Após a captura de Nicolás Maduro, a Venezuela vive um período de intensa reestruturação política, com Delcy Rodríguez emergindo como a figura central na busca por estabilidade e controle. Nos últimos 12 dias, a ex-vice-presidente e ministra do petróleo tem agido rapidamente para consolidar sua autoridade, posicionando aliados estratégicos e lidando com complexas demandas internas e externas.
Sua ascensão marca um novo capítulo para o país sul-americano, que agora tenta redefinir seu caminho em meio a profundas divisões internas e a necessidade urgente de reativar sua produção petrolífera. A tarefa de Rodríguez é desafiadora, envolvendo a neutralização de rivais poderosos e a reconstrução da confiança em uma nação abalada.
Detalhes sobre os riscos enfrentados por Rodríguez na tentativa de consolidar o controle interno e, ao mesmo tempo, atender às determinações de Washington sobre as vendas de petróleo foram revelados por fontes com conhecimento do governo, conforme informações obtidas pela Reuters.
A Estratégia de Consolidação de Delcy Rodríguez
Desde que assumiu o poder, **Delcy Rodríguez**, descrita como uma tecnocrata discreta, mas rigorosa, tem trabalhado para fortalecer sua posição. Ela nomeou um ex-presidente do banco central para auxiliar na gestão econômica, além de um novo chefe de gabinete e um novo líder para a temida DGCIM, a agência militar de contrainteligência venezuelana.
O major-general Gustavo González, de 65 anos, é o novo comandante da DGCIM. Essa decisão é vista por três fontes próximas ao governo como uma ação da presidente interina para **combater a maior ameaça à sua liderança**: Diosdado Cabello.
Rodríguez, apelidada de “a czarina” devido às suas amplas conexões comerciais, já exercia grande influência sobre as esferas de poder civil do país, incluindo o setor petrolífero. Agora, ela também conta com o aparente apoio dos Estados Unidos, reforçado por um encontro com o diretor da CIA, John Ratcliffe, em Caracas.
O Desafio de Diosdado Cabello e as Tensões Internas
O ministro do Interior, Diosdado Cabello, é uma figura poderosa na Venezuela, com laços estreitos com os serviços de segurança e os temidos “colectivos” de motociclistas. Ele também lidera o partido socialista governista PSUV e apresenta um programa semanal de quatro horas na TV estatal há 12 anos.
Seu primeiro ato público após a captura de Maduro foi aparecer na televisão vestindo um colete à prova de balas, cercado por guardas armados, e liderando um cântico que dizia: “Duvidar é trair”. Essa demonstração de força evidencia a complexidade da disputa pelo controle da Venezuela.
Apesar de Cabello ter se mostrado conciliador com Rodríguez, afirmando que eles estão “muito unidos”, fontes próximas a ambos disseram à Reuters que ele continua sendo a maior ameaça à capacidade de governo da presidente interina. Cabello é alvo de acusações dos EUA, que oferecem uma recompensa de US$ 25 milhões por sua captura.
A Influência dos EUA e o Dilema do Petróleo
A relação com os Estados Unidos é um fator crucial para a sobrevivência política de Rodríguez. Uma fonte próxima ao governo afirmou que ela “deixou bem claro que não tem capacidade de sobreviver sem o consentimento dos americanos”. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, teria dito à Reuters que Rodríguez havia sido “muito agradável de lidar” e que esperava que ela visitasse Washington.
As autoridades dos EUA entraram em contato com Cabello meses antes da operação contra Maduro e continuam a se comunicar com ele, alertando-o para não usar os serviços de segurança ou os “colectivos” para atacar a oposição, segundo quatro fontes ouvidas pela Reuters. Essa diplomacia indireta sublinha a complexidade do cenário político venezuelano.
Um dos principais pontos de negociação com Washington é o aumento da produção de petróleo da Venezuela. Rodríguez prometeu forjar um novo capítulo na política venezuelana com maior investimento no setor, buscando cumprir as exigências dos EUA e, ao mesmo tempo, estabilizar a economia do país.
Incerteza e a Economia Venezuelana
Em Caracas, as forças de segurança estão inquietas. Poucas horas após a posse de Rodríguez, houve uma breve explosão de fogo antiaéreo perto do palácio presidencial. Relatórios sugerem que foi um mal-entendido entre a polícia e a guarda presidencial, que abateu drones policiais, com o governo alegando que eram drones de espionagem.
A população está chocada com a captura de Maduro, dividida entre a esperança e o temor. Em algumas localidades, membros do PSUV foram instruídos a espionar vizinhos e denunciar qualquer um que comemorasse a queda de Maduro, segundo três membros do partido que falaram sob condição de anonimato. Essa atmosfera tensa exige que Rodríguez convença os leais ao partido de que não é um fantoche dos EUA.
Além dos desafios políticos, **Delcy Rodríguez** precisa estabilizar uma economia em crise. Os preços das commodities dispararam nos dias seguintes à ação dos EUA, e a nova líder precisa lutar por algum controle sobre as extensas redes clientelistas ligadas aos militares, que se desenvolveram ao longo de décadas de governo chavista.
A **Venezuela** possui cerca de 2.000 generais e almirantes, mais que o dobro dos EUA. Oficiais seniores e aposentados controlam a distribuição de alimentos, matérias-primas e a empresa estatal de petróleo PDVSA, enquanto dezenas de generais fazem parte da diretoria de empresas privadas. Muitos oficiais podem administrar seus feudos regionais como bem entenderem, o que contribui para a complexidade do controle do país.