O ano de 2026 se apresenta como um período desafiador e, ao mesmo tempo, repleto de oportunidades para os fundos de investimento no Brasil. Uma rara confluência de eventos globais e domésticos exige dos gestores uma análise cuidadosa para posicionar suas carteiras.
A fraqueza do dólar, o crescente fluxo de recursos para mercados emergentes e o elevado diferencial de juros no Brasil despontam como fatores externos bastante favoráveis. Contudo, o cenário eleitoral de 2026 e a urgência de ajustes fiscais no país impõem uma necessária cautela, especialmente entre os investidores locais.
Essas dinâmicas complexas influenciam diretamente a estratégia de fundos, que buscam equilibrar o potencial de ganhos externos com os riscos internos, conforme informações detalhadas pela XP em um programa de podcast.
Fatores Globais Versus Cenário Doméstico: A Batalha por Retornos
Os gestores de fundos estão se beneficiando de uma posição estratégica, vendida em dólar e comprada em real, impulsionada pelo diferencial de juros do Brasil, um dos mais altos globalmente, que deve persistir ao longo do ano. Priscila Araújo, head de produtos e relacionamento da XP, destacou que essa estratégia consolida a aposta no mercado doméstico, mesmo diante de turbulências internacionais.
A correlação do mercado brasileiro com os cenários internacionais permanece forte. “Se você tira recursos dos Estados Unidos e diversifica para mercados emergentes, bolsas como a do Brasil acabam surfando a onda junto com Chile, México, Colômbia e Peru. No ano passado, a alta do Ibovespa refletiu esse movimento global, e não foi uma particularidade local”, explicou Priscila Araújo.
Apesar do impulso favorável vindo do exterior, o desempenho da bolsa brasileira em 2026 estará intrinsecamente ligado à política interna. Priscila detalhou que o ano será dividido em três estágios: até março, a taxa de juros será o principal vetor; de abril a outubro, o cenário eleitoral de 2026 dominará; e após outubro, o resultado da eleição definirá a dinâmica dos ativos.
O Impacto da Política e o Olhar dos Gestores sobre 2026
O ambiente macroeconômico e político molda diretamente o posicionamento dos fundos no Brasil. Muitos gestores locais demonstram receio com o cenário eleitoral e já ajustam suas carteiras. Em contraste, investidores estrangeiros mantêm posições estratégicas em ativos como Vale (VALE3) e outros de metals & mining, que registraram forte entrada de capital externo.
Lucas Collazo, do podcast Stock Pickers, resumiu a situação: “2026 será ditado por fluxo e política. O ano passado mostrou que o Brasil segue a tendência global: o que dita a direção é externo, o que dita a intensidade é interno”. Davi Fontenele, analista de fundos da XP, complementou a visão global, apontando para uma política ruidosa nos EUA, crescimento anêmico na Europa e a transição econômica da China, reforçando a necessidade de disciplina e gestão de risco.
Priscila Araújo enfatizou que, se a tendência de saída do dólar e entrada em mercados emergentes continuar, o Brasil tem potencial para um desempenho positivo, mas a eleição de 2026 pode intensificar ou reduzir esse efeito. Ela também destacou a importância de monitorar setores específicos: o agro enfrenta dificuldades, a infraestrutura se mantém em destaque com benefícios tributários, e fundos atrelados à inflação podem ser mais vantajosos que os pós-fixados.
Gestoras renomadas também compartilham suas perspectivas. A Verde aponta para sinais de piora institucional, enquanto a Vista alerta que o endividamento do país o coloca em um regime sensível a erros fiscais. Fontenele afirmou que a eleição gerará ajustes obrigatórios, independentemente do vencedor, e Collazo alertou que uma continuidade do governo atual com promessas elevadas pode ser negativa e ainda não está totalmente precificada pelo mercado.
Crédito e Fundos: O Que Esperar em 2026
O mercado de crédito, que ganhou força entre investidores de varejo, deve manter a atenção em 2026. Priscila Araujo explicou que 2025 foi o ano dos fundos isentos, como debêntures incentivadas, LCIs e LCAs. Para 2026, espera-se uma queda nos índices de inadimplência com a redução dos juros, mantendo um balanço positivo entre oferta e demanda.
O enquadramento dos fundos de debêntures de infraestrutura garante uma demanda cativa. “Mesmo sem captação líquida, os fundos continuam comprando papéis incentivados, mantendo pressão positiva sobre preços e taxas”, disse Priscila.
Lucas Collazo, por sua vez, alertou para o crescimento do crédito alternativo. “FIDC e outros produtos estruturados continuarão crescendo. É a bola da vez, com característica de menor volatilidade e foco em retorno consistente”.
Para os fundos de ações e multimercados, Priscila aposta que os produtos de ações devem captar mais recursos, dada a facilidade em explicar seus retornos e a clareza nas premissas de risco. Multimercados, apesar de enfrentarem desafios de reputação, também devem registrar captação. Em suma, 2026 será um ano de gestão ativa e constante atenção ao cenário para os fundos de investimento no Brasil.