Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a busca pela melhor cidade para viver frequentemente remete a grandes capitais ou centros urbanos desenvolvidos. Contudo, um levantamento exclusivo mostra que a verdadeira qualidade de vida pode ser encontrada em locais que fogem completamente a esses padrões.
Imagine um lugar sem arranha-céus, sem milhões de habitantes e, principalmente, sem o trânsito intenso das grandes metrópoles. Este é o cenário de uma pequena joia do interior que conquistou o topo do ranking nacional.
Jateí, no interior do Mato Grosso do Sul, foi eleita a melhor cidade para viver no Brasil, segundo o abrangente Ranking das Cidades da Gazeta do Povo, que analisou 27 indicadores ajustados ao porte populacional de 5.570 municípios brasileiros.
Segurança e Qualidade de Vida no Cotidiano
O que faz de Jateí a melhor cidade para viver no Brasil transcende os números, refletindo-se diretamente na percepção de seus moradores. O Ranking das Cidades da Gazeta do Povo evidencia um dado impressionante: o município não registra homicídios, um feito raro no cenário nacional.
Além disso, a cidade se orgulha da inexistência de moradores em situação de rua e de baixíssimos índices de acidentes. As internações relacionadas ao uso de drogas também aparecem em patamar reduzido, contribuindo para um ambiente de tranquilidade.
Gleici Mara Silva, servidora pública que se mudou para Jateí há três anos, descreve a sensação de segurança. Ela afirma: “Eu me sinto em um condomínio fechado. Quando a gente entra no portal da cidade já sente a tranquilidade, a segurança”.
Gleici, que antes vivia em Fátima do Sul, no sudoeste do Mato Grosso do Sul, ressalta a liberdade que sua filha tem para praticar corrida nas ruas, algo impensável em muitos lugares. “Se aparece alguém estranho, a Polícia Militar já aborda”, explica, reforçando a vigilância constante.
A percepção de segurança é tão alta que, segundo Gleici, “A gente dorme com a porta encostada, o carro pode ficar aberto na rua”. O comerciante Diogo Araújo, que mantém um posto de combustíveis há 15 anos em Jateí, corrobora: “Nunca registramos um furto no estabelecimento. A presença do policiamento é constante. É uma cidade única”.
Infraestrutura Urbana de Excelência
A qualidade de vida em Jateí é sustentada por uma infraestrutura urbana exemplar, um dos pontos fortes destacados pelo levantamento da Gazeta do Povo. Quase a totalidade das ruas é pavimentada, garantindo fácil acesso e mobilidade.
A iluminação pública é eficiente e a coleta regular de lixo atende a todos os bairros, demonstrando a eficácia da gestão municipal. Gleici Mara Silva ainda revela uma peculiaridade local: “Há uma unidade prisional feminina aqui na cidade e as detentas trabalham na limpeza pública”.
Na área da saúde, Márcia Gandine, servidora pública e moradora há 46 anos, elogia a estrutura. “Em cada uma das quatro unidades básicas de saúde trabalham quatro médicos. No hospital da cidade são vários outros. É difícil encontrar essa estrutura em uma cidade pequena”, comenta Márcia.
O comerciante Diego Araujo destaca a manutenção das tradições dos pequenos municípios, com conversas nas calçadas e brincadeiras nas praças. “Aqui é tudo muito bem arborizado. As crianças podem brincar nas calçadas, na sombra. As ruas são 100% asfaltadas e toda iluminação é em LED. Não há problema em ficar nas ruas até tarde”, ele observa, sublinhando o conforto e a segurança do ambiente.
Economia Impulsionada pela Suinocultura e Agricultura
Os indicadores econômicos de Jateí são igualmente impressionantes e contribuem para a cidade ser a melhor cidade para viver no Brasil. O salário médio atinge R$ 3.679, superando a média nacional de R$ 3.477 registrada no segundo semestre de 2025, conforme dados do IBGE.
O Produto Interno Bruto (PIB) per capita alcança a marca de R$ 119.162,85, um valor significativo para um município de seu porte. Esse desempenho é impulsionado principalmente pela suinocultura, que sustenta a base econômica local.
A prefeitura de Jateí informa que o município abastece uma parte considerável do abate diário da indústria Seara Alimentos. Ademar Caetano, produtor rural desde 1991, atua na criação de porcos e calcula: “Em média são 8 mil porcos abatidos por dia na Seara. Pelo menos 40% desse total é criação de Jateí”.
A cadeia produtiva da suinocultura é complexa e envolve diversas etapas, desde a maternidade até o abate, gerando empregos e renda. “Há uma expectativa grande de crescimento, porque encontramos um nicho que deu certo para fazer crescer a nossa produção rural”, afirma Ademar.
Em 2025, a Secretaria de Agricultura de Jateí registrou o abate de 254 mil suínos. Historicamente, desde sua emancipação em 1947, a força econômica de Jateí reside na agricultura e pecuária. Embora algodão, café e mandioca tenham liderado no passado, o milho e a soja se tornaram as maiores culturas locais.
As estimativas da Secretaria da Agricultura para 2025 apontavam para uma produção de soja de 151 milhões de toneladas e de milho de 134 milhões de toneladas, números que ainda estão sendo finalizados.
História e Tradições que Moldam a Identidade de Jateí
Jateí, o segundo menor município de Mato Grosso do Sul em população, com apenas 47 habitantes a mais que Figueirão, o menos populoso do estado, possui uma rica história que molda sua identidade. Sua área territorial soma 1.933,316 quilômetros quadrados, com uma densidade demográfica de 1,85 habitante por quilômetro quadrado.
O povoamento da região começou em 1943, com a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, durante o governo de Getúlio Vargas. O município foi oficialmente criado pela Lei nº 1950, em 11 de novembro de 1963.
O nome Jateí deriva de uma variação de jataí, uma espécie de abelha silvestre. Relatos históricos contam que o nome está associado a um episódio em que um pai, fugindo de um enxame, explicou ao filho que havia esquecido um machado na mata, dizendo: “esqueci lá no jateí”.
A fé também é um pilar da comunidade. Um dos fundadores, Pedro Neres, chegou às terras de Jateí em 1946 com uma imagem de São Pedro, e a primeira capela foi erguida em homenagem ao santo, devoção que se mantém até hoje na matriz da cidade.
A professora aposentada Ilda Lopes recorda as primeiras celebrações da tradicional Festa da Fogueira em honra a São Pedro. “Nasci conhecendo a tradição da fogueira em honra a São Pedro. Meus pais ajudavam nas primeiras fogueiras, que se acendiam para rezar o terço”, conta.
Em 1976, o professor Manoel Sanches Rodrigues e seus alunos iniciaram o projeto de uma fogueira maior, que já naquela época alcançava seis metros. Em 2002, a fogueira de Jateí entrou para o livro dos recordes mundiais, conforme informações da prefeitura.
Nas últimas edições da festa, a fogueira chegou a impressionantes 60 metros de altura, atraindo mais de 120 mil pessoas em 2022. A construção da fogueira, que leva cerca de um mês, utiliza madeira de reflorestamento e segue rigorosas normas técnicas de segurança.
A base da estrutura começa com oito metros de largura, estreitando-se para dois metros nos lances finais. No topo, feixes de bambu formam uma espécie de pavio, e um mastro final sustenta a bandeira do município. Para sua montagem, uma estrutura hidráulica funciona como elevador e cabos de aço garantem a sustentação de toda a fogueira, que ocorre na semana do dia 29 de junho.