Pesquisadora que expôs repasses milionários é alvo de inquérito da Polícia Federal
Um vídeo publicado nas redes sociais pela pesquisadora Aline Borges, conhecida como Nine Borges, desencadeou um inquérito na Polícia Federal, transformando a denunciante em investigada. Aline afirma ter identificado repasses milionários da Secretaria Nacional LGBTQIA+ a uma ONG específica, com base em dados oficiais do próprio governo federal. A publicação, segundo ela, visava provocar a atuação dos órgãos de controle, mas resultou em uma investigação contra si, sob acusações que ela alega terem sido reduzidas de calúnia e difamação para injúria.
Em entrevista, Aline detalhou que, ao cruzar informações do Portal da Transparência, notou um padrão atípico: diversas ONGs com CNPJs distintos recebiam vultosas quantias, mas compartilhavam o mesmo endereço. Um dos repasses identificados ultrapassaria os R$ 3 milhões a uma única organização. A pesquisadora alega que, após a divulgação do vídeo com essas informações, o inquérito policial foi aberto, com acusações iniciais de calúnia, difamação e transfobia, sendo que os dois primeiros crimes teriam sido descartados pelos delegados.
A cientista relata que, apesar da investigação contra ela prosseguir sob a tipificação de injúria, sob o argumento de que teria extrapolado os limites da liberdade de expressão, os repasses que ela denunciou não teriam sido formalmente investigados. Aline Borges vê sua situação como um reflexo de um cenário mais amplo, onde quem expõe irregularidades acaba se tornando alvo, em vez de ser amparado pela atuação estatal. As informações foram divulgadas por ela em entrevistas recentes, conforme relato à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios.
O que diz a pesquisadora sobre a investigação e os repasses expostos
Aline Borges, que se define como pesquisadora e ativista, afirmou que seu objetivo ao divulgar o vídeo era exatamente o de fomentar o controle e a fiscalização sobre os repasses públicos. Ela utilizou dados extraídos do Portal da Transparência, que são de acesso público, para demonstrar um padrão que considerou suspeito. Segundo o seu relato, diferentes Organizações Não Governamentais (ONGs), apesar de possuírem CNPJs distintos, estariam registradas no mesmo endereço físico. Essa coincidência, somada aos valores expressivos dos repasses, levantou um sinal de alerta.
A pesquisadora destacou que mais de R$ 3 milhões teriam sido direcionados a uma única ONG específica, apresentando cópias de tela e prints do próprio Portal da Transparência como prova de suas alegações. Ao detalhar os repasses e apontar a possibilidade de conflito de interesses, Aline esperava que os órgãos competentes iniciassem uma investigação formal sobre a destinação dos recursos. No entanto, o desdobramento foi inesperado, com ela própria se tornando o foco de um inquérito policial.
Segundo o relato de Aline, o inquérito foi instaurado após a publicação do vídeo, com base em denúncias que a acusavam de calúnia, difamação e transfobia. Ela ressalta, contudo, que os delegados responsáveis pelo caso teriam concluído pela inexistência de calúnia e difamação. Mesmo assim, o processo seguiu para o Ministério Público, que entendeu que a conduta da pesquisadora poderia configurar o crime de injúria, por supostamente ter extrapolado os limites da liberdade de expressão. Aline lamenta que, enquanto ela é investigada, as denúncias sobre os repasses não parecem ter sido aprofundadas.
A liberdade de expressão em xeque e a crítica ao “wokeísmo”
Aline Borges expressou preocupação com o que ela descreve como um cerceamento do debate público, especialmente em pautas consideradas sensíveis. Ela critica o que denomina de “wokeísmo”, argumentando que essa ideologia, ao tratar determinadas teorias como dogmas inquestionáveis, inviabiliza o debate acadêmico e científico. Segundo a pesquisadora, essa postura acaba por silenciar vozes discordantes e cria um ambiente propício para o que ela chama de “perseguição” a quem ousa questionar.
Para Aline, a impossibilidade de questionamento e crítica tem um impacto direto e prejudicial na produção de conhecimento. Ela defende que discursos acadêmicos, mesmo que considerados inconvenientes ou controversos, devem ter liberdade para serem expressos, pois é através do embate de ideias que a ciência avança. Quando, segundo ela, qualquer crítica é automaticamente rotulada como preconceito ou transfobia, estabelece-se um clima de estagnação intelectual, onde o medo de se expressar inibe a pesquisa e a reflexão crítica.
A pesquisadora acredita que essa dinâmica contribui para um ambiente onde a busca pela verdade científica é ofuscada pela necessidade de aderir a narrativas preestabelecidas. Ela vê essa tendência como um obstáculo ao progresso do conhecimento e à própria função da universidade como espaço de pensamento livre e crítico. A sua própria experiência, de ser investigada após apresentar dados públicos, é vista por ela como um sintoma desse problema mais amplo.
Universidades e a guinada para a militância em detrimento da ciência
A pesquisadora Aline Borges também direcionou suas críticas ao papel que, em sua visão, muitas instituições de ensino superior passaram a desempenhar. Ela argumenta que uma parcela significativa das universidades teria abandonado sua função primordial de produzir ciência para se dedicar a um ativismo ideológico. Essa mudança de foco, segundo ela, compromete a essência da academia.
“Quando a universidade decide que sua missão é fazer ‘justiça social’, ela muda completamente sua razão de existir”, afirma Aline, ponderando que a centralidade do método científico dá lugar à adequação ideológica. Essa guinada, na sua opinião, não apenas prejudica a qualidade da pesquisa produzida, mas também afeta a formação intelectual dos estudantes, que podem ser expostos a uma visão de mundo única e sem contrapontos.
Para a cientista, essa mentalidade resulta em um ambiente onde “tudo passa a valer, desde que se encaixe na narrativa correta”. Ela lamenta a ausência de debates contraditórios e o predomínio de uma única perspectiva, o que, em sua análise, empobrece o ambiente acadêmico e esvazia o papel da universidade como um polo de pensamento crítico e independente. A busca pelo conhecimento, que deveria ser o motor da academia, cede espaço à conformidade ideológica.
O “buraco é mais embaixo”: comparações com o cenário internacional
Vivendo atualmente no Reino Unido, Aline Borges traçou um paralelo entre a situação brasileira e o contexto de países como o Reino Unido. Ela reconhece que mesmo em nações europeias existem problemas relacionados à censura e a consequências legais para manifestações online, mas aponta diferenças significativas na forma como as instituições lidam com essas questões.
Segundo a pesquisadora, as instituições britânicas demonstram maior maturidade e oferecem mais previsibilidade e garantias legais. “As instituições lá são muito mais maduras. A deterioração é lenta”, analisa, sugerindo um processo gradual de adaptação e resiliência institucional. Em contraste, ela percebe no Brasil uma fragilidade acentuada e um “ativismo judicial” que, em sua avaliação, intensificam a insegurança jurídica e tornam o ambiente mais propício a decisões questionáveis.
Essa comparação reforça a percepção de Aline de que o problema no Brasil é mais complexo e profundo, com “o buraco é mais embaixo”. A falta de robustez institucional e a influência de fatores ideológicos em decisões judiciais e administrativas criam um cenário onde quem busca transparência e fiscalização de recursos públicos pode se ver em uma posição de vulnerabilidade, sendo, paradoxalmente, alvo de investigações, enquanto as denúncias originais podem ser negligenciadas.
Desdobramentos e o futuro da pesquisa e da liberdade de expressão no Brasil
O caso de Aline Borges levanta importantes questionamentos sobre os limites da liberdade de expressão, o papel dos órgãos de controle e a influência de agendas ideológicas na esfera pública e acadêmica. A pesquisadora, ao expor dados públicos com o intuito de fiscalização, acabou por se tornar alvo de um processo judicial, o que, segundo ela, desvia o foco das irregularidades que ela buscou denunciar.
O desenrolar do inquérito policial e a eventual decisão do Ministério Público sobre o caso de injúria contra Aline Borges serão cruciais para definir precedentes sobre como denúncias baseadas em dados oficiais podem ser tratadas. A pesquisadora, por sua vez, continua a defender a importância do debate aberto e da crítica como ferramentas essenciais para o avanço científico e para a própria saúde democrática do país.
O cenário atual, marcado por tensões entre a liberdade de expressar e a necessidade de coibir discursos de ódio e desinformação, exige uma análise cuidadosa. O caso de Aline Borges se insere nesse contexto complexo, e suas declarações sobre o “wokeísmo”, o papel das universidades e a fragilidade institucional brasileira oferecem um ponto de vista crítico sobre os desafios que o país enfrenta na garantia de um ambiente de debate livre e produtivo, onde a fiscalização de recursos públicos seja efetiva e os denunciantes se sintam protegidos, e não perseguidos.