Delcy Rodríguez e a Reconfiguração do Poder na Venezuela
Nas últimas semanas, a Venezuela tem sido palco de uma intensa reconfiguração política, desencadeada pela ascensão da presidente interina Delcy Rodríguez ao poder. Após a captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em um ataque dos EUA em 3 de janeiro, Rodríguez assumiu a liderança, promovendo uma série de mudanças significativas que visam consolidar seu novo governo.
As alterações não se limitaram ao gabinete ministerial, mas estenderam-se de forma profunda às Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), uma instituição crucial para a sustentação do chavismo. Essas movimentações, que incluem a substituição da Guarda Presidencial e ajustes na economia, revelam a estratégia de Rodríguez para firmar sua autoridade em um cenário de fragilidade e incerteza.
A amplitude dessas transformações e o seu foco no aparato militar são indicativos claros das prioridades da nova administração. O processo é acompanhado de perto por analistas e observadores internacionais, que buscam decifrar as implicações dessas ações para o futuro da nação sul-americana, conforme informações divulgadas pela CNN.
A Estratégia de Consolidação Militar do Novo Governo
Desde que assumiu a presidência interina, Delcy Rodríguez tem demonstrado uma determinação notável em reestruturar o poder na Venezuela, com um foco particular nas Forças Armadas. Este setor, tradicionalmente um pilar do chavismo, enfrenta um momento de grande sensibilidade e busca respostas sobre o ataque que levou à captura de Maduro. A jornalista Sebastiana Barráez, especializada nas FANB, revelou à CNN que Rodríguez “fez 28 mudanças militares significativas”, um número impressionante dada a fragilidade da situação.
Entre as movimentações mais destacadas, Barráez mencionou a saída de dois membros do Alto Comando Ampliado, os chefes das Regiões Estratégicas de Defesa Integral (REDI) dos Andes e do Leste. Essas trocas, curiosamente, não foram anunciadas por Rodríguez ou pelo Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, mas sim pelo general Domingo Hernández Lárez, comandante do Comando Operacional Estratégico das FANB, em sua conta no Instagram, o que já indica uma mudança na dinâmica de comunicação e poder.
Além disso, a presidente interina substituiu os chefes das duas bases aéreas mais importantes do país: a Generalíssimo Francisco de Miranda, em Caracas, e a El Libertador, em Aragua. Segundo Barráez, “este é um exemplo claro de que as Forças Armadas estão responsabilizando aqueles ligados à aviação” pelo que aconteceu. As alterações se estendem aos comandos de zona da Guarda Nacional Bolivariana, ao Comando Nacional Antidrogas, a brigadas e a diretores de academias militares, mostrando uma limpeza generalizada e a tentativa de Delcy Rodríguez de impor sua marca no novo governo.
A Crise Silenciosa nas FANB e o Enfraquecimento de Padrino López
As mudanças promovidas por Delcy Rodríguez ocorrem em um contexto de profunda crise interna nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, uma crise que, segundo Rafael Uzcátegui, diretor do think tank venezuelano Laboratório de Paz, é “silenciosa” e não se manifesta no debate público. “Anos de corrupção finalmente prejudicaram a capacidade militar, os sistemas estão inoperantes devido à falta de manutenção. Há um descontentamento, uma tensão, que (as autoridades) estão tentando impedir que se manifeste publicamente”, afirmou Uzcátegui.
Nesse cenário de fragilidade e descontentamento, a posição do Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, que foi uma figura-chave na estrutura de poder chavista, tem sido visivelmente enfraquecida. Sua falta de resposta efetiva ao ataque que resultou na captura de Maduro abalou sua autoridade e credibilidade. “Para muitos, está claro que não há liderança na instituição neste momento”, disse Barráez, destacando a percepção de um vácuo de poder.
Embora Padrino tenha sido um dos primeiros a se pronunciar após a captura de Maduro, demonstrando lealdade a Rodríguez, suas postagens motivacionais nas redes sociais perderam a eficácia. A narrativa oficial de normalidade e controle se chocou com a realidade do ataque. “Como podem aqueles que até ontem diziam que nada aconteceria manter essa narrativa? O problema é em quem acreditar. Uma instituição sem liderança está fadada à anarquia”, questionou Barráez, que prevê mais mudanças, inclusive no próprio ministério. Uzcátegui corrobora, afirmando que Padrino, em um país normal, deveria ter renunciado, mas se manteve subserviente, perdendo terreno com as recentes movimentações do novo governo.
Diosdado Cabello: O Capitalizador do Descontentamento
Em meio às profundas transformações no cenário político e militar venezuelano, Diosdado Cabello, ministro do Interior e secretário-geral do Partido Socialista Unido da Venezuela, emerge como uma figura que soube capitalizar o descontentamento dentro das Forças Armadas. Frequentemente identificado como o “número dois” do chavismo na última década, Cabello tem demonstrado apoio público a Delcy Rodríguez, pedindo união e suporte ao novo governo.
Apesar de ver alguns de seus colaboradores próximos sendo realocados nas recentes mudanças, outros foram promovidos, indicando que Cabello não saiu perdendo. Segundo Sebastiana Barráez, “Diosdado conseguiu ganhar alguma influência entre os militares que criticam a inaçã o em 3 de janeiro”, concentrando as discussões em reuniões fechadas. O pesquisador Rafael Uzcátegui concorda, afirmando que Cabello “conseguiu capitalizar o descontentamento” dos militares com os “discursos moderados do General Padrino”, que apelavam à reflexão em vez de uma ação mais contundente.
A insatisfação militar com a inação frente ao ataque dos EUA é um ponto crucial. Barráez destacou que “ocultar o problema é pior. Fingir que a situação é normal gerou muito ressentimento. (…) Recebi mensagens de militares reclamando duramente aos seus superiores. Isso era quase inédito”. Essa abertura para a crítica, que antes era impensável, demonstra a profundidade da crise interna e a habilidade de Cabello em se posicionar como um canal para essas queixas, fortalecendo sua influência em um momento de transição e fragilidade do comando militar tradicional.
O Pragmatismo Extremo da Família Rodríguez e a Nova Estratégia de Governo
A ascensão de Delcy Rodríguez e as subsequentes mudanças no novo governo da Venezuela são interpretadas pelo pesquisador Rafael Uzcátegui como um sinal de “pragmatismo extremo” por parte do chavismo. Essa abordagem sugere uma disposição em sacrificar até mesmo valores identitários do movimento para recuperar a economia e o capital político, indicando uma guinada estratégica significativa. A família Rodríguez, com Delcy e seu irmão Jorge, presidente da Assembleia Nacional, já constituía um bloco de poder antes mesmo da captura de Maduro, e agora busca consolidar sua influência.
“A família Rodríguez está colocando pessoas de confiança em posições-chave dentro das FANB. Eles estão tentando amenizar o descontentamento nos círculos militares”, afirmou Uzcátegui. Essa estratégia não se limita apenas a garantir lealdade, mas também pode ter como objetivo impedir vazamentos de informações relacionadas ao ataque que capturou Maduro, em meio a rumores de suposta conivência ou traição por parte de alguma facção política ou militar.
Curiosamente, Sebastiana Barráez aponta que Delcy Rodríguez “tem uma forte aversão às Forças Armadas”, uma característica incomum para a liderança chavista, historicamente tão ligada aos militares. Enquanto Maduro, após a morte de Hugo Chávez, rapidamente estabeleceu uma relação com Padrino para apaziguar outros grupos, Rodríguez parece operar com uma dinâmica diferente. A Venezuela, que é frequentemente descrita como “um quartel”, está agora sob uma liderança que, embora dependa do apoio militar, não parece ter a mesma conexão orgânica com a instituição, o que pode gerar tensões e desafios para o novo governo.
Diálogo com os EUA: Entre Soberania e Acordos Discretos
Um dos aspectos mais surpreendentes e reveladores do novo governo de Delcy Rodríguez é a intensificação dos contatos e esforços de coordenação com os Estados Unidos, mesmo em meio a declarações públicas aparentemente contraditórias. Enquanto Donald Trump afirma governar o país e controlar seu petróleo, e o chavismo reafirma sua retórica de soberania e independência, os bastidores indicam uma aproximação pragmática.
No domingo (25), Rodríguez defendeu o diálogo com a Casa Branca para resolver as “diferenças”, mas também reiterou que “chega” às imposições dos EUA sobre políticos venezuelanos. No dia seguinte, insistiu: “Não temos nenhum outro fator externo a quem obedecer”. No entanto, dias antes, Trump havia elogiado Rodríguez, dizendo que ela estava “demonstrando uma liderança muito forte” ao ser questionado sobre sua permanência no poder. Essa dualidade na retórica sinaliza uma complexa negociação em andamento.
A formalização dessa nova relação ainda não ocorreu em nenhum documento público, mas o fato de Rodríguez já ter conversado com Trump e recebido o diretor da CIA em Caracas é um indicativo claro da profundidade dos laços estabelecidos. Benigno Alarcón, fundador do Centro de Estudos Políticos e Governamentais da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, acredita que o plano dos EUA incluirá “desmantelar elementos-chave da administração do governo atual, particularmente seu aparato repressivo” e controlar a violência. Segundo sua análise, o secretário de Estado Marco Rubio é o responsável por moldar o acordo, buscando promover mudanças sem comprometer a estabilidade do novo governo e sem o envio de tropas americanas.
As Implicações das Mudanças no Gabinete e a Saída de Alex Saab
As mudanças promovidas por Delcy Rodríguez não se restringiram apenas ao setor militar; o gabinete ministerial também passou por uma reestruturação significativa. Entre as pastas afetadas estão o Ministério dos Transportes, o Ministério do Ecossocialismo e o Ministério das Comunicações e Informação, além da vice-presidência setorial da Economia. Essas movimentações indicam uma tentativa de Rodríguez de consolidar sua equipe e implementar sua visão para o novo governo em diversas áreas.
No entanto, a saída mais comentada e com maior repercussão foi a do empresário colombiano Alex Saab. Aliado próximo de Nicolás Maduro, Saab foi preso nos EUA sob acusação de ser um testa de ferro do ex-líder chavista, e posteriormente libertado em uma troca de prisioneiros, com as acusações retiradas. De acordo com Rafael Uzcátegui, a saída de Saab “faz parte do acordo de cooperação” com os Estados Unidos. “Ele era uma figura inconveniente; historicamente, não se dava bem com Rodríguez”, observou o pesquisador, indicando que sua remoção era estratégica para a nova dinâmica com Washington.
A exclusão de figuras como Alex Saab do círculo de poder não só facilita o diálogo com os EUA, removendo obstáculos e personalidades indesejáveis para Washington, mas também reforça a capacidade da família Rodríguez de moldar o novo governo de acordo com seus próprios interesses e alianças. Uzcátegui sugere que “há funcionários que precisam ser substituídos dentro dessa estrutura de cooperaç ão” e especula que um anúncio a respeito de Nicolás Maduro Guerra, filho do ditador deposto, poderá ser feito em breve. Essa “purga” de funcionários é vista como essencial para tornar o acordo com os EUA mais plausível, e Delcy Rodríguez será cautelosa em cumpri-lo.
O Futuro Incerteza da Venezuela sob o Novo Governo
O cenário atual na Venezuela, marcado pelas profundas mudanças promovidas por Delcy Rodríguez, aponta para um futuro de incertezas e desafios para o novo governo. A reestruturação das Forças Armadas, o enfraquecimento de figuras como Padrino López, o papel crescente de Diosdado Cabello e o pragmatismo da família Rodríguez, somados à complexa relação com os Estados Unidos, moldam um panorama político em constante evolução.
As Forças Armadas, que estão apenas começando a investigar o que realmente aconteceu no ataque que culminou na captura de Maduro, enfrentam uma crise de legitimidade e liderança. O desafio de aprofundar as mudanças e escolher substitutos adequados é imenso, pois uma escolha inadequada poderia levar à insubordinação em fileiras já desmoralizadas. “Idealmente, Delcy deveria tentar manter Padrino o máximo de tempo possível enquanto procura um substituto, que tem que vir do Exército; esse é o componente mais importante”, observou a jornalista Sebastiana Barráez, sublinhando a delicadeza da situação.
Ainda há muitas perguntas sem resposta sobre quem teve participação ou quem falhou no incidente de 3 de janeiro, e as investigações internas contra oficiais estão em andamento. O novo governo de Delcy Rodríguez navega por um terreno minado, onde a consolidação do poder interno se entrelaça com as exigências de uma nova diplomacia com os EUA. A “purga” de funcionários e a reformulação da estrutura de poder, como a saída de Alex Saab, são passos iniciais em um acordo ainda em finalização, que promete redefinir as bases do chavismo e o destino da Venezuela nos próximos anos.