O Brasil enfrenta um momento crítico em suas finanças públicas, marcado por uma sucessão de déficits que geram preocupação no mercado e na sociedade. A gestão atual tem sido criticada pela expansão contínua de gastos, mesmo diante de um cenário de aumento de tributação e endividamento.
Essa dinâmica fiscal, que contrasta com períodos de superávits anteriores, levanta sérias questões sobre a eficiência e a moralidade na administração dos recursos. A percepção de que o dinheiro público é mal empregado, sustentando privilégios e alimentando a corrupção, é um sentimento crescente entre os cidadãos.
Diante desse quadro, a necessidade de uma bússola moral para o país torna-se cada vez mais evidente, um chamado para que a gestão pública priorize o bem comum e a transparência, conforme análise do professor Ives Gandra da Silva Martins.
Desafios Fiscais e o Custo Brasil
A situação fiscal do país tem sido fonte de constante apreensão. O terceiro mandato do governo atual, por exemplo, tem se caracterizado pela geração permanente de déficits. Em novembro, o saldo negativo foi de R$ 20 bilhões, superando a expectativa do mercado, que projetava R$ 13 bilhões.
Apesar dos empréstimos e do aumento da carga tributária, os gastos continuam a crescer. Os Correios, que haviam alcançado lucro em um governo anterior, agora registram prejuízos expressivos, solicitando aportes bilionários, como os R$ 12 bilhões já pedidos, seguidos de mais R$ 8 bilhões.
Outro exemplo da onerosidade da máquina pública é o Poder Judiciário brasileiro. Ele é considerado o mais caro do mundo, consumindo 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB). Este valor é cinco vezes maior do que a média global, que gira em torno de 0,28% do PIB.
Esses números revelam que o país persiste em gastar recursos que não possui. A expansão de benefícios para diversos setores, sem a devida contrapartida de eficiência, contribui para um cenário de intranquilidade no mercado financeiro e de descrença na gestão pública.
Tributo como Rejeição Social: Uma Tese Atemporal
Na sua tese de doutoramento, defendida em 1982 e considerada a primeira da Universidade Mackenzie, Ives Gandra da Silva Martins afirmou que o tributo é uma norma de rejeição social. Essa tese, que continua atual e foi tema de uma obra comemorativa, destaca a imprescindibilidade do imposto para a sociedade.
Contudo, a rejeição surge da percepção de que o cidadão é obrigado a pagar muito além do que seria justo. Esse excedente, em vez de retornar em serviços públicos essenciais, alimenta uma máquina pública perdulária e ineficiente, além de sustentar privilégios e benesses dos detentores do poder.
Um caso emblemático é o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), onde contribuintes entregam seus recursos, mas grupos específicos se aproveitam do sistema. Em vez de reaver o montante dos que se beneficiaram indevidamente, penalizam-se novamente os contribuintes para ressarcir os lesados.
Essa situação demonstra como o cidadão é duplamente onerado, cobrindo a ineficiência ou o dolo na gestão pública. A carga tributária desmedida no Brasil, portanto, não apenas custeia serviços, mas também sustenta mordomias e privilegia a entourage do governo, transformando o sacrifício do contribuinte em enriquecimento para uma casta protegida.
A Chaga da Corrupção e a Impunidade
A realidade dos fatos, segundo Gandra da Silva Martins, desmente qualquer narrativa de integridade. O volume de recursos desviados em esquemas como o Petrolão, o Mensalão e os revelados pela Operação Lava Jato são exemplos claros da corrupção endêmica no país.
Mesmo com provas anuladas por tecnicismos processuais, a materialidade dos fatos e as evidências de desvio de recursos permanecem incontestáveis. Esse ciclo de impunidade e privilégio se renova em episódios recentes, como os que envolvem novamente o INSS, com grupos de influência se beneficiando de contratos milionários.
O combate vigoroso à corrupção, observado em passado recente e celebrado internacionalmente, esbarrou na resistência de quem se beneficia do status quo. A força do estamento foi tamanha que esses movimentos de avanço institucional acabaram neutralizados, resultando em um vazio de impunidade no cenário doméstico.
O Apelo por uma Bússola Moral e Princípios Constitucionais
O professor Ives Gandra da Silva Martins, com 62 anos dedicados à cátedra universitária, reitera seu compromisso inabalável com a defesa da moralidade pública. Suas manifestações, embora possam parecer um clamor isolado, buscam insurgir-se contra uma realidade que golpeia a dignidade dos brasileiros.
Ele enfatiza os alicerces escritos no artigo 37 da Constituição, que são os princípios da eficiência, publicidade e impessoalidade. Estes não são conceitos abstratos, mas pilares fundamentais que devem balizar o dever de quem administra a coisa pública, exigindo resultados, transparência e vedando o uso da máquina pública para favorecer pessoas próximas ao poder.
Sua luta, motivada pelo dever de restaurar a moralidade pública, não ataca pessoas, mas sim fatos e atos. Gandra da Silva Martins aspira o dia em que o bem comum deixe de ser um conceito abstrato para se tornar a bússola moral que orienta aqueles que detêm o destino do nosso país.
Para o futuro do Brasil, o professor espera que as ações e fatos criticados hoje possam levar a uma reflexão mais profunda. Que haja um desprendimento das vaidades imediatas e a renúncia aos interesses particulares, pavimentando o caminho para uma gestão pública mais ética e responsável.