Deputados de Oposição Denunciam Ser ‘Boi de Piranha’ no Conselho de Ética: Entenda a Acusação
Três deputados de oposição, alvos de representações no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, denunciam estar sendo usados como “boi de piranha” pela cúpula do Parlamento. A acusação surge após a participação dos parlamentares na ocupação da Mesa Diretora da Casa em 2025, um ato de protesto que interrompeu os trabalhos legislativos e agora resulta em um processo que pode levar à suspensão de seus mandatos.
Os deputados Zé Trovão (PL-SC), Marcel Van Hattem (Novo-RS) e Marcos Pollon (PL-MS) são os nomes representados, enfrentando a possibilidade de punições severas. Eles argumentam que a escolha de apenas três nomes, enquanto outros parlamentares também teriam participado do ato, seria uma manobra estratégica para demonstrar força e retaliar, sem atingir a totalidade dos envolvidos.
A expressão “boi de piranha”, popularmente utilizada, ganha contornos políticos ao ser empregada para descrever a situação. O caso, que está sob apuração no colegiado com oitivas programadas até esta quarta-feira (11), revela tensões crescentes dentro do Congresso Nacional, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
A Ocupação da Mesa Diretora: Contexto e Acusações
O epicentro da atual crise no Conselho de Ética remonta à ocupação da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, ocorrida em 2025. Este ato de protesto por parte de parlamentares de oposição teve como estopim a decretação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, um evento que gerou grande comoção e mobilização entre seus apoiadores e aliados políticos.
A ocupação resultou na interrupção dos trabalhos legislativos, um fato grave que motivou a abertura de processos no Conselho de Ética. Zé Trovão e Marcel Van Hattem são acusados de obstruir a cadeira do presidente da Casa, enquanto Marcos Pollon responde pela obstrução da cadeira do vice-presidente. As infrações, se comprovadas, podem acarretar em punições que variam, mas que incluem a suspensão do mandato por um período de até 90 dias, o que representa um impacto significativo na atuação parlamentar dos envolvidos.
A relevância desse episódio transcende a mera interrupção de uma sessão. Ele simboliza um momento de alta polarização política e a disposição de parte da oposição em utilizar táticas mais incisivas para manifestar seu descontentamento e pressionar por suas pautas. A reação da cúpula da Câmara, ao levar o caso ao Conselho de Ética, demonstra a seriedade com que tais atos são encarados e a busca por manter a ordem e o decoro dentro do ambiente legislativo.
Os Deputados Alvos: Zé Trovão, Van Hattem e Pollon sob Análise
Os três parlamentares representados no Conselho de Ética – Zé Trovão (PL-SC), Marcel Van Hattem (Novo-RS) e Marcos Pollon (PL-MS) – são figuras conhecidas por sua postura alinhada à direita e por sua oposição contundente ao governo e a certas decisões do judiciário. Suas trajetórias políticas os colocam frequentemente no centro de debates e controvérsias, tornando-os alvos potenciais em momentos de tensão política.
Zé Trovão, um dos mais vocais nas denúncias de “boi de piranha”, expressou sua indignação antes da reunião do Conselho de Ética. Ele afirmou que a acusação contra apenas o trio seria uma conveniência, ignorando a participação de outros parlamentares no ato de ocupação. Sua fala, exclusiva à Gazeta do Povo, destaca a percepção de uma seletividade no processo, visando a exemplificação e a demonstração de poder por parte de lideranças da Câmara.
Marcel Van Hattem, conhecido por sua atuação combativa e por defender pautas liberais, também se vê envolvido em um processo que pode comprometer seu mandato. Sua presença entre os acusados reforça a ideia de que a mira está sobre parlamentares com perfis de oposição mais enfática, que frequentemente confrontam a agenda e as decisões da Mesa Diretora.
Marcos Pollon, por sua vez, além de ser um dos acusados, trouxe à discussão a própria explicação da metáfora do “boi de piranha”, enraizada na cultura popular de seu estado. Sua análise sobre o termo, associando-o a um boi velho ferido deixado no rio para garantir a passagem segura do rebanho, ilustra a dimensão simbólica que a expressão adquiriu no contexto político atual, reforçando a percepção de que eles estariam sendo sacrificados em prol de um objetivo maior da cúpula.
A Metáfora do ‘Boi de Piranha’: Origem e Aplicação Política
A expressão “boi de piranha” é um ditado popular com raízes profundas na cultura rural brasileira, especialmente em regiões onde a pecuária e a vida ribeirinha são proeminentes. O deputado Marcos Pollon (PL-MS), ao discorrer sobre o termo, explicou sua origem e significado, revelando a crueza da metáfora.
Segundo Pollon, que citou seu avô tropeiro, a lenda narra a prática de se usar um boi velho e ferido, que era intencionalmente deixado em rios infestados por piranhas. O objetivo era que o animal atraísse os peixes carnívoros, permitindo que o restante do rebanho atravessasse o rio em segurança, sem ser atacado. É, portanto, um sacrifício calculado de um indivíduo em benefício de um grupo maior.
No contexto político atual, a aplicação da metáfora pelos deputados de oposição é carregada de simbolismo e acusação. Eles se veem como os “bois velhos e feridos”, sendo expostos e processados pelo Conselho de Ética para que outras figuras políticas, talvez mais poderosas ou com maior influência, possam escapar ilesas ou para que a cúpula da Câmara demonstre uma postura de rigor e controle. A denúncia de Zé Trovão de que “querem usar três pessoas como ‘boi de piranha’”, buscando mostrar “que tem força, que é rei”, exemplifica essa percepção de sacrifício direcionado.
Essa interpretação sugere que o processo ético não seria meramente uma aplicação imparcial das regras, mas uma ação estratégica com motivações políticas. Ao se identificarem como “boi de piranha”, os parlamentares buscam despertar a atenção para o que consideram uma injustiça e uma manobra de poder, questionando a legitimidade e a equidade do processo em curso.
O Papel do Conselho de Ética e as Possíveis Punições
O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados desempenha um papel crucial na manutenção da integridade e da conduta ética dos membros do Congresso Nacional. Sua função principal é zelar pelo cumprimento do Código de Ética e Decoro Parlamentar, investigando denúncias e aplicando sanções quando comprovadas infrações às normas que regem a conduta dos deputados.
As representações contra Zé Trovão, Marcel Van Hattem e Marcos Pollon foram protocoladas com base na ocupação da Mesa Diretora, um ato que é considerado uma grave violação do regimento interno da Casa e do próprio decoro parlamentar. A obstrução dos trabalhos legislativos e das cadeiras da presidência e vice-presidência são atos que, em tese, atentam contra a ordem e o bom funcionamento do Parlamento.
As punições que podem ser impostas pelo Conselho de Ética variam de advertências e censuras a suspensões do mandato e, em casos extremos, até a cassação. No caso dos deputados envolvidos na ocupação, a fonte menciona a possibilidade de suspensão do mandato por um período de até 90 dias. Uma suspensão, mesmo que temporária, impede o parlamentar de exercer suas funções, votar em projetos de lei, participar de comissões e representar seus eleitores, o que configura uma sanção de alto impacto.
O processo no Conselho de Ética geralmente envolve diversas etapas, incluindo a apresentação da representação, a defesa dos acusados, a coleta de provas e depoimentos (oitivas), a elaboração de um parecer e, finalmente, a votação no próprio conselho e, em alguns casos, no plenário da Câmara. A condução das oitivas, que se estendem até esta quarta-feira (11), é uma fase fundamental para a apuração dos fatos e a construção do parecer final.
Acusações de Acordo Quebrado e a ‘Raiva’ da Cúpula da Câmara
Um dos pontos centrais da denúncia dos deputados de oposição, especialmente de Zé Trovão, é a alegação de que houve um acordo simulado para a desocupação da Mesa Diretora, que, posteriormente, não teria sido cumprido pela cúpula da Câmara. Essa quebra de palavra seria, na visão dos parlamentares, a verdadeira motivação por trás da seletividade do processo no Conselho de Ética.
Zé Trovão afirmou que “fingiram fazer um acordo para nos fazer liberar a mesa e depois não o cumpriram. Feio não é fazer acordo, feio é não cumprir”. Essa declaração aponta para uma negociação que teria ocorrido nos bastidores para pacificar a situação e encerrar a ocupação. O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, teria negado a existência de tal acordo, gerando um impasse e aprofundando a desconfiança.
A percepção de Zé Trovão é que a tentativa de punir apenas três deputados pelo episódio é fruto da “raiva” da cúpula por ter sido obrigada a fingir uma negociação. Em outras palavras, a liderança da Câmara teria se sentido desrespeitada ou manipulada pela oposição ao ter que simular um diálogo para resolver a crise, e agora estaria buscando uma retaliação direcionada.
Essa dinâmica de um acordo supostamente quebrado adiciona uma camada de complexidade e acidez ao caso. Ela transforma o processo ético de uma mera aplicação de regras em uma disputa política mais ampla, onde a honra e a confiança entre as partes estão em jogo. A acusação de “raiva” sugere que as decisões não estariam sendo tomadas apenas com base em princípios, mas também em ressentimentos e desejos de afirmação de poder, como apontado por Zé Trovão ao mencionar que “Alguém querendo mostrar que tem força, que é rei”.
Implicações Políticas e o Futuro dos Parlamentares
O desdobramento do processo no Conselho de Ética, com a denúncia de “boi de piranha” por parte dos deputados de oposição, carrega significativas implicações políticas para o cenário legislativo brasileiro. A forma como este caso for conduzido e o resultado final terão ressonância não apenas para os parlamentares diretamente envolvidos, mas para a dinâmica de poder entre governo e oposição na Câmara.
Para Zé Trovão, Marcel Van Hattem e Marcos Pollon, a eventual suspensão do mandato por até 90 dias representaria um duro golpe em suas carreiras políticas. Além da perda temporária de suas prerrogativas parlamentares, a punição poderia manchar suas imagens públicas e dificultar futuras reeleições, sendo um precedente negativo em seus históricos. A defesa, portanto, não é apenas jurídica, mas profundamente política, buscando deslegitimar a acusação e o processo.
A denúncia de que o presidente da Câmara, Hugo Motta, e outras lideranças estariam por trás dessa “seletividade” gera um atrito direto e público entre a oposição e a Mesa Diretora. Isso pode acirrar os ânimos, dificultar negociações futuras e endurecer a postura da oposição em outras votações e debates importantes. A percepção de perseguição política, se consolidada, pode unir ainda mais os blocos de oposição, aumentando a resistência a projetos do governo ou da própria Mesa Diretora.
Além disso, o caso testa a credibilidade do Conselho de Ética. Se a percepção de que o conselho está sendo utilizado como ferramenta política para retaliar adversários se fortalecer, a confiança na imparcialidade de suas decisões pode ser abalada, gerando um questionamento sobre a efetividade e a justiça de seus processos. A forma como o conselho gerenciará as oitivas e as evidências será crucial para a manutenção de sua reputação.
Próximos Passos: As Oitivas e o Andamento do Processo
O processo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar está em uma fase crucial de apuração. As oitivas, que são sessões de depoimento para coletar informações e esclarecer os fatos, estão sendo conduzidas até esta quarta-feira (11). Esta etapa é fundamental para que os membros do colegiado possam formar suas convicções sobre a conduta dos deputados Zé Trovão, Marcel Van Hattem e Marcos Pollon.
Durante as oitivas, os parlamentares acusados terão a oportunidade de apresentar suas versões dos acontecimentos, confrontar as acusações e apresentar suas defesas. Testemunhas, se houver, também poderão ser ouvidas, e documentos e outras provas podem ser anexados ao processo. É um momento de intensa atividade para a defesa e a acusação, onde cada detalhe pode ser decisivo para o resultado final.
Após a conclusão das oitivas, o próximo passo será a elaboração de um parecer pelo relator do caso. Este parecer consolidará todas as informações coletadas, as argumentações da defesa e da acusação, e apresentará uma recomendação ao plenário do Conselho de Ética. O parecer pode sugerir o arquivamento do processo, a aplicação de uma das sanções previstas no Código de Ética, ou outras medidas.
O parecer será então votado pelos membros do Conselho de Ética. Dependendo do resultado dessa votação e da gravidade da sanção proposta, o processo poderá seguir para votação no plenário da Câmara dos Deputados, especialmente se envolver suspensão ou cassação de mandato. Acompanhar as próximas etapas será crucial para entender o desfecho dessa complexa disputa política e ética que envolve a ocupação da Mesa Diretora e as acusações de “boi de piranha”.