Conversas de Jeffrey Epstein e Steve Bannon sobre Bolsonaro vêm à tona nos novos Epstein Files

Uma nova e reveladora leva de arquivos dos Epstein Files, divulgada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), trouxe à luz o que parecem ser conversas entre o financista americano Jeffrey Epstein e o estrategista político Steve Bannon, figura central no primeiro mandato de Donald Trump. As mensagens, datadas de outubro de 2018, giram em torno do então candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro (PL), e de possíveis articulações políticas no cenário sul-americano.

Os diálogos, que não abordam os crimes sexuais pelos quais Epstein foi acusado, detalham a visão do financista sobre Bolsonaro como um “revolucionário” e a consideração de Bannon em atuar como conselheiro do futuro presidente brasileiro. A proximidade de Bannon com a família Bolsonaro já era conhecida, mas os documentos agora indicam um nível de discussão estratégica e cautela sobre essa associação.

As trocas de mensagens, que ocorrem em um momento crucial – dias após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018 no Brasil –, revelam conselhos de Epstein a Bannon sobre a complexidade da política sul-americana e a necessidade de manter a relação com Bolsonaro “nos bastidores”, conforme informações divulgadas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ).

Contexto da Divulgação: Os Epstein Files e a Transparência Judicial

A recente liberação de documentos dos Epstein Files é parte de um esforço maior de transparência determinado por uma lei aprovada pelo Congresso americano. Esta legislação exige que todos os arquivos em posse do Departamento de Justiça relacionados ao financista Jeffrey Epstein sejam tornados públicos. A divulgação, que deveria ter sido concluída em dezembro, tem ocorrido em levas separadas, expondo detalhes da vasta rede de contatos de Epstein.

Jeffrey Epstein, um proeminente financista com conexões globais, cometeu suicídio na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por acusações de coordenar um esquema de tráfico sexual de menores. Sua morte prematura, no entanto, não encerrou o interesse público e judicial em suas atividades e em sua rede de associados, levando à contínua revelação de documentos que lançam luz sobre diversos aspectos de sua vida e contatos.

É importante notar que, ao divulgar esses arquivos, o DOJ emitiu um comunicado alertando que a leva de documentos “pode incluir imagens, documentos ou vídeos falsos ou submetidos de forma fraudulenta, visto que tudo o que foi enviado ao FBI pelo público foi incluído na produção que atende aos requisitos da lei”. Essa ressalva sublinha a necessidade de análise crítica do material, embora as conversas entre Epstein e Bannon sobre Bolsonaro pareçam, pelo contexto e pelas datas, ser autênticas e relevantes.

Análise das Mensagens: Bolsonaro, um “Revolucionário” e o Cenário Brasileiro de 2018

As mensagens entre Jeffrey Epstein e Steve Bannon trazem um olhar fascinante sobre a percepção de figuras influentes da direita global em relação à ascensão de Jair Bolsonaro em 2018. Em 8 de outubro de 2018, um dia após o primeiro turno da eleição presidencial brasileira, Epstein expressou sua visão sobre Bolsonaro, descrevendo-o como um “revolucionário”.

Epstein destacou características que, em sua análise, tornavam Bolsonaro uma figura singular no cenário político mundial: “Bolsonaro é um revolucionário. Sem refugiados querendo entrar [no país]. Sem Bruxelas [sede da União Europeia] lhe dizendo o que fazer. Ele só precisa recuperar a economia. É grande”, escreveu Epstein. Ele ainda complementou sua avaliação com um dado econômico, referindo-se ao Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil naquele ano: “PIB de US$ 1,8 bilhão”. Essa perspectiva de Epstein revela uma admiração por um líder que ele via como nacionalista e avesso a influências externas, em sintonia com a onda conservadora que se espalhava pelo mundo.

A menção a “sem Bruxelas lhe dizendo o que fazer” é particularmente reveladora. Ela ecoa o sentimento anti-establishment e anti-globalista que Steve Bannon e o movimento populista de direita de Donald Trump propagavam na época. Para Epstein, Bolsonaro representava um modelo de liderança que desafiava as normas estabelecidas e prometia uma guinada conservadora e soberanista para o Brasil, elementos que ressoavam com a agenda política que Bannon buscava promover globalmente.

Steve Bannon e a Tentativa de Proximidade com a Família Bolsonaro

A resposta de Steve Bannon à análise de Epstein sobre Bolsonaro revela sua intenção de se envolver diretamente na política brasileira. Bannon afirmou ser “muito próximo desses caras”, uma referência clara à família Bolsonaro, com quem sua amizade e afinidade política eram publicamente conhecidas há anos. O estrategista político então levantou a questão: “Eles me querem como conselheiro deles, devo aceitar?”.

Essa pergunta de Bannon a Epstein sugere que o estrategista buscava um conselho sobre a viabilidade e as implicações de assumir um papel formal na campanha ou na futura administração de Bolsonaro. A influência de Bannon, conhecido por sua atuação na campanha de Donald Trump em 2016 e por sua visão de um movimento populista global, era um ativo valioso para a direita em ascensão, e o Brasil de Bolsonaro representava um terreno fértil para a expansão de sua ideologia.

A proposta de Bannon de se tornar conselheiro de Bolsonaro, embora não se tenha concretizado publicamente de forma oficial, indica a intenção de solidificar uma ponte entre o movimento de direita americano e o emergente governo brasileiro. A busca por um papel nos bastidores, como veremos, seria uma constante nas discussões, refletindo a complexidade de alianças políticas transnacionais e a necessidade de gerenciar a percepção pública dessas conexões.

Os Conselhos de Epstein: “Reinar no Inferno” e a “América do Sul é mais como o jogo de 52 pick-up”

As respostas de Jeffrey Epstein aos questionamentos de Bannon sobre a política brasileira e seu possível envolvimento são marcadas por ironia e ceticismo. Ao ser questionado se deveria aceitar o convite para ser conselheiro de Bolsonaro, Epstein ironizou: “É novamente uma discussão sobre reinar no inferno”. Essa frase, uma referência clássica à ideia de ter controle em uma situação difícil ou caótica, sugere que Epstein via a política brasileira como um desafio complexo, talvez com mais problemas do que benefícios claros.

Bannon, no entanto, pareceu interpretar a metáfora de Epstein de forma mais otimista, ligando-a a um cenário global de avanço da direita: “Isso e a Europa levam a um resultado de reinar no céu”, respondeu o estrategista político. Sua visão era de que o controle da direita no Brasil e na Europa poderia pavimentar o caminho para um cenário político global mais favorável aos seus ideais.

Epstein, porém, permaneceu cauteloso, aconselhando Bannon sobre a falta de conhecimento direto do estrategista sobre a região: “Você não conhece ninguém lá”, disse, referindo-se ao Brasil. Ele comparou a política sul-americana a um “jogo de 52 pick-up”, uma pegadinha americana onde as cartas são espalhadas no chão e a vítima é instruída a pegá-las como parte de um “jogo”. Essa analogia de Epstein sugere a instabilidade e imprevisibilidade da política na América do Sul, alertando Bannon para um cenário menos estruturado e mais caótico do que ele poderia estar acostumado na Europa ou nos EUA, onde ele se sentia mais à vontade, como no “jogo de bridge”.

A Necessidade de Manter Jair nos Bastidores: A Cautela de Bannon

A preocupação com a percepção pública da associação entre Steve Bannon e Jair Bolsonaro é um tema recorrente nas mensagens de 12 de outubro de 2018. Epstein expressou seu descontentamento com Bolsonaro “falar que qualquer associação com você seria fake news, embora eu entenda”. Naquele mês, tanto o futuro presidente quanto o estrategista americano haviam negado publicamente qualquer participação de Bannon na campanha de Bolsonaro, apesar da evidente afinidade política.

Epstein, com sua sugestão de um “boné MBGA” – uma adaptação do slogan de Trump “Make America Great Again” para “Faça o Brasil Grande de Novo” –, demonstrava o desejo de que a influência de Bannon fosse reconhecida, mas também compreendia a necessidade de discrição. A resposta de Bannon a essa observação de Epstein é crucial: “Tenho que manter essa coisa do Jair nos bastidores. Meu poder vem do fato de não ter ninguém para me defender”.

Essa declaração de Bannon revela uma estratégia calculada. Ao operar nas sombras, sem um papel oficial ou uma defesa pública explícita, Bannon acreditava que sua influência seria maior e menos sujeita a escrutínio. A falta de um vínculo formal lhe conferia uma liberdade de ação e uma aura de poder nos bastidores, evitando as armadilhas e as críticas que poderiam vir de uma associação pública. Epstein concordou com a necessidade de cautela, dizendo: “Sei disso. Mas você também corre riscos. Então, vamos ficar atentos, cautelosos e diligentes”, ao que Bannon respondeu “concordar 1.000%”. Essa troca sublinha a natureza delicada e calculada das relações políticas internacionais e a importância da gestão de imagem para figuras como Bannon.

Implicações das Revelações e o Silêncio da Família Bolsonaro

A divulgação dessas conversas nos Epstein Files, embora não tratem dos crimes sexuais de Epstein, adiciona uma camada de complexidade à narrativa sobre a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder em 2018 e suas conexões internacionais. As mensagens confirmam o interesse e a interação de figuras proeminentes da direita global, como Steve Bannon, com o movimento que levou Bolsonaro à presidência. Elas sugerem um planejamento estratégico e uma coordenação que iam além das meras afinidades ideológicas declaradas publicamente.

Até o momento, os filhos de Bolsonaro não se pronunciaram sobre o conteúdo desses documentos. O espaço permanece aberto para qualquer manifestação por parte deles ou de seus representantes. A ausência de comentários, no entanto, não diminui o impacto das revelações, que reacendem debates sobre a influência externa nas eleições brasileiras e a teia de contatos de Jeffrey Epstein, que se estendia muito além de suas atividades criminosas conhecidas.

É importante contextualizar que o ex-presidente Jair Bolsonaro, conforme a fonte, cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no ano passado por acusações de tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022. Esta informação, presente nos documentos, adiciona uma camada de seriedade ao contexto político em que essas conversas ocorreram e suas possíveis repercussões atuais, embora seja crucial reiterar que as mensagens em si não tratam dos crimes de Epstein, mas sim de articulações políticas.

O Legado dos Epstein Files e o Futuro das Investigações

A contínua liberação dos Epstein Files representa um marco significativo na busca por transparência e responsabilização. A cada nova leva de documentos, surgem mais detalhes sobre as conexões de Jeffrey Epstein com personalidades do mundo da política, finanças, entretenimento e ciência. Embora a maioria das atenções esteja voltada para os aspectos relacionados aos crimes sexuais do financista, as conversas com Steve Bannon sobre Jair Bolsonaro demonstram a amplitude de seus interesses e o alcance de sua rede.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ao cumprir a lei de divulgação, garante que o público tenha acesso a informações que, de outra forma, poderiam permanecer ocultas. A ressalva sobre a possibilidade de documentos falsos ou fraudulentos na leva reforça a necessidade de um jornalismo rigoroso e uma análise cuidadosa por parte dos pesquisadores e da sociedade. No entanto, o contexto e a consistência das trocas entre Epstein e Bannon sobre Bolsonaro sugerem a autenticidade e a relevância desses diálogos para a compreensão de um período político crucial.

O impacto a longo prazo dessas revelações ainda está por ser totalmente compreendido. Elas podem catalisar novas investigações, revisitar eventos passados sob uma nova luz e, mais importante, contribuir para uma compreensão mais profunda das complexas interconexões entre poder, dinheiro e influência política em escala global. Os Epstein Files continuam a ser uma fonte inesgotável de informações, revelando que a teia de Jeffrey Epstein era muito mais extensa do que se imaginava inicialmente, tocando até mesmo nas altas esferas da política internacional, como as discussões sobre o Brasil de Bolsonaro.

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