O recente ataque de Trump à Venezuela e as ameaças a outras nações latino-americanas expuseram a vulnerabilidade da região diante da maior potência mundial. Este cenário inédito desafia a tradicional diplomacia de Lula, conhecida por sua habilidade em navegar complexos contextos internacionais.
O governo brasileiro se vê em uma encruzilhada, precisando redefinir suas estratégias para manter a estabilidade e sua influência. A situação é preocupante, mas o Brasil está em uma posição melhor que outras nações da região.
Analistas de política internacional, ouvidos pela reportagem, detalham os impactos e os caminhos que o Brasil pode seguir para enfrentar esta nova ofensiva, conforme informações divulgadas.
A Força Brasileira em Meio à Instabilidade Regional
Para a cientista política Talita Tanscheit, professora da PUC-Rio, a capacidade de resistência do Brasil às ofensivas de Trump é notável. Ela aponta o recuo dos EUA após imposição de sanções agressivas contra o país como um exemplo.
No ano passado, a Casa Branca impôs tarifas extras de 40% sobre importações brasileiras e sancionou ministros do STF. A Lei Magnitsky foi aplicada a Alexandre de Moraes e sua esposa, com restrições financeiras.
Apesar das tentativas de interferência no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, ele foi condenado. No final de 2025, grande parte das tarifas extras e a aplicação da Magnitsky foram retiradas, sem que o Brasil fizesse concessões.
Talita Tanscheit afirma que o Brasil consegue ter mais autonomia que outros países da América Latina, por sua cadeia produtiva mais diversa. Diferente da Venezuela, que é altamente dependente do petróleo, o Brasil tem uma economia mais robusta.
A professora ainda destaca que Trump percebeu que precisaria negociar de forma diferente com o Brasil, reconhecendo a estatura de Lula. O cientista político Ian Bremmer, da Eurasia Group, também vê o Brasil mais fortalecido.
Bremmer ressaltou que o Brasil não tem “problemas de segurança nacional” com os EUA, destacando o bom desempenho do país nas negociações comerciais com Trump. “O Brasil está, na verdade, em uma posição mais forte”, disse ele.
Hussein Kalout, ex-secretário de Assuntos Estratégicos, concorda que o Brasil está melhor posicionado, mas prevê a necessidade de maior autonomia securitária e uma aproximação mais intensa com China e Rússia.
O Dilema da Diplomacia em um Cenário Multipolar
A fragilidade de organismos multilaterais como Mercosul, Unasul e ONU deixa a política externa brasileira vulnerável. O Brasil, historicamente, apostou no multilateralismo para obter projeção e proteção.
Carolina Pedroso, professora da Unifesp, observa que as “armas clássicas” da diplomacia brasileira, como a mediação de conflitos, estão enfraquecidas. As tentativas de Lula de mediar conflitos foram ignoradas.
“É a concretização de uma percepção que já estava colocada, desde o início do governo Lula, de que realmente o Brasil já não é mais uma liderança regional como tentou ser em algum momento”, constata Pedroso.
Especialistas apontam que o mundo transita do multilateralismo para esferas de influência, onde grandes potências impõem suas vontades. “O que está muito claro é que o que Trump propõe é a divisão do mundo em esferas de influência”, explica Hussein Kalout.
Nesse contexto, a “lei do mais forte” prevalece, e as regras internacionais são violadas pelas três maiores potências, EUA, Rússia e China. O Brasil, segundo Kalout, deve navegar este ambiente buscando manter relações com todos.
A defesa do direito internacional, com a busca pela “maior coalizão possível”, é fundamental. Kalout defende que o Brasil critique as violações de forma coerente, sem seletividade.
Lula condenou o ataque de Trump à Venezuela como uma “flagrante violação do direito internacional” e “ultrapassa uma linha inaceitável”. Da mesma forma, o Brasil condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia na ONU.
Apesar das condenações, a expectativa é que a diplomacia de Lula mantenha o diálogo com Trump, assim como mantém com Putin. A China, por sua vez, observa a situação com Taiwan, e as ações americanas podem servir de inspiração para medidas mais agressivas.
O Imperativo do Investimento em Defesa Nacional
O ataque de Trump à Venezuela, segundo os especialistas, deve levar o Brasil a repensar sua estratégia militar e, possivelmente, ampliar investimentos em defesa. O país não pode se equiparar aos EUA, mas pode fortalecer seus mecanismos de dissuasão.
Hussein Kalout destaca que é obrigação do Estado garantir a defesa dos cidadãos, o que naturalmente levará as Forças Armadas a pressionar por mais orçamento. Isso é crucial para a segurança nacional.
Júlio César Cossio Rodriguez, professor da UFSM e estudioso das Forças Armadas, aponta três investimentos estratégicos que deveriam ser acelerados: o projeto Astros 2020 de defesa antiaérea, o submarino de propulsão nuclear e a expansão da frota de caças Grippen.
Todos esses projetos, porém, sofreram atrasos devido a limitações orçamentárias. Ampliar os investimentos depende de uma revisão do arcabouço fiscal, que atualmente limita a expansão dos gastos públicos.
Para Rodriguez, o mundo em rápida transformação exige mudanças e preparação para os próximos 15, 20 ou 30 anos. Isso não pode ser feito sem um investimento público de grande vulto, fundamental para a soberania do governo brasileiro.