A recente operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro em solo venezuelano reacendeu um debate complexo e hipotético: o que aconteceria se uma ação semelhante fosse tentada contra um presidente brasileiro?

Embora não haja qualquer indício de que uma incursão militar contra o Brasil esteja no horizonte, e o país mantenha relações diplomáticas ativas com Washington, a avaliação de cenários hipotéticos é crucial para o planejamento da defesa nacional.

Especialistas em segurança e estratégia militar analisam as capacidades brasileiras e os fatores de dissuasão que tornariam uma operação desse tipo extremamente custosa e improvável para qualquer superpotência, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.

A Realidade da Capacidade Militar Brasileira

O Brasil, embora ocupe a 11ª posição no ranking Global Firepower entre 145 países, à frente de nações europeias como Alemanha e Itália, possui uma força militar respeitável no plano regional, mas estruturalmente limitada diante dos Estados Unidos.

Com cerca de 360 mil militares ativos, o país detém a maior força armada da América do Sul. No entanto, a assimetria com os EUA é gritante, que lideram o ranking global com ampla vantagem em efetivo, orçamento, logística e tecnologia militar.

Daniel Tavares, consultor de Segurança especializado em Inteligência e Planejamento Estratégico, e coronel da reserva do Exército, afirma que “a dissuasão convencional brasileira é estruturalmente limitada frente a uma potência como os EUA, que operam em um patamar muito superior de projeção de poder e tecnologia militar”.

Paulo Filho, coronel da reserva do Exército, mestre em Ciências Militares, ressalta que os norte-americanos contam com mais de 13 mil aeronaves militares, enquanto o Brasil dispõe de cerca de 513, sendo que apenas parte estaria apta a um cenário de combate de alta intensidade.

Dissuasão e os Desafios do Território Continental

No campo conceitual, a distinção entre defesa regional e dissuasão global é fundamental. Paulo Filho explica que a dissuasão exige não apenas meios militares, mas a percepção clara, por parte do adversário, de que esses meios serão empregados.

“O Brasil dispõe de capacidades suficientes para dissuadir potências médias e agressões regionais, mas não possui meios capazes de dissuadir diretamente a maior potência militar da história”, afirma Filho, indicando que apenas países com armamento nuclear conseguem impor algum grau real de dissuasão direta aos EUA.

Contudo, o território brasileiro impõe obstáculos relevantes a qualquer ação militar prolongada. As dimensões continentais do país oferecem o que os especialistas chamam de profundidade estratégica, dificultando uma operação de captura de um presidente brasileiro.

“Um eventual invasor teria de enfrentar deslocamentos longos, múltiplos biomas, climas extremos e áreas de acesso extremamente difícil, como a Amazônia, o Pantanal e a Caatinga”, explica Paulo Filho. Esse cenário encareceria a logística, dificultaria o comando e controle e favoreceria ações defensivas.

Daniel Tavares reforça que o Brasil está geograficamente distante dos Estados Unidos e “de costas para os EUA, voltado para o Atlântico Sul e a África Ocidental, o que dificulta qualquer invasão terrestre clássica”. Ele sugere que esse tipo de cenário favoreceria estratégias de desgaste e guerrilha defensiva.

Um detalhe crucial que facilitou a ação contra Maduro foi a proximidade da capital venezuelana com o mar, a menos de 20 quilômetros. Já Brasília, a capital brasileira, fica a mais de 1.000 quilômetros da costa, adicionando uma camada de complexidade para uma operação de captura.

Vulnerabilidades e a Nova Guerra de Precisão

Apesar das barreiras geográficas, especialistas apontam vulnerabilidades importantes para a segurança nacional. Daniel Tavares alerta que o maior risco para o Brasil não estaria em uma ocupação territorial, mas em ações indiretas de pressão estratégica.

“O Atlântico Sul e as rotas marítimas brasileiras são vulneráveis a bloqueios navais, algo tecnicamente simples para a Marinha dos EUA”, afirma Tavares. Um bloqueio desse tipo poderia ser devastador para a economia e para o abastecimento do país, sem a necessidade de ocupação territorial.

O general Marco Aurélio Costa Vieira observa que a operação na Venezuela não foi uma guerra convencional, mas um raid de forças especiais. “Essa é a guerra de hoje: ações pontuais, com apoio aéreo, naval, cibernético e de guerra eletrônica. Ninguém está completamente imune a esse tipo de operação”, afirma ele.

O Brasil mantém sistemas de monitoramento como o SISFRON, para controle de fronteiras terrestres, e o SISDABRA, para defesa aeroespacial. No entanto, Daniel Tavares aponta que “esses sistemas são úteis contra ameaças de baixa intensidade, mas não oferecem proteção robusta contra campanhas aéreas de alta tecnologia ou ataques de precisão prolongados”.

O Poder da Diplomacia e o Custo Político de uma Ação

É fundamental evitar comparações simplistas entre Brasil e Venezuela, ou mesmo com potências como Rússia e China. “Cada país opera em um contexto estratégico próprio, com economias, alianças e riscos completamente distintos”, afirma Paulo Filho.

O Brasil não sofre sanções internacionais especiais, mantém canais diplomáticos ativos e ocupa uma posição central na América do Sul. A Venezuela, por outro lado, lida com sanções econômicas e disputas abertas com os Estados Unidos, o que não é o caso do Brasil.

Mesmo diante das vulnerabilidades militares, os especialistas concordam que uma ação militar americana em solo brasileiro teria um custo político e diplomático altíssimo. O impacto seria imediato em fóruns como ONU, OEA e G20, além de provocar instabilidade em toda a América do Sul.

O general Marco Aurélio Costa Vieira é taxativo: “Nenhum país do mundo se compara hoje aos Estados Unidos em capacidade de projeção de poder”. No entanto, o consenso é que o maior fator de proteção do Brasil não reside em seus meios militares contra uma superpotência, mas em sua inserção internacional, em suas alianças diplomáticas e no custo global que uma ruptura dessa magnitude imporia, até mesmo para os Estados Unidos.

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