Do Globo de Ouro ao Oscar: O Impacto do Cinema Brasileiro no Debate Histórico

O cinema brasileiro tem conquistado reconhecimento internacional, não apenas nas grandes premiações, mas também nas salas de aula. Filmes como ‘O Agente Secreto’ e ‘Ainda Estou Aqui’, aclamados pela crítica e público, estão se tornando instrumentos poderosos para o ensino de história, sociologia e filosofia, conectando os jovens com o passado de forma dinâmica e engajadora.

A recente conquista de dois prêmios do Globo de Ouro 2026 por ‘O Agente Secreto’, dirigido por Kleber Mendonça Filho, incluindo Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama para Wagner Moura, reacende o interesse público pelo cinema nacional. Este feito reforça o caminho aberto por ‘Ainda Estou Aqui’, que um ano antes ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional e rendeu indicação a Fernanda Torres, já premiada com o Globo de Ouro.

O impacto dessas obras vai muito além das telas de cinema, chegando diretamente às escolas. O audiovisual consolida-se como uma ferramenta pedagógica essencial, permitindo que professores e alunos explorem temas complexos da história brasileira de maneira mais profunda e acessível, conforme informações divulgadas pelas fontes.

Filmes como Síntese de Acontecimentos e Despertar de Interesse

Para Marcos Vinicius de Paula, professor de história e sociologia e autor do livro ‘Corpo Estranho’, os filmes atuam como um sintetizador de acontecimentos históricos, sociológicos e filosóficos. Ele afirma que o audiovisual tem o poder de sintetizar o acontecimento, muitas vezes explicando melhor do que uma aula expositiva tradicional.

Gerson de Moraes, cientista político e professor de história e teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, corrobora essa visão. Ele avalia que o domínio do noticiário por essas produções desperta nos jovens uma busca ativa por informações. O desafio, no entanto, é a competição com fontes digitais sem credibilidade, que podem apresentar dados enviesados.

Moraes destaca que filmes como os brasileiros premiados abordam feridas abertas ao retratar a violência de um Estado que não permitia o contraditório. Ele enfatiza que se trata de dados, fontes, pessoas foram mortas, torturadas e desapareceram, em um regime ditatorial estabelecido no contexto da Guerra Fria no Brasil.

Desconstruindo a Visão Romantizada da Ditadura Militar

O docente Gerson de Moraes observa que, para uma geração que não viveu o período, existe o risco de uma visão romantizada do regime militar, muitas vezes associada a ideais de ordem. Para ele, o cinema atua como uma ferramenta crucial para desconstruir essa percepção asséptica e superficial da ditadura.

Moraes sugere o uso de recortes das obras para gerar debates pontuais, citando também outros longas importantes como ‘Batismo de Sangue’ (2006) e o indicado ao Oscar ‘O Que É Isso, Companheiro?’ (1997). Essas produções complementam a discussão sobre períodos sensíveis da história do país.

Marcos Vinicius, mesmo sem ter assistido ainda às obras mais recentes, utiliza a repercussão delas como um gancho pedagógico. Ele abordou em classe o desaparecimento do deputado federal Rubens Paiva, retratado no filme vencedor do Oscar, e a questão da memória, aproveitando a curiosidade dos estudantes impulsionada pela cerimônia em Hollywood.

Preservar a Memória para Fortalecer a Democracia

Os filmes, segundo o professor Marcos Vinicius, permitem tratar tanto das tramas políticas macroscópicas quanto das perseguições individuais, oferecendo uma compreensão mais completa dos eventos. Ele complementa que a revisitação da memória da ditadura militar é fundamental para a preservação da democracia.

Um regime que provoca desaparecimentos tem que ser repudiado para sempre, destaca o professor, enfatizando que o desaparecimento é um dos fatores mais cruéis da repressão. Ele ressalta a importância de a educação mostrar que, apesar dos defeitos, a democracia é sempre superior a qualquer regime autocrático, e que a história serve para evitar a repetição de erros passados.

Ampliando o repertório para além do tema estrito da ditadura, Marcos Vinicius utiliza o curta-metragem ‘O Dia em que Dorival Encarou a Guarda’ (1986), de Jorge Furtado, para discutir racismo estrutural e hierarquia. Para ilustrar a interferência norte-americana no golpe de 1964, traçando paralelos com a geopolítica atual, ele recorre ao documentário ‘O Dia Que Durou 21 Anos’ (2012).

O professor também recorre a ‘Que Horas Ela Volta?’ (2015), protagonizado por Regina Casé, que explora as tensões de classe no Brasil através da história de Val, uma empregada doméstica. A chegada de sua filha, Jéssica, desestabiliza a dinâmica familiar e expõe as diferenças sociais e hierarquias veladas no ambiente da mansão.

Engajamento Estudantil e o Projeto Interlocuções Culturais

A experiência com o cinema em sala de aula também é vivenciada por Felicce Fatarelli Fazzolari, professor de história, sociologia e filosofia. Desde 2021, ele desenvolve o projeto ‘Interlocuções Culturais’, que integra diversas manifestações artísticas no processo de ensino-aprendizagem.

Em 2023, durante aulas sobre patrimônios culturais e cinema, o professor utilizou o aclamado filme ‘Bacurau’ (2019) como material didático. Fazzolari explica que citou ‘Bacurau’ em aulas sobre museus e memória, por mostrar o museu da cidade, e também na disciplina de cinema, como um dos maiores filmes nacionais.

Ele exibiu a obra para os alunos em duas escolas, e a recepção foi entusiasmada. ‘Bacurau, adoraram, piraram no filme’, afirma o professor, destacando que as discussões geradas pelo filme eram fantásticas, especialmente em turmas onde a parte teórica não engajava. Buscando aprofundar a experiência, Fazzolari entrou em contato com artistas que participaram do filme, e a atriz Ali Willow respondeu ao convite, participando de uma aula que, segundo o professor, foi espetacular, reforçando o potencial do cinema para engajar os estudantes e enriquecer o aprendizado da história.

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