Desemprego em queda no Brasil: entenda as realidades escondidas por trás dos bons números do mercado de trabalho e o risco futuro

Os últimos dados sobre o desemprego no Brasil têm sido motivo de comemoração, com a taxa geral de desocupação atingindo o menor valor da série histórica, 5,2% no trimestre móvel encerrado em novembro. Este cenário positivo é frequentemente utilizado como um termômetro da saúde econômica do país.

No entanto, uma análise mais aprofundada revela nuances importantes que merecem atenção. Por trás dos números aparentemente robustos, existem dinâmicas que podem indicar desafios futuros para o mercado de trabalho brasileiro.

É fundamental compreender que parte desse dinamismo se deve a estratégias que podem cobrar um preço no médio prazo, conforme apontam as informações divulgadas pelo IBGE, pela Fundação Getulio Vargas e por projeções do Estadão/Broadcast.

O Cenário dos Números: Crescimento Desigual e Formalização

Entre novembro de 2024 e novembro de 2025, a população total ocupada no Brasil registrou um salto de 101,916 milhões para 103,019 milhões, um aumento de 1,08%. Contudo, esse crescimento não foi uniforme em todos os setores da economia brasileira.

Observa-se um contraste notável entre o setor privado e o público. Enquanto os empregados no setor privado (excluindo trabalhadores domésticos, cujo número inclusive caiu) tiveram uma elevação de 0,94%, passando de 52,493 milhões para 52,986 milhões, o setor público experimentou um crescimento mais expressivo, de 3,8%, indo de 12,617 milhões para 13,1 milhões.

O grupo com a maior elevação em números absolutos foi o dos trabalhadores por conta própria, que ganhou quase 700 mil pessoas nesse período, representando um aumento de 2,9%. Dentro desse grupo, é positivo verificar que a formalização ganhou espaço, com a quantidade de trabalhadores por conta própria com CNPJ subindo 6,2%, enquanto os sem CNPJ aumentaram 1,7%.

Apesar do avanço, o grupo sem CNPJ ainda é 2,7 vezes mais numeroso. A formalização também teve tração no setor privado, com os trabalhadores com carteira assinada crescendo 2,5%, de 38,375 milhões para 39,354 milhões. Mesmo com esses avanços, as taxas de informalidade não se afastaram dos 38% ao longo de todo o ano passado, indicando um desafio persistente no mercado de trabalho.

A Influência Demográfica na Taxa de Desocupação

Uma ressalva importante para a queda do desemprego vem de um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV). Segundo o pesquisador Bruno Ottoni, o envelhecimento da população tem uma participação significativa nessa redução.

O ritmo de idosos saindo da força de trabalho é mais veloz que o de jovens ingressando no mercado, um resultado natural da queda na natalidade e do aumento da longevidade dos brasileiros. Ottoni destaca que, se a pirâmide etária do Brasil em 2025 fosse a mesma de 2012, o desemprego no segundo trimestre do ano passado teria sido de 7,8% em vez de 5,8%.

É crucial lembrar que o IBGE considera desempregado aquele que está ativamente buscando inserção no mercado de trabalho, e não aquele que simplesmente está sem trabalhar, o que torna a dinâmica demográfica um fator de peso na estatística.

O Papel dos Estímulos Governamentais e Seus Riscos

Não se pode dissociar o dinamismo atual do mercado de trabalho dos inúmeros estímulos governamentais, vindos principalmente do governo federal, mas também de estados e municípios. Esses incentivos têm um impacto direto no aquecimento da economia brasileira.

Projeções de seis instituições financeiras, ouvidas pelo Estadão/Broadcast, apontam que mais da metade (0,9%) do crescimento de 1,7% no PIB previsto para 2026 virá desses estímulos governamentais. Isso inclui iniciativas como a isenção do Imposto de Renda e programas sociais e de infraestrutura, como o Luz para Todos, o Gás do Povo e o Minha Casa, Minha Vida.

Essa estratégia pode criar um ciclo vicioso: o governo aquece a economia, o Banco Central tenta esfriá-la com juros altos, e o governo responde com ainda mais estímulos e superaquecimento. Esse motor, mais do que fundir, corre um sério risco de explodir, alertam os especialistas, gerando uma instabilidade futura para o mercado de trabalho e a economia brasileira.

Ninguém há de negar que o desemprego em queda é um sinal positivo. No entanto, seria ainda mais benéfico se essa redução fosse resultado de boas políticas econômicas que aliviassem o peso sobre o setor privado, incentivando contratações sustentáveis.

Em vez disso, a queda atual parece ocorrer por meio do aumento da máquina estatal e de estímulos que, embora elevem a demanda e impulsionem a iniciativa privada, criam uma bomba-relógio. Essa situação é idêntica a um período recente de bonança econômica e crescimento insustentável que, eventualmente, deu lugar a uma severa recessão.

O quadro atual do mercado de trabalho é positivo, mas a grande questão é por quanto tempo ele resistirá sob essa estratégia de estímulos e expansão da máquina pública, sem que os riscos se materializem em um cenário menos favorável para o futuro da economia brasileira.

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