Mãe de Lula será a voz do enredo da Acadêmicos de Niterói no Carnaval 2026, narrando a jornada de uma retirante nordestina e a história do presidente

O Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 promete um desfile de grande impacto emocional e histórico, com a Acadêmicos de Niterói, escola estreante no Grupo Especial, trazendo um samba-enredo narrado pela voz de Dona Lindu, mãe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A agremiação abrirá os desfiles do Domingo de Carnaval, 15 de fevereiro, com o enredo intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”.

A letra do samba-enredo é uma profunda imersão na trajetória de Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, que relata a épica viagem de “13 noites e 13 dias” em um caminhão “pau-de-arara”. Essa jornada levou sua família de Garanhuns, no interior de Pernambuco, até a periferia do Guarujá, no litoral paulista, em busca de melhores condições de vida e da reunião familiar, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil.

A iniciativa de contar a história de Lula a partir da perspectiva de sua mãe não apenas humaniza a figura presidencial, mas também resgata a memória de milhões de brasileiros que, como Dona Lindu, enfrentaram grandes desafios em suas migrações internas. O samba-enredo se propõe a ser um retrato fiel de uma parte significativa da história social do Brasil, contada por uma de suas protagonistas anônimas e resilientes.

A emoção de Lula ao ouvir a história de sua mãe imortalizada no samba

A revelação de que o samba-enredo seria narrado por sua mãe tocou profundamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cantora e compositora Teresa Cristina, uma das autoras da obra, relatou à Agência Brasil a reação de Lula ao conhecer o projeto e ouvir a melodia e a letra que reverenciam a memória de Dona Lindu.

Segundo Teresa Cristina, ao ser informado que o samba era uma história contada pela sua mãe, o presidente teve os olhos marejados. “Quando a gente falou para ele: ‘olha, o samba é uma história sendo contada pela sua mãe’, o olho dele na hora deu aquela marejada”, descreveu a compositora, evidenciando o impacto imediato da notícia.

A emoção se intensificou quando Lula ouviu o samba pela primeira vez. “Ele ouviu o samba e chorou copiosamente. Começou a falar da mãe, falou do pai. Ficou bem emocionado, sabe? Com o rosto todo vermelho. Senti que ele ficou feliz de ter a história dele imortalizada em um samba-enredo”, completou Teresa Cristina. Essa reação sublinha a profundidade da homenagem, que resgata não apenas a figura pública, mas também as raízes e os laços familiares do presidente.

A jornada de Dona Lindu: amor, luta e a essência do Brasil

A travessia de Dona Lindu e sua família, que serve como espinha dorsal do samba-enredo, foi motivada pelo amor e pela busca por melhores condições. Teresa Cristina enfatiza que a decisão de migrar foi um ato de carinho e união familiar. “Ela fez isso por amor, né? Ela veio atrás do pai [das crianças]”, explicou a compositora, destacando a força da matriarca.

Mais do que a história de uma família, o samba-enredo é um espelho do Brasil. “O samba é sobre o Brasil. É sobre um Silva. É sobre sobreviventes”, resume Teresa Cristina, coautora da obra ao lado de nomes como André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr. Essa perspectiva eleva a narrativa de Dona Lindu a um símbolo de resiliência e da capacidade de superação do povo brasileiro.

Dona Lindu, Eurídice Ferreira de Mello, faleceu em 1980, aos 64 anos. Sua história, agora eternizada no palco do samba, representa a saga de tantos brasileiros que construíram suas vidas e a nação a partir de sacrifícios e esperança. A escolha de sua voz para narrar o enredo confere autenticidade e uma profunda conexão com a experiência popular, tornando a homenagem ainda mais significativa.

Do mulungu à presidência: a simbologia do enredo

O título do samba, “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, carrega uma rica simbologia. O mulungu-da-caatinga é uma árvore imponente, com copa larga e flores avermelhadas, que pode atingir de 12 a 18 metros de altura e ter um tronco de até 80 centímetros de diâmetro. Essa árvore servia de local de brincadeiras para crianças do agreste, incluindo Lula e seus irmãos, conectando o presidente às suas origens humildes.

A jornada do menino do sertão pernambucano, que se tornou operário no ABC paulista, líder sindical, político e, finalmente, presidente da República, é um testemunho de superação e dedicação. O presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, defende o reconhecimento dessa trajetória, independentemente de posicionamentos políticos.

“Eu costumo falar que, independentemente de as pessoas gostarem ou não [dele], pela política, é preciso respeitar a história de uma pessoa que saiu lá do interior de Pernambuco, foi para São Paulo e hoje ocupa a maior cadeira desse país”, afirmou Palhares em entrevista ao professor e historiador Leandro Silveira, no quadro No Ritmo da Folia, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Essa visão busca celebrar a história de vida e a ascensão social de Lula como um exemplo de perseverança e representatividade.

Conexões históricas e sociais no enredo da Acadêmicos de Niterói

Para além da trajetória pessoal de Lula, o samba-enredo da Acadêmicos de Niterói tece referências a importantes momentos e figuras da história brasileira. A letra faz alusão à melhoria das condições de vida da população durante os três mandatos do presidente, destacando ações como o combate à fome e a ampliação do acesso à educação, políticas que marcaram suas gestões.

O samba também presta homenagem a vítimas da ditadura militar (1964-1985), citando o ex-deputado Rubens Paiva, a estilista Zuzu Angel e o jornalista Wladimir Herzog. Essas menções ressaltam a importância da memória e da luta pela democracia, valores que se alinham à trajetória de Lula como líder sindical e político. Além disso, a obra lembra o sociólogo Betinho (Hebert de Sousa) e seu irmão, o cartunista Henfil, figuras emblemáticas na defesa dos direitos humanos e no combate à miséria.

Outra referência sutil, mas significativa, permeia o refrão do samba: “Olê, olê, olê, olá/Vai passar nessa avenida mais um samba popular”. Essa passagem é uma clara homenagem ao clássico “Vai passar”, de Chico Buarque. Teresa Cristina confirmou a intenção: “Fui eu que coloquei na letra. Eu queria que as pessoas lembrassem tanto do samba Vai passar, como se lembrassem do Chico Buarque”. Ela ainda elogiou o artista, afirmando que “o Chico Buarque sempre esteve ao lado do Brasil. A gente sempre sabe que pode contar com ele, um artista que nunca se dobrou à bruta autoridade, à ditadura, a generais. O Chico é um homem muito corajoso”, conectando o samba a um legado de resistência cultural e política.

Lula e outros presidentes: um enredo recorrente no Carnaval

A homenagem a Lula no Carnaval não é inédita. O presidente já foi tema de escolas de samba em outras ocasiões, demonstrando a relevância de sua figura na cultura popular brasileira. Em 2012, a Gaviões da Fiel, de São Paulo, desfilou com o enredo “Verás que um filho teu não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação”. Mais recentemente, em 2023, a Cidade Jardim, de Belo Horizonte, trouxe para a avenida o enredo “Sem medo de ser feliz”, também em alusão ao presidente.

Presidentes da República têm sido, ao longo da história, figuras que inspiram enredos carnavalescos. Getúlio Vargas, por exemplo, foi homenageado pela Mangueira em 1956 com “Exaltação a Getúlio Vargas ou o grande Presidente”, pelo Salgueiro em 1985 com “Anos trinta, vento sul – Vargas”, e pela Portela em 2000 com “Trabalhadores do Brasil ─ a época de Getúlio”.

Juscelino Kubitschek, por sua vez, foi tema da Mangueira em 1981, com o enredo “De Nonô a JK”. Essas homenagens refletem como o Carnaval, para além de sua função festiva, serve como um palco para a celebração e a reflexão sobre figuras históricas e seus legados, integrando-os à narrativa cultural do país.

Lei Rouanet e o financiamento do desfile: esclarecimentos

Uma informação que circulou nas redes sociais sobre o financiamento do desfile da Acadêmicos de Niterói pela Lei Rouanet foi esclarecida. A escola de samba não será financiada por essa lei de incentivo à cultura. Embora a agremiação tenha recebido autorização em dezembro da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura e da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura para captar até R$ 5,1 milhões para a apresentação, o prazo exíguo impossibilitou a captação de recursos, levando a escola a desistir da tentativa.

É fundamental compreender que a Lei Rouanet opera sem qualquer transferência direta de recursos do governo federal para os projetos culturais. Produtores com propostas aprovadas, após análise técnica do Ministério da Cultura, podem buscar patrocínio junto a empresas e pessoas físicas que contribuem com o Imposto de Renda. Esses patrocinadores podem abater o valor financiado do imposto devido, limitado a 4% para empresas e 6% para pessoas físicas.

O financiamento do Carnaval das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, incluindo a Acadêmicos de Niterói, ocorrerá por meio de um termo de cooperação técnica assinado em 19 de janeiro entre a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), com a interveniência do Ministério da Cultura (MinC). Este acordo permite o repasse de R$ 1 milhão para cada agremiação do grupo especial, totalizando R$ 12 milhões a serem investidos neste carnaval.

A ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro 2026

O Carnaval 2026 promete grandes espetáculos na Sapucaí, com as escolas do Grupo Especial divididas em três dias de desfile. A seguir, a programação completa:

1º dia – domingo (15/2)

  • Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil
  • Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico
  • Portela – O Mistério do Príncipe do Bará
  • Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra

2º dia – segunda-feira (16/2)

  • Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade
  • Beija-Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado
  • Acadêmicos do Viradouro – Pra Cima, Ciça
  • Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus

3º dia – terça-feira (17/2)

  • Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi
  • Unidos de Vila Isabel – Macumbembé, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África
  • Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue
  • Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau
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