A Diferença dos Protestos no Irã: Uma Análise Inédita Desde a Revolução de 1979
Os protestos no Irã que se desenrolam atualmente estão chamando a atenção global, não apenas pela sua intensidade, mas por características que os distinguem de todas as manifestações anteriores desde a Revolução Islâmica de 1979. A nação persa vive um momento de efervescência social, com a população buscando por mudanças significativas e duradouras.
Essa nova dinâmica é detalhada por Sergio Florencio, diplomata e ex-secretário em Teerã, que oferece uma perspectiva única sobre o cenário. Ele aponta para um conjunto de fatores que, combinados, criam um contexto inédito para a atual onda de insurgência social que desafia o regime iraniano.
A análise de Florencio, divulgada durante o programa WW e com base em informações da CNN Brasil, sugere que, desta vez, as condições internas e externas podem estar alinhadas para um desfecho diferente dos históricos fracassos. O que torna, então, esses protestos no Irã tão singulares?
Fatores que Diferenciam os Protestos Atuais no Irã
Sergio Florencio destaca três elementos cruciais que conferem um caráter singular aos atuais protestos no Irã. O primeiro e mais impactante é a significativa fragilização do Irã no cenário regional, um desdobramento direto da guerra entre Hamas e Israel.
O especialista explica que essa guerra resultou na perda de aliados estratégicos importantes para o regime iraniano. Segundo Florencio, “O Hamas praticamente não existe mais em termos de força militar, o Hezbollah está extremamente fragilizado e as milícias iranianas na Síria desapareceram com toda a mudança de regime”. Essa perda de influência regional enfraquece a capacidade de resposta do governo.
O segundo fator apontado pelo diplomata são os impactos dos ataques realizados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Essas ações, especialmente as direcionadas às usinas nucleares iranianas, acentuaram a vulnerabilidade do país, expondo as fragilidades de sua defesa e capacidade de dissuasão.
Por fim, Florencio menciona a recente situação envolvendo a Venezuela como um elemento adicional. Essa conjuntura pode influenciar e, potencialmente, fortalecer o apoio ao movimento de sublevação que se observa nos protestos no Irã, adicionando uma camada extra de complexidade ao cenário político.
O Futuro do Regime Iraniano em Debate
Ainda sobre a possibilidade de mudanças, o diplomata Sergio Florencio comentou a declaração do primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz. Merz sugeriu que o regime iraniano, apoiado apenas na repressão, estaria em seus últimos dias, uma avaliação que tem gerado debate internacional e muitas especulações.
Florencio considera a avaliação de Merz “excessivamente contundente” para o momento atual. No entanto, ele reconhece que existem “fortes indícios” de que o movimento de insurgência social atual se difere significativamente dos anteriores, indicando uma nova fase para o país.
Essa percepção reforça a ideia de que os protestos no Irã de agora não seguem o padrão histórico de manifestações que, apesar de intensas, não conseguiram abalar as estruturas do poder. A fragilidade interna e externa pode estar criando um terreno fértil para transformações substanciais.
Histórico de Fracassos em Movimentos Anteriores
O histórico de protestos no Irã desde a Revolução de 1979 é marcado por um padrão: o fracasso em promover mudanças duradouras. Sergio Florencio relembra que manifestações são recorrentes na sociedade iraniana, mas invariavelmente não atingem seus objetivos finais de derrubar ou reformar o regime.
Ele citou movimentos significativos que, apesar de grande repercussão, não conseguiram alterar o regime iraniano. Entre eles, estão o protesto de estudantes em 1999, o movimento contra a fraude eleitoral em 2009 e o amplo movimento de mulheres em 2022, que mobilizou grande parte da população.
Segundo o diplomata, mesmo com a eleição de três primeiros-ministros de corte liberal nesse período, os movimentos de oposição sempre encontraram barreiras intransponíveis. Florencio analisou que “Eles têm um êxito inicial, têm um apoio, têm um forte apoio eleitoral, mas fracassam no final”, um padrão que os atuais protestos no Irã podem estar prestes a quebrar, dadas as novas condições.