Ministro Toffoli Reduz Estadas em Resort de Luxo Após Ações da PF

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), diminuiu significativamente suas estadas no luxuoso Tayayá Resort, localizado em Ribeirão Claro, no Norte do Paraná, desde o final de agosto de 2025. A mudança no padrão de visitas coincidiu com a deflagração de importantes operações da Polícia Federal que investigam fundos de investimento e instituições financeiras com conexões ao empreendimento e ao Banco Master, caso do qual Toffoli é relator na Suprema Corte.

O levantamento detalhado, que analisou diárias de seguranças que acompanharam o magistrado em suas viagens, revela uma interrupção nas visitas entre o fim de agosto e novembro de 2025, período de intensificação das operações “Carbono Oculto” e “Compliance Zero”. Antes disso, o ministro era um frequentador assíduo do local, que já pertenceu a familiares seus e foi posteriormente vendido a fundos de investimento com elos sob investigação.

A redução da presença de Toffoli no resort, cujos dados foram tornados públicos pelo site do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT2) e analisados pela Gazeta do Povo em parceria com a ferramenta Google Pinpoint, levanta questões éticas sobre a proximidade do ministro com o complexo e as entidades financeiras envolvidas em processos que estão sob sua relatoria no STF, conforme as informações divulgadas.

A Cronologia da Ausência: Quando as Visitas Diminuíram

Os registros de diárias de segurança, que acompanharam o ministro em suas viagens, mostram uma clara mudança no padrão de visitas ao Tayayá Resort. Entre 28 de agosto e 30 de novembro de 2025, não há qualquer registro de estadas do ministro no hotel de luxo, um período que se alinha precisamente com a intensificação das operações da Polícia Federal. Essa ausência contrasta fortemente com os meses anteriores, quando Toffoli era um visitante frequente do complexo em Ribeirão Claro.

Em julho de 2025, por exemplo, foram registradas 20 diárias para o ministro no local, distribuídas em três períodos distintos: de 3 a 13, de 18 a 22 e de 25 a 31 de julho. Essa longa estada se estendeu para os primeiros dias de agosto, com registros de 1 a 4 de agosto, marcando o último período documentado antes da deflagração da Operação Carbono Oculto. A partir de então, e durante os meses de setembro, outubro e novembro, não houve mais visitas registradas, coincidindo com o auge das investigações.

É importante ressaltar que os dados do TRT2 não mencionam explicitamente o nome do ministro, mas a especificação dos registros deixa claro o propósito das diárias: “prestar apoio em segurança e transporte para autoridade do Supremo Tribunal Federal à cidade de Ribeirão Claro”, onde se localiza o resort. Essa descrição, aliada ao histórico de Toffoli com o empreendimento, torna inequívoca a identidade do beneficiário. O levantamento, contudo, ainda não inclui os lançamentos de diárias referentes a dezembro do ano passado, para o qual havia a suposição de que o ministro teria passado as festas de fim de ano no local, inclusive com uma grande festa.

Os Custos Públicos e a Frequência Anterior ao Resort

Antes da súbita diminuição de suas estadas, o ministro Dias Toffoli era um frequentador assíduo do Tayayá Resort, com uma presença que gerou custos significativos aos cofres públicos. Segundo as tabelas de liberação de servidores do TRT2 para acompanhamento do ministro, nos últimos três anos, de dezembro de 2022 a agosto de 2025, Toffoli passou cerca de 100 dias hospedado no local. Esse número elevado reflete uma rotina de visitas prolongadas e frequentes ao empreendimento paranaense.

O impacto financeiro dessas estadas é notável. Todas as diárias pagas para a equipe de segurança e apoio, conforme os relatórios, somaram aproximadamente R$ 450 mil aos cofres públicos. Houve períodos em que a necessidade de acompanhamento era tamanha que até cinco servidores públicos foram deslocados concomitantemente para prestar apoio ao ministro, evidenciando a intensidade da presença de Toffoli e sua comitiva no resort.

O ano de 2025 se destacou como aquele em que Toffoli passou mais tempo no Tayayá, com cerca de 40 dias registrados entre janeiro e novembro. Somente em julho daquele ano, as diárias para sua proteção e apoio representaram uma parcela expressiva dos gastos do TRT2. Dos cerca de R$ 192 mil em diárias pagas pelo órgão naquele mês (incluindo outras tarefas), 59%, ou R$ 113,4 mil, foram destinados aos profissionais a serviço do ministro no resort do Paraná. Essas informações, que podem ser consultadas nas tabelas do Google Pinpoint, sublinham a relevância do resort como destino para o ministro e os custos associados a essa frequência.

Os Vínculos do Resort Tayayá: De Família Toffoli a Fundos Investigados

A história do Tayayá Resort está intrinsecamente ligada à família do ministro Dias Toffoli, o que adiciona uma camada de complexidade às suas frequentes visitas e à posterior diminuição. O empreendimento foi construído e gerido por dois irmãos do ministro, o que fez com que o local se tornasse informalmente conhecido na região como o “resort do Toffoli”, em razão das constantes estadas do magistrado, que inclusive possui uma casa privada e uma embarcação dentro do complexo.

A participação societária da família no resort, por meio da empresa Maridt S/A, encerrou-se em negociações realizadas em etapas, concluídas no primeiro semestre de 2025. Documentos societários e informações tornadas públicas indicam que a saída da empresa familiar do empreendimento começou em setembro de 2021, quando parte das cotas foi negociada com um fundo de investimento em participações, ligado à gestora Reag Investimentos. A alienação total da participação remanescente ocorreu de fevereiro a abril de 2025, com a transferência das cotas para uma holding controlada por um advogado que passou a deter o controle do resort.

A conexão com o advogado, que atuou para o grupo J&F, conglomerado empresarial dos irmãos Joesley e Wesley Batista, adiciona outro ponto de atenção. Em nota, a JBS, parte do grupo J&F, informou que o escritório do advogado atuou em ações no estado de Goiás, mas afirmou que nem a companhia nem seus acionistas mantêm relação com as empresas citadas ou com outros negócios do advogado. Essa ligação ganha relevância quando se recorda que, em 2023, Toffoli foi responsável por uma decisão que suspendeu o pagamento de uma multa de R$ 10,3 bilhões prevista no acordo de leniência firmado pela J&F com o Ministério Público Federal.

Além disso, o Arleen Fundo de Investimento em Participações, ligado ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro, adquiriu parte das cotas imobiliárias na área exclusiva do resort, chamada Ecoville. Essa operação, que teria contado com a atuação direta de um cunhado de Vorcaro (que chegou a ser preso na segunda fase da Operação Compliance Zero), é um dos fatores que tem levantado questionamentos sobre a atuação do ministro Dias Toffoli como relator do inquérito do Banco Master no STF, visto que a aquisição do resort ocorreu por meio de um fundo de investimento administrado pela Reag, já sob investigação.

O Cerco da PF: Carbono Oculto e Compliance Zero e Seus Impactos

A diminuição das visitas do ministro Dias Toffoli ao Tayayá Resort coincide diretamente com o aprofundamento das investigações da Polícia Federal por meio de duas operações de grande envergadura: a Operação Carbono Oculto e a Operação Compliance Zero. Ambas as ações miraram esquemas complexos envolvendo fundos de investimento e lavagem de dinheiro, com conexões que, de alguma forma, tangenciam o cenário do resort e do Banco Master.

A Operação Carbono Oculto, deflagrada no fim de agosto de 2025, teve como objetivo rastrear suspeitas de uso de fundos de investimentos para operações de lavagem de dinheiro e financiamento ao crime organizado. Meses depois, em novembro do mesmo ano, a Operação Compliance Zero focou em irregularidades envolvendo a venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB). A investigação revelou que as duas operações passaram, em parte, a se cruzar, intensificando o cerco sobre as entidades financeiras envolvidas.

Nesse contexto, a Reag Investimentos, que administrava o fundo que adquiriu parte do Tayayá Resort da família Toffoli, foi identificada como alvo. A Reag já havia sido mencionada na Operação Carbono Oculto e voltou à mira da PF na Compliance Zero. Investigadores apontam que o Arleen Fundo de Investimento em Participações, ligado ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro, fazia parte de uma cadeia de fundos que recebeu recursos de outros fundos identificados pelo Banco Central como integrantes de uma suposta estrutura usada em fraudes envolvendo o Banco Master. Embora o Arleen em si não seja alvo de investigação direta, sua conexão com a Reag e o Banco Master é inegável.

A transação de cotas do resort para o Arleen Fundo de Investimento em Participações passou a ser analisada com maior atenção pública pelo contexto em que ocorreu: a expansão do resort coincidiu com a entrada de fundos associados ao Banco Master, ao mesmo tempo em que o ministro Dias Toffoli conduzia processos envolvendo a instituição no Supremo. Essa complexa teia de relações financeiras e familiares, sob a lupa da Polícia Federal, criou um ambiente de questionamentos éticos em torno da figura do ministro e do Judiciário.

Conflitos de Interesse e a Relatoria do Caso Banco Master no STF

A atuação do ministro Dias Toffoli como relator do caso envolvendo o Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), em meio às investigações que atingem fundos e empresas com ligações ao Tayayá Resort, levanta sérias questões sobre possíveis conflitos de interesse. A proximidade do magistrado com o empreendimento, que já foi de seus familiares e depois passou para fundos sob investigação, cria um cenário de delicada avaliação ética, mesmo na ausência, até o momento, de comprovação de ilegalidade.

A preocupação central reside na percepção pública da independência e imparcialidade do Poder Judiciário. A estada prolongada de Toffoli no resort, que em julho de 2025 se deu logo depois de seus irmãos encerrarem a participação societária no empreendimento, e a subsequente aquisição por fundos ligados a instituições investigadas, geram um ambiente de desconfiança. Analistas apontam que a manutenção de vínculos com o local e com pessoas envolvidas em processos sob sua própria relatoria pode comprometer a confiança pública na atuação do STF.

Além dos laços familiares e patrimoniais indiretos, Toffoli também manteve vínculos institucionais com o município de Ribeirão Claro, onde o resort está localizado. Em 2019, o ministro foi homenageado com o título de cidadão honorário da cidade e realizou visitas ao local utilizando aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB). Essa série de conexões reforçou a percepção de proximidade com o empreendimento, que, somada à sua relatoria no caso Banco Master, coloca o ministro em uma posição de escrutínio ético intenso.

Os questionamentos se aprofundam com outras ações do ministro, como uma viagem ao Peru com um advogado do Banco Master e a imposição de restrições à análise de provas contra o banco por parlamentares e até mesmo pela própria Polícia Federal. Essas decisões, no contexto das investigações e das ligações com o resort, reforçam a necessidade de um debate transparente sobre a adequação ética da situação, visando preservar a imagem de integridade e imparcialidade do Supremo Tribunal Federal.

As Posições dos Envolvidos e o Andamento das Investigações

Diante das revelações e dos questionamentos, as partes envolvidas têm se manifestado ou sido procuradas para esclarecimentos. O ministro Dias Toffoli foi procurado pela reportagem para comentar suas estadas no Tayayá Resort e as implicações das investigações, mas, até a publicação desta notícia, não houve retorno. O espaço, contudo, permanece aberto para sua manifestação.

A Reag Investimentos, administradora de fundos que se tornou alvo das operações Carbono Oculto e Compliance Zero e que administrou o fundo que adquiriu parte do resort, afirmou que colabora ativamente com as autoridades. A empresa informou ter fornecido todos os documentos e informações solicitadas e sustentou que suas atuações ocorreram dentro das normas legais e regulatórias, limitadas à prestação de serviços técnicos. A Reag também negou participação direta em atividades ilícitas, destacando que os fatos ainda estão sendo apurados e que confia no esclarecimento pelas autoridades competentes.

O grupo J&F, por meio da JBS, também se manifestou a respeito do advogado que controlou a holding que adquiriu o resort após a saída da família Toffoli. A empresa informou que o escritório do advogado atuou em ações no estado de Goiás, mas fez questão de afirmar que nem a companhia nem seus acionistas mantêm qualquer relação com as empresas citadas nas investigações ou com outros negócios do advogado. A empresa Maridt S/A, dos irmãos do ministro, não foi contatada pela Gazeta do Povo.

Paralelamente às investigações policiais, órgãos reguladores também avançaram com medidas administrativas. Na última semana, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da administradora Reag, um movimento que sublinha a gravidade das irregularidades apuradas. Enquanto isso, as investigações policiais da Operação Carbono Oculto e da Operação Compliance Zero seguem em curso, buscando apurar eventuais responsabilidades criminais e lançar luz sobre as complexas conexões entre o sistema financeiro e o Judiciário brasileiro, especialmente em casos que envolvem figuras de alta relevância como o ministro do STF.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

Por Que Cuba Protegia Maduro? Entenda a Presença de Agentes Cubanos na Segurança do Ditador Venezuelano e o Novo Cenário Regional

A Complexa Aliança: Por Que Cuba Protegia Maduro e o Que Muda…

Brasil sob alerta: Entenda como a relação comercial com o Irã pode gerar punições dos EUA e impactar setores estratégicos

Ameaças de sanções comerciais por parte dos Estados Unidos voltaram a pautar…

Caso Maduro Desvenda Narcoterrorismo e Ameaça Lula: Delações Chocantes Podem Impactar Política Brasileira

O caso Maduro, com acusações de narcoterrorismo e crimes correlatos nos Estados…

Escândalo Financeiro: Banco Central Decreta Liquidação da Reag Investimentos por Graves Violações e Suspeitas de Ligações com PCC e Banco Master

O cenário financeiro brasileiro foi abalado nesta quinta-feira, dia 15, com a…