas sobre o bem-estar dos funcionários e a sustentabilidade a longo prazo.
A empresa Rilla, sediada em Nova York, exemplifica essa nova onda. Seu site de recrutamento, repleto de fotografias de jovens profissionais felizes e slogans como “velocidade insana”, “curiosidade infinita” e “obsessão pelo cliente”, oferece benefícios atraentes, como salários competitivos, refeições gratuitas, academia e assistência médica e dentária. No entanto, cada anúncio de emprego vem com um alerta explícito: “Por favor, não se candidate se você não estiver disposto a… trabalhar cerca de 70 horas por semana, presencialmente, com algumas das pessoas mais ambiciosas de Nova York”.
Essa exigência clara, que define o espírito da escala 996, é vista pelo chefe de crescimento da Rilla, Will Gao, como um atrativo para “atletas olímpicos” do trabalho, pessoas com “obsessão” e “ambição infinita” que buscam realizar “coisas incríveis” e se divertem no processo. Embora as jornadas sejam longas, Gao afirma que não há uma estrutura rígida, permitindo flexibilidade para quem, por exemplo, trabalha até de madrugada e aparece mais tarde no dia seguinte, conforme informações divulgadas pela BBC News.
A Corrida da IA: O Motor da Intensificação do Trabalho no Setor de Tecnologia
A explosão do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) nos últimos anos é o principal catalisador para a adoção da cultura 996 no Ocidente. A velocidade alucinante com que a IA avança impõe uma pressão sem precedentes sobre as empresas de tecnologia, que buscam desesperadamente desenvolver, explorar e monetizar suas aplicações antes dos concorrentes.
Grandes volumes de capital estão sendo injetados em startups de IA, criando um ambiente de alta competitividade e urgência. O temor de que “alguém chegue lá primeiro” é uma constante, e a velocidade se tornou a essência do negócio. Para muitos líderes, jornadas de trabalho estendidas são vistas como o caminho mais rápido para atingir resultados e garantir uma vantagem competitiva neste cenário volátil.
Profissionais do setor de tecnologia, especialmente em empresas que contam com financiamento de capital de risco, estão sob intensa pressão para trabalhar mais, por mais tempo, a fim de acelerar o desenvolvimento de produtos e o lançamento no mercado. Essa mentalidade, que equipara horas trabalhadas a sucesso, é um dos pilares da expansão da cultura 996, conforme observa Adrian Kinnersley, responsável por empresas de recrutamento na Europa e na América do Norte.
O Legado Chinês da Escala 996: De Bênção a Alvo de Repressão
A cultura 996 não é uma novidade. Ela ganhou proeminência na China há cerca de uma década, em um período em que o país buscava transformar-se de uma potência manufatureira de baixo custo em um líder global em tecnologias avançadas. Empresas e startups de tecnologia chinesas rapidamente adotaram essa prática como um símbolo de dedicação e inovação.
Entre seus defensores mais notórios estava Jack Ma, o bilionário fundador da gigante do varejo Alibaba.com. Em uma postagem em seu blog para funcionários, Ma chegou a declarar: “Pessoalmente, acho que poder trabalhar 996 é uma enorme bênção”. Ele argumentava que não apenas os empresários, mas também artistas, cientistas e atletas bem-sucedidos trabalham em regimes semelhantes ou até mais intensos, motivados por uma paixão profunda por suas escolhas de carreira.
Outro entusiasta foi Richard Liu, fundador do colosso do varejo JD.com, que chegou a combater o que considerava um declínio na ética profissional do país, afirmando em um e-mail controverso de 2019: “Os preguiçosos não são meus amigos!”. Essas declarações, embora endossadas por alguns, geraram uma forte reação contrária, com uma onda de queixas online sobre a violação das leis trabalhistas e a falta de pagamento de horas extras, enquanto funcionários eram forçados a jornadas exaustivas.
A desaprovação pública e as crescentes preocupações levaram a uma repressão legal por parte das autoridades chinesas em 2021. Embora a escala 996 não tenha desaparecido completamente, seus defensores tornaram-se consideravelmente mais discretos. Uma exceção notável foi Qu Jing, ex-chefe de relações públicas do Baidu, que em 2024 postou vídeos defendendo agressivamente a cultura do trabalho excessivo, com a polêmica frase “Não sou sua mãe, só me preocupo com os resultados”. A repercussão negativa foi tão intensa que custou seu emprego, evidenciando a sensibilidade em torno do tema.
Apesar da repressão na China, a cultura 996 ainda encontra admiradores em outras partes do mundo. No ano passado, Narayana Murthy, fundador da gigante indiana de software Infosys, expressou sua admiração pela adoção do modelo chinês, destacando em entrevista na TV que “nenhum indivíduo, nenhuma comunidade, nenhum país se desenvolveu sem trabalhar arduamente”.
Debates e Contradições: Viciados em Trabalho vs. Produtividade Sustentável
A migração da cultura 996 para o setor de tecnologia americano e outros mercados ocidentais tem intensificado o debate sobre sua real eficácia e os impactos nos profissionais. Para muitos jovens empreendedores, a mentalidade de longas jornadas é intrínseca à construção de algo inovador e competitivo.
Magnus Müller, jovem empreendedor alemão e cofundador da Browser-Use, uma startup de IA, vive em uma “casa de hacker” onde ele e seus colegas trocam ideias constantemente. Ele vê as longas jornadas como parte natural de um trabalho desafiador. “Acho que estamos tentando construir algo difícil”, afirma Müller. “É superdifícil e muito competitivo. Muitas vezes, o retorno vem quando você simplesmente mergulha muito fundo em um problema… é quando, de repente, acontecem coisas fascinantes.”
A Browser-Use, com apenas sete funcionários, busca pessoas com mentalidade semelhante, “viciadas” no que fazem. Para Müller, não parece trabalho, mas sim um “jogo” do qual são “viciados”. Essa visão, no entanto, é contestada por veteranos do setor, como Deedy Das, sócio da Menlo Ventures, empresa de capital de risco com cerca de 50 anos de experiência em tecnologia.
Das argumenta que o erro mais comum dos jovens empreendedores é acreditar que as horas trabalhadas são, por si só, sinônimo de produtividade. “É aqui que mora a falácia”, explica ele. “Forçar seus funcionários a vir e se afobar no trabalho é uma consequência dessa mentalidade.” Para Das, essa postura pode alienar profissionais mais experientes e com famílias, que “realmente podem trabalhar muito menos e atingir muito mais porque sabem o que estão fazendo”, além de levar ao esgotamento (burnout) a longo prazo.
A acadêmica e escritora Tamara Myles, especialista em cultura de ambientes de trabalho, corrobora que a cultura da agitação é insustentável, especialmente se os funcionários se sentem forçados. No entanto, ela reconhece que muitas empresas que adotam a cultura 996 não a escondem, mas a anunciam “quase como uma medalha de honra ao mérito”. Myles alerta para a dinâmica de poder envolvida, onde profissionais podem aceitar essas condições devido a um mercado de trabalho difícil ou à necessidade de vistos, não por escolha genuína.
O Preço da Exaustão: Riscos à Saúde e o Karōshi Japonês
As longas jornadas de trabalho cobram um preço alto, muitas vezes invisível, na saúde dos profissionais. A preocupação com os impactos da exaustão não é nova e tem um precedente histórico no Japão, país conhecido por sua cultura de trabalho árduo e dedicação extrema, especialmente no pós-guerra.
No Japão, existe até um termo específico para a morte por excesso de trabalho: Karōshi. Ele designa principalmente acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e ataques cardíacos sofridos por indivíduos que trabalham em regime de sobrecarga. Um conceito similar, Karōjisatsu, refere-se a pessoas que tiram ou tentam tirar a própria vida devido ao estresse extremo no ambiente de trabalho. Ambas as situações são reconhecidas pela legislação japonesa, que teoricamente concede indenização governamental às famílias afetadas, embora a comprovação do nexo causal seja frequentemente difícil.
A nível global, estudos recentes reforçam essas preocupações. Uma pesquisa publicada em 2021 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelou dados alarmantes: longas jornadas de trabalho, definidas como mais de 55 horas por semana, foram responsáveis por 745 mil mortes por AVC e doenças cardiovasculares em todo o mundo em 2016. O estudo concluiu que trabalhar 55 horas ou mais por semana aumenta o risco de morte por doenças cardíacas em 17% e o risco de AVC em 35%, em comparação com jornadas de 35 a 40 horas semanais. Esses números sublinham a gravidade dos riscos à saúde associados à escala 996 e a modelos de trabalho similares.
O Limite da Produtividade: Por Que Trabalhar Mais Nem Sempre Significa Produzir Mais
Além dos graves riscos à saúde, a eficácia da cultura 996 é questionada sob a ótica da produtividade. Estudos demonstram que, embora um aumento inicial nas horas trabalhadas possa gerar um crescimento da produtividade, há um ponto de inflexão a partir do qual o rendimento começa a cair drasticamente devido à exaustão física e mental acumulada.
Geralmente, considera-se que uma jornada semanal de 40 horas é o “ponto de equilíbrio” para manter a produtividade de forma razoável. Pesquisas indicam que “com cerca de 40 horas por semana de trabalho de cinco dias, os trabalhadores aparentemente conseguem manter razoavelmente bem a sua produtividade”. No entanto, “quando os indivíduos ultrapassam esse limite e praticam jornadas mais longas, seu desempenho no trabalho diminui gradualmente, devido à maior fadiga e à falta de cuidado com a saúde”. Isso significa que o rendimento adicional por hora de trabalho se torna marginal ou até negativo.
A tentação de empregar menos pessoas e fazê-las trabalhar por mais tempo é compreensível para as empresas, já que cada funcionário adicional representa custos de recrutamento, treinamento e salário. Contudo, as evidências sugerem que essa estratégia pode ser contraproducente. Um estudo da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, aponta que a produtividade pode cair a tal ponto que “um funcionário trabalhando 70 horas por semana quase não apresenta diferença de rendimento em relação a outro funcionário que trabalhe 50 horas por semana”.
Esse conceito não é novo. Há um século, Henry Ford (1863-1947) foi um pioneiro ao reduzir as horas de trabalho em suas fábricas de automóveis, adotando a semana de 40 horas em cinco dias. Sua decisão, revolucionária na época, mostrou que a redução da jornada podia, na verdade, aumentar a eficiência e a satisfação dos trabalhadores, um exemplo que seria seguido por outros industriais importantes.
Perspectivas Globais: Legislação, Debates e Alternativas à Cultura 996
A discussão sobre a escala 996 e as longas jornadas de trabalho reverbera em diferentes contextos legislativos e culturais ao redor do mundo, gerando debates sobre o futuro do trabalho.
No Reino Unido, a legislação estabelece que a maioria dos profissionais não deve trabalhar, em média, mais de 48 horas semanais. No entanto, é permitido que as pessoas optem por trabalhar mais, mediante consentimento, o que torna a cultura 996 legalmente viável se o funcionário concordar. Setores como grandes escritórios de advocacia e bancos de investimento são conhecidos por jornadas que frequentemente excedem 12 horas diárias, podendo chegar a 100 horas semanais em momentos críticos de fechamento de acordos importantes.
Alguns líderes empresariais britânicos, como James Watt, cofundador da BrewDog, defendem a integração entre vida pessoal e trabalho em vez de um “equilíbrio” que, segundo ele, foi “inventado por pessoas que odeiam seus empregos”. Essas visões, embora polêmicas (Watt já foi acusado de comportamento inadequado no ambiente de trabalho), refletem uma corrente que valoriza a dedicação extrema.
No entanto, especialistas como Ben Wilmott, chefe de políticas públicas da associação de profissionais de recursos humanos CIPD, argumentam que não há correlação entre longas horas de trabalho e maior produtividade. Ele enfatiza os riscos à saúde e defende o foco em “trabalhar de forma mais inteligente, não por mais tempo”, através da gestão eficiente, tecnologia e IA para aumentar a produtividade sem prolongar a jornada.
Ativistas no Reino Unido propõem a redução da jornada de trabalho e a adoção da semana de quatro dias. Um projeto-piloto em 2022, com 61 organizações, mostrou que a medida reduziu o estresse e doenças entre os funcionários, ajudou na retenção de talentos e manteve a produtividade. Esses resultados sugerem que alternativas à cultura 996 podem ser não apenas mais humanas, mas também mais eficientes.
No Brasil, uma proposta de emenda constitucional (PEC) tramita no Congresso para eliminar a escala 6×1 e reduzir a jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais. Aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em dezembro, a proposta segue para o plenário da Casa e, posteriormente, para a Câmara dos Deputados, indicando um movimento em direção a jornadas mais curtas e potencialmente mais equilibradas.
O Futuro do Trabalho: Entre a Ambição Desenfreada e a Busca por Equilíbrio
O entusiasmo pela jornada 996, embora ainda restrito em grande parte ao setor de tecnologia, especialmente entre startups de IA, reflete uma tensão fundamental no mundo do trabalho moderno: a busca incessante por vantagem competitiva versus a necessidade de sustentabilidade humana e produtiva.
Adrian Kinnersley, especialista em recrutamento, reconhece a dificuldade de competir no ambiente atual com uma cultura de 35 horas semanais, dado o ritmo acelerado e os investimentos em jogo. Para muitas empresas, as longas horas são vistas como um mal necessário para sobreviver e prosperar.
Contudo, a comparação feita por Magnus Müller, fundador da Browser-Use, com a vida dos agricultores de sua aldeia na Alemanha, que trabalham mais de 12 horas por dia, sete dias por semana, “sem feriados”, coloca a cultura 996 em perspectiva. “Eu diria que o que estamos fazendo, em comparação com eles, parece mais o jardim da infância”, afirma Müller.
Essa reflexão, embora possa parecer desconsiderar a natureza do trabalho intelectual e o estresse inerente, destaca que a busca por dedicação extrema não é exclusiva da tecnologia. No entanto, a crescente conscientização sobre os riscos à saúde, a queda da produtividade após certo limite e a experiência de modelos de trabalho mais flexíveis e eficientes, como a semana de quatro dias, sugerem que o debate sobre a cultura 996 está longe de terminar. A sociedade e o mercado de trabalho continuam a ponderar o verdadeiro custo e benefício de uma ambição que exige 70 horas semanais de seus profissionais.