A canção “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, sempre possuiu uma estrutura intrinsecamente cinematográfica, carregando em sua narrativa o potencial de um libreto teatral. Essa qualidade imagética, em 1995, despertou no diretor Alexandre Reinecke o desejo de transformá-la em um espetáculo que agora, finalmente, chega aos palcos.

Trinta anos depois da ideia inicial, a obra ganha vida como um vigoroso “musical negro“, um conceito que permeia toda a sua estética, ética e espiritualidade. A produção se destaca por contar com um elenco e equipe compostos por aproximadamente 90% de profissionais negros, garantindo autenticidade e representatividade.

A montagem nos transporta para a Salvador do início dos anos 1970, tecendo sua brasilidade através da culinária, das vestimentas, da religiosidade de matriz africana e, principalmente, da capoeira, conforme informações divulgadas pela fonte.

A Força da Capoeira e a Identidade Afro-Brasileira no Palco

A ambientação na capital baiana dos anos 70 é fundamental para o espetáculo, que celebra a cultura afro-brasileira em suas diversas manifestações. A capoeira, por exemplo, não é apenas uma arte marcial, mas uma linguagem coreográfica que define as relações de poder e os conflitos da trama.

Sob a orientação de Mestre Tyson, a roda de capoeira se torna o palco onde os corpos contam a história. A agressividade de João, interpretado por Guilherme Silva, espelha sua instabilidade, enquanto a malícia de Jozé, vivido por Alan Rocha, revela seu desejo de conciliação.

A presença dos atores mirins merece um destaque especial, pois eles trazem uma energia genuína e contrastante, humanizando o universo complexo da história e adicionando uma camada de inocência e esperança à narrativa do musical negro.

Releitura Profunda: Juliana, Ditadura e a Denúncia do Feminicídio

A trama do musical negro expande a concisão da canção original de Gilberto Gil para explorar lacunas narrativas e aprofundar os personagens. Juliana, interpretada por Rebeca Jamir, não é apenas a “moça da Ribeira”, mas uma cantora engajada na resistência à ditadura, agregando uma camada política crucial ao drama.

Essa abordagem permite que o espetáculo explore o ciúme que desencadeia a tragédia de forma mais aprofundada psicologicamente. O crime é explicitamente classificado como feminicídio, conectando a violência de gênero à repressão do Estado, um tema de grande relevância social.

Rebeca Jamir, ao falar sobre sua personagem, destaca: “Acredito que ser artista, sobretudo para uma artista negra, mulher e nordestina assim como eu, e também como Juliana, é muito sobre se expandir, sobre se engajar também politicamente, sobre saber sobre os nossos tempos e nossa história com consciência, pensamento crítico e comprometimento.”

O Desafio do Clímax e a Visão do Diretor

Um dos pontos mais desafiadores da adaptação reside no clímax da história. A música original de Gilberto Gil constrói uma tensão vertiginosa, onde o giro da roda-gigante se funde à súbita violência, com versos como “Oi, na roda gigante / Oi, girando! / Olha a faca! / Olha o sangue na mão”, criando um impacto brutal e seco.

No palco, essa transição perde parte de sua força síncopa. A opção do diretor Alexandre Reinecke, talvez pela presença das crianças ou para evitar o explícito, atenua o impacto visual do ato final. A encenação opta por uma sugestão mais diluída do que um corte chocante.

Essa escolha, embora possa frustrar a expectativa de alguns espectadores, sublinha a interpretação do diretor: o crime aqui é um ato de aniquilação de um corpo que ousa escolher seu destino. A denúncia do feminicídio prevalece sobre o punch visceral da obra original, reforçando a mensagem social do musical negro.

A Inovação Musical, a Potência do Elenco e a Mensagem do “Musical Negro”

A direção musical de Bem Gil costura um repertório envolvente de 20 canções, incluindo clássicos atemporais como “Cálice” e “Preciso Aprender a Só Ser”, além de composições inéditas criadas especialmente para a peça. A sonoridade oscila entre o samba, a batida da capoeira e toques psicodélicos, transportando o público para a tensa atmosfera dos anos retratados.

O elenco entrega performances vigorosas e emocionantes. O quarteto protagonista, que inclui a excelente Badu Morais, se destaca pela entrega e profundidade. Adriana Lessa, no papel de Mãe Preta, ancora a narrativa no plano espiritual, adicionando uma dimensão mística e poderosa ao espetáculo.

Rebeca Jamir, que interpreta Juliana, ressalta a importância da representatividade no “musical negro“: “Acredito também que, tratando-se de uma história baseada na obra de Gilberto Gil, uma história brasileira e nordestina que dialoga com o universo da capoeira, esse protagonismo negro se torna ainda mais importante. É muito bonito ver nossos corpos ocupando e protagonizando a cena.”

A atriz também detalhou o preparo intensivo para o papel, que exige atuação, canto e movimentos de capoeira. “Para mim, a técnica e a verdade emocional andam sempre juntas, alimentam-se uma à outra e são inseparáveis”, afirmou, destacando a dedicação de toda a equipe e a honra de aprender com o Mestre Tyson.

Fruto de uma persistência de décadas, “Domingo no Parque” transcende a nostalgia. É um espetáculo que celebra a rica cultura afro-brasileira e, ao mesmo tempo, confronta o público com as feridas ainda abertas do racismo e do machismo, reforçando a relevância de sua mensagem.

O musical “Domingo no Parque” está em cartaz no Teatro Claro Mais, localizado na rua Olimpíadas, 369, no 5º piso do Shopping Vila Olímpia, na região sul de São Paulo. As apresentações ocorrem às quintas e sextas-feiras, às 20h, aos sábados, às 17h e 20h30, e aos domingos, às 19h. A temporada segue até 8 de fevereiro.

Com duração de 120 minutos, incluindo um intervalo de 15 minutos, os ingressos podem ser adquiridos a partir de R$ 25 (meia-entrada balcão) pelo site uhuu.com e na bilheteria oficial do teatro.

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