S&P Global: Dificilmente a reconfiguração global provocada por tarifas poderá ser revertida amplamente
A S&P Global divulgou um relatório nesta segunda-feira (23) indicando que a recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos em derrubar tarifas globais recíprocas não deve impactar significativamente suas projeções para o rating americano. A agência de classificação de risco também assegura que as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB), o crescimento do emprego e as taxas de juros do Federal Reserve (Fed) permanecem inalteradas, mesmo diante do anúncio de novas tarifas sob a Seção 122.
A análise da S&P Global aponta que a revogação das tarifas impostas através da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não diminui a elevada incerteza política. Esse cenário continua sendo um dos principais riscos para as condições globais de crédito e um potencial gatilho de volatilidade nos mercados em 2026.
O relatório cita como exemplo a alíquota de 15% para todos os países, sob a Seção 122, anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, menos de 24 horas após a decisão da Suprema Corte. Essa medida demonstra a continuidade da estratégia de taxação por parte do governo americano, mesmo com as mudanças recentes nas decisões judiciais. As informações foram divulgadas pela agência de classificação de risco.
Incerteza Política Persiste Como Principal Risco
Apesar da decisão judicial que suspendeu tarifas recíprocas, a S&P Global enfatiza que a incerteza política nos Estados Unidos continua em patamares elevados. Este fator é identificado como um dos principais riscos para as condições de crédito globais e um potencial catalisador de volatilidade nos mercados financeiros em 2026. A agência ressalta que a revogação das tarifas sob a IEEPA não altera essa percepção de risco, que é multifacetada e derivada de diversas políticas e decisões governamentais.
O relatório destaca que o governo americano demonstra um claro compromisso com a utilização de tarifas como ferramenta política. No entanto, a agência prevê que os alvos das taxações deverão mudar para produtos específicos, mantendo um nível elevado de tarifas através de múltiplos canais. A composição exata dessas alíquotas, segundo a S&P, pode variar de acordo com as prioridades políticas do momento.
Novas Tarifas e o Cenário de Custos Elevados para Empresas
A estratégia de taxação do governo dos EUA foi reforçada com o anúncio de novas tarifas sob a Seção 122, uma medida que entrou em vigor poucas horas após a decisão da Suprema Corte. A imposição de uma alíquota de 15% para todos os países, conforme anunciado pelo presidente Donald Trump, sinaliza a persistência de uma política comercial protecionista. A S&P Global observa que, embora a decisão judicial tenha derrubado tarifas anteriores, a administração mantém o foco em mecanismos de taxação para influenciar o comércio internacional.
Essa abordagem contínua de imposição de tarifas tem implicações diretas para as empresas americanas. A S&P Global prevê que elas continuarão a enfrentar custos mais altos de produção e importação. Os efeitos dessas tarifas se propagam pelas cadeias de suprimentos, pressionando as margens de lucro e dificultando o repasse integral dos custos para os consumidores em determinados setores. A complexidade em recuperar tarifas já pagas sob a IEEPA, com empresas potencialmente buscando reembolsos judiciais, adiciona mais uma camada de incerteza operacional.
Impacto nas Cadeias de Suprimentos e Margens de Lucro
A persistência de tarifas e a incerteza sobre sua aplicação futura impactam diretamente as operações das empresas. A S&P Global aponta que os efeitos tarifários nas cadeias de suprimentos são uma realidade que pressiona as margens de lucro. Para muitas empresas americanas, o aumento dos custos de insumos e produtos importados dificulta a manutenção da competitividade, especialmente em mercados sensíveis a preço.
O repasse desses custos para os consumidores é um desafio considerável. Em alguns setores, a concorrência ou a elasticidade da demanda impedem que as empresas absorvam totalmente o aumento dos custos de produção. Isso pode levar a uma redução na demanda ou a uma queda na rentabilidade, afetando o desempenho financeiro das companhias e, em última instância, o crescimento econômico.
Benefícios para Exportadores e o Papel da China
Em contrapartida, a decisão da Suprema Corte e a reconfiguração do cenário tarifário podem trazer alívio para exportadores em outras regiões. A China, em particular, é apontada como uma beneficiária de curto prazo, especialmente em sua categoria de bens mais baratos. A suspensão de tarifas recíprocas pode impulsionar as exportações chinesas, oferecendo um suporte importante para o PIB do país, que tem enfrentado desafios devido ao baixo consumo doméstico.
O movimento traria um alívio bem-vindo para empresas chinesas que buscam expandir sua presença em mercados internacionais. A capacidade de oferecer produtos a preços mais competitivos, livre de tarifas adicionais, pode fortalecer sua posição em mercados globais. Esse cenário pode, por sua vez, influenciar o desempenho do PIB chinês, que se beneficia de um aumento nas vendas externas.
Perspectivas para o PIB e o Emprego nos EUA
Apesar das turbulências e da persistência de tarifas, a S&P Global mantém sua projeção para o PIB dos Estados Unidos e o crescimento do emprego. A agência considera que os efeitos da decisão da Suprema Corte e das novas tarifas, quando combinados, não são suficientes para alterar o quadro macroeconômico geral. A resiliência da economia americana, impulsionada por outros fatores como o consumo interno e o investimento, tende a mitigar os impactos mais severos das políticas tarifárias.
O Fed, por sua vez, também não deve alterar suas projeções de taxas de juros em função desses eventos. A política monetária continuará a ser guiada por um conjunto mais amplo de indicadores econômicos, incluindo inflação, emprego e atividade econômica geral. A S&P Global sinaliza que a política fiscal e as dinâmicas de mercado de trabalho terão um peso maior nas decisões futuras do banco central.
Regionalização do Comércio e Diversificação de Riscos
A S&P Global pondera que a reconfiguração global provocada pelas tarifas recíprocas implementadas anteriormente é um processo difícil de ser revertido em larga escala. As empresas, cientes da volatilidade e da imprevisibilidade das políticas comerciais, continuam a buscar estratégias para reduzir riscos e diversificar suas operações. Essa tendência de diversificação e regionalização do comércio global deve se intensificar.
A incerteza sobre o nível tarifário e o custo geral de fazer negócios nos Estados Unidos incentiva as empresas a explorarem novas configurações de suas cadeias de suprimentos. Isso inclui a formação de acordos comerciais que não envolvam diretamente os americanos, buscando maior estabilidade e previsibilidade em suas operações internacionais. A regionalização visa criar cadeias de valor mais curtas e resilientes a choques externos.
O Papel da Seção 122 na Nova Estratégia Tarifária
A Seção 122 da legislação americana, utilizada para justificar a imposição de novas tarifas, representa uma ferramenta que o governo pode acionar para influenciar o comércio internacional. A alíquota de 15% anunciada, que abrange todos os países, demonstra uma abordagem ampla, embora a S&P Global sugira que os alvos específicos possam mudar com o tempo, dependendo das prioridades políticas.
Essa estratégia sugere que, mesmo com a derrubada de tarifas específicas pela Suprema Corte, o governo busca manter a capacidade de impor barreiras comerciais. A agência de classificação de risco observa que a composição exata das alíquotas e os setores afetados podem ser ajustados para atender a objetivos estratégicos, como a proteção de indústrias domésticas ou a busca por retaliação comercial.
Recuperação de Tarifas Pagas: Um Desafio Jurídico
Um ponto de atenção levantado pela S&P Global refere-se à recuperação de tarifas já pagas pelas empresas sob a égide da IEEPA. A agência nota que não está claro como as empresas poderão reaver esses valores, indicando que a via judicial pode ser o principal caminho. Esse processo de busca por reembolsos pode ser complexo e demorado, gerando custos adicionais e incertezas para as companhias afetadas.
A complexidade legal em torno da recuperação de tarifas pagas é um reflexo da natureza das disputas comerciais e tarifárias. Empresas que foram obrigadas a pagar tarifas, e que agora veem essas medidas serem revertidas ou questionadas judicialmente, terão que navegar por um cenário legal intrincado para tentar reaver seus investimentos. Isso adiciona uma camada de risco financeiro e operacional às suas atividades.
Tarifa Média dos EUA: Um Nível Histórico
A S&P Global aponta que a tarifa média dos Estados Unidos se encontra atualmente em 15%. Este nível é o segundo maior desde 1946, superado apenas pela média entre 17% e 19% registrada em 2025. Esse dado sublinha a intensidade da política tarifária adotada pelo país nos últimos anos e seu impacto potencial no comércio global. A persistência de tarifas elevadas, mesmo com ajustes pontuais, molda o ambiente de negócios internacional.
O patamar histórico das tarifas médias reflete uma mudança significativa na política comercial dos EUA. Essa estratégia, que visa proteger a indústria nacional e equilibrar a balança comercial, tem gerado reações e ajustes em outros países. A consequência é um cenário de maior complexidade e incerteza para empresas que dependem do comércio internacional para suas operações e crescimento.
Projeções Econômicas Globais e o Cenário Pós-Tarifas
Embora a S&P Global não preveja grandes alterações em suas projeções para a economia americana, o cenário global continua a ser monitorado de perto. A decisão da Suprema Corte e as novas tarifas são apenas peças de um quebra-cabeça maior que envolve tensões geopolíticas, inflação persistente em algumas economias e a transição energética. O impacto dessas tarifas, embora contido em termos de projeções macroeconômicas para os EUA, pode ter efeitos cascata em cadeias de suprimentos globais e em relações comerciais bilaterais.
A agência de classificação de risco sugere que a tendência de regionalização e diversificação de riscos é uma resposta adaptativa das empresas a esse ambiente de incerteza. A busca por estabilidade e previsibilidade em um mundo cada vez mais complexo continua sendo a principal diretriz para a estratégia de negócios internacionais. O futuro do comércio global dependerá da capacidade dos países em encontrar um equilíbrio entre a proteção de interesses nacionais e a promoção de um sistema comercial aberto e justo.