Depoimento vazado de Daniel Vorcaro à PF sacode Brasília e acende alerta sobre rombo bilionário no BRB

Trechos de um depoimento crucial do banqueiro Daniel Vorcaro à Polícia Federal (PF), prestado no final do ano passado, foram vazados à imprensa nesta sexta-feira, 23 de fevereiro. As revelações trazem à luz detalhes sobre a controversa venda do Banco Master ao BRB, colocando o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), no centro das discussões.

O depoimento de Vorcaro sugere uma proximidade maior do que a admitida pelo governo do DF em relação às negociações, que resultaram em um suposto rombo de bilhões nos cofres públicos. O caso levanta sérias questões sobre a responsabilidade política e financeira.

A assessoria de comunicação de Vorcaro, procurada, optou por não comentar o caso. As informações foram divulgadas por diferentes veículos de imprensa, conforme o vazamento do depoimento da Polícia Federal.

Proximidade com Ibaneis Rocha: O Depoimento que Abala o GDF

O depoimento vazado de Daniel Vorcaro detalha uma relação direta com o chefe do Executivo local, Ibaneis Rocha. Vorcaro afirmou à PF ter conversado pessoalmente com o governador em duas ocasiões sobre a operação de venda do Banco Master ao BRB, entre 2024 e 2025.

Esses encontros, segundo o banqueiro, teriam ocorrido tanto em sua residência quanto na casa do próprio governador. Tal declaração contradiz a postura do governo do DF, que tem buscado manter distância dos aspectos técnicos da transação.

Vorcaro alegou ainda que o negócio avançou com o apoio do governo local e só foi interrompido pelo Banco Central (BC), que levantou suspeitas sobre a operação. A situação é grave, com a possibilidade de o Governo do Distrito Federal (GDF) ter de aportar fundos do orçamento para cobrir prejuízos.

Em resposta às alegações, o governador Ibaneis Rocha negou veementemente os fatos em declaração ao Estadão. Ele afirmou ter estado na casa de Vorcaro apenas uma vez para um almoço de apresentação, ocasião em que, segundo ele, permaneceu em silêncio absoluto.

“Estive uma vez a convite para um almoço, quando conheci ele. Entrei mudo e saí calado”, afirmou Ibaneis Rocha a jornalistas, atribuindo toda a responsabilidade a Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB e afastado pela justiça.

Diante das revelações do depoimento de Daniel Vorcaro, a oposição ao governo manifestou a intenção de avançar com um pedido de impeachment de Ibaneis. Questionado pela PF sobre suas conexões políticas em Brasília, Vorcaro admitiu os contatos com Ibaneis, mas evitou citar outros nomes, sustentando que tais relações não possuíam ligação direta com as fraudes investigadas.

O depoimento está inserido no contexto da investigação de uma suposta fraude na qual o Banco Master teria vendido carteiras de crédito inexistentes ou desvalorizadas ao BRB, gerando um rombo estimado em R$ 4 bilhões aos cofres públicos.

O Modelo de Negócios do Banco Master e a Dependência do FGC

No âmbito operacional, Vorcaro explicou que a estratégia para o crescimento do Banco Master consistia em captar recursos oferecendo taxas de juros muito acima do mercado. De acordo com ele, o atrativo para os investidores não era a saúde financeira da instituição, mas a garantia de ressarcimento pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de quebra.

O banqueiro admitiu que o Master enfrentava crises constantes de liquidez e dependia da cessão de ativos para manter o caixa funcionando. Ele alegou que esse modelo de negócio era “legal” e de “conhecimento público”, mas que as mudanças regulatórias do Banco Central interromperam abruptamente suas fontes de financiamento.

Segundo Vorcaro, o anúncio da venda para o BRB acabou por fechar as portas do mercado, asfixiando o banco definitivamente. Este ponto do depoimento vazado é crucial para entender a fragilidade do Banco Master.

O Rombo Bilionário no BRB e o Risco ao Dinheiro Público

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal indicam que o banco estatal BRB teria pago impressionantes R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito sem lastro. Esse negócio foi o pontapé inicial das investigações que hoje apontam outros crimes financeiros e o depoimento de Daniel Vorcaro reforça as apurações.

Diante do avanço das apurações, o BRB já admite a possibilidade de registrar prejuízos decorrentes das operações financeiras ligadas ao Banco Master. Como plano de contingência, a instituição avalia receber aportes do governo do Distrito Federal, o que na prática representa o uso de recursos do contribuinte para cobrir as perdas.

Segundo o próprio banco, a gestão de Ibaneis Rocha já sinalizou com a possibilidade de capitalizar as perdas financeiras. Essa alternativa acendeu o alerta na oposição, que vê risco direto ao dinheiro público e questiona a responsabilidade política do governador no caso do rombo no BRB.

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