Desde os tempos do Brasil Império até os dias de hoje, a história de sucesso e inovação no país tem sido marcada por um paradoxo notável. Enquanto a ousadia de empreender impulsiona o desenvolvimento, a resposta da sociedade e do Estado muitas vezes se traduz em desafios inesperados para aqueles que prosperam.
Essa dinâmica complexa levanta uma questão fundamental: por que o sucesso, especialmente quando conquistado pelo esforço próprio, é frequentemente percebido com desconfiança ou até mesmo como um ‘pecado’ no Brasil? Essa percepção pode estar enraizada em fatores históricos e culturais que persistem em nossa nação.
Para entender melhor essa questão, podemos olhar para figuras emblemáticas que desafiaram as normas e construíram impérios, mas enfrentaram resistências significativas. As histórias de Irineu Evangelista de Souza e Luana Lopes Lara, conforme detalhado nas fontes, são exemplos claros dessa realidade.
O Legado Visionário do Barão de Mauá e Seus Desafios
Irineu Evangelista de Souza, conhecido como Barão de Mauá, é considerado por muitos como o maior empresário brasileiro de todos os tempos. Nascido em uma família humilde no Rio Grande do Sul, sua ascensão foi meteórica, iniciando em pequenos comércios e tornando-se sócio de seu patrão, demonstrando um talento precoce e uma capacidade ímpar de aprendizado.
Mauá foi o responsável por empreendimentos revolucionários no século XIX. Em 1846, fundou o Estaleiro de Ponta da Areia, o primeiro grande estaleiro do país, especializado em navios a vapor. Em 1851, criou a Companhia de Navegação do Amazonas, introduzindo a navegação a vapor na região e impulsionando sua ocupação econômica. Em 1854, inaugurou a primeira ferrovia do Brasil, um marco que contou com a presença de Dom Pedro II, que lhe concedeu o título de Barão de Mauá.
Seus feitos não pararam por aí. Ele implementou o primeiro sistema de iluminação pública a gás, instalou cabos telegráficos submarinos, conectando o Brasil às redes internacionais, e fundou o maior banco privado do Império, com filiais em Londres, Montevidéu, Buenos Aires e Nova York. Em seu auge, a fortuna de Mauá superava o orçamento anual do próprio Império.
Um Padrão Histórico: O Sucesso Visto Como Pecado
Apesar de sua visão e contribuições inestimáveis para o desenvolvimento do Brasil, Mauá enfrentou uma perseguição implacável. Sua autobiografia, intitulada “O sucesso jamais será perdoado”, reflete a amargura de um homem que viu seu projeto de desenvolvimento nacional ser minado.
Mauá defendia que o capital privado deveria liderar os investimentos, cabendo ao Estado o papel de garantidor das regras, e não de competidor. No entanto, sua visão liberal clássica colidiu com o Estado patrimonialista da época. Mudanças arbitrárias de regras, retirada de garantias, decisões políticas discricionárias e favorecimento a concorrentes alinhados ao poder tornaram o ambiente institucional hostil.
A queda de Mauá não foi resultado de erros empresariais, mas de choques regulatórios e políticos, ditados pelos interesses circunstanciais dos líderes da época. O empresário bem-sucedido, por sua autonomia e prosperidade, tornou-se suspeito. É desalentador constatar que, mais de um século depois, as causas de sua derrocada permanecem tão presentes, ou até mais, do que nos tempos do Brasil Império.
Luana Lopes Lara: O Preço do Sucesso no Século XXI
A história se repete, de certa forma, com Luana Lopes Lara, um exemplo contemporâneo do preço cobrado pelo sucesso conquistado pelo esforço próprio. Sua trajetória é de garra, força e resiliência. Formada em balé clássico pelo Teatro Bolshoi do Brasil, ela demonstrou disciplina desde cedo, o que a levou a cursar Ciências da Computação no renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology).
Após a graduação e experiências no mercado financeiro de Nova York, Luana fundou, com um colega do MIT, a Kalshi. Esta empresa opera uma espécie de bolsa de eventos futuros, onde se negociam probabilidades associadas a acontecimentos econômicos, políticos, esportivos e culturais. Sua empresa recebeu aportes de grandes nomes do venture capital, transformando-a em bilionária e colocando-a no topo do ranking dos bilionários mais jovens do mundo a construir a própria fortuna.
No entanto, o que deveria ser motivo de prestígio e inspiração gerou reações no Brasil que buscaram imputar à jovem sentimentos de culpa, vergonha e constrangimento por seu sucesso. Essa reação foi visível, inclusive, durante uma entrevista para uma rede de notícias, evidenciando uma mentalidade que ainda associa a riqueza e a prosperidade a algo negativo.
Desvendando o Empreendedorismo no Brasil: Superando o Ressentimento
As mentalidades que criticam o sucesso individual são, infelizmente, heranças que carregamos desde os tempos do Barão de Mauá e que explicam grande parte de nossas mazelas institucionais. Empreender no Brasil é, muitas vezes, nadar contra a corrente. A riqueza desperta antipatia, e o país, em vez de estimular quem ousa sair da zona de conforto, parece punir quem tenta antecipar o futuro.
Em lugar da admiração por quem cria o novo e antecipa o futuro, cultivamos inveja e ressentimento. Em vez de estabilidade regulatória, herdamos conchavos e patrimonialismo. É fundamental que os ensinamentos deixados por Irineu Evangelista de Souza possam nos guiar rumo a um país melhor, onde jovens como Luana Lopes Lara jamais temam pelo próprio sucesso.
Não há absolutamente nada a ser perdoado, mas sim celebrado, na conquista e no empreendedorismo. Superar a visão do sucesso como pecado no Brasil é um passo crucial para construir uma nação que valorize a inovação, o mérito e o desenvolvimento econômico, criando um ambiente mais favorável para todos os seus cidadãos.