O cenário político e jurídico brasileiro volta a ser sacudido por um novo inquérito sigiloso, desta vez aberto pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A medida surge em um momento de intensa pressão sobre a corte, após a exposição de detalhes financeiros e societários que ligam familiares de ministros ao polêmico escândalo do Banco Master.
A investigação tem como foco apurar supostos vazamentos de informações sigilosas da Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para a imprensa, conforme revelações de colunistas do jornal O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo.
O Envolvimento das Famílias no Escândalo do Banco Master
O escândalo do Banco Master ganhou novos contornos com as reportagens que trouxeram à tona o envolvimento de familiares de dois ministros do STF.
Primeiramente, o jornal O Globo revelou um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
O valor total do contrato alcançaria a soma de R$ 129 milhões, ou R$ 3,6 milhões mensais, por diversos serviços, uma quantia que surpreendeu até mesmo advogados renomados de grandes bancas brasileiras.
Em seguida, a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo expuseram negócios e uma sociedade, já desfeita, entre empresas de irmãos e um primo de Dias Toffoli.
Esses laços estariam inseridos em uma complexa rede de transações tecida por Daniel Vorcaro para levar adiante suas operações, incluindo um cunhado do banqueiro e um fundo de investimentos administrado pela Reag.
A Reag, por sua vez, é uma corretora que está sendo investigada por possíveis ligações com o crime organizado e foi liquidada pelo Banco Central no último dia 15.
A Resposta do STF: Um Inquérito Sigiloso sem Precedentes?
Diante da crescente pressão da imprensa, que tem sido bastante crítica, especialmente em relação a Toffoli, os ministros responderam com a abertura de um novo inquérito sigiloso.
O ministro Dias Toffoli já era considerado sem condições de relatar o caso Master no Supremo desde a revelação de sua carona aérea com o advogado de um dos sócios de Vorcaro, e tem sido alvo de críticas pela condução da investigação.
Sem qualquer provocação do Ministério Público, e convicto de que os dados foram obtidos pelos jornalistas por meio de vazamento, e não por trabalho investigativo, Moraes abriu a investigação.
O ministro, que ocupa interinamente a presidência da corte, repete a estratégia utilizada em 2019, quando Toffoli abriu de ofício o “inquérito das fake news” e o entregou a Moraes sem sorteio.
Questiona-se a legalidade da medida, já que o artigo 43 do Regimento Interno do STF exige que a ocorrência se dê “na sede ou dependência do Tribunal” para a abertura de um inquérito de ofício.
Além disso, a situação levanta preocupações sobre o conflito de interesses, uma vez que Moraes e Toffoli têm interesse direto no assunto, pois seus familiares estão no centro das acusações.
A falta de prerrogativa de foro para auditores da Receita ou do Coaf, que seriam os alvos potenciais da investigação, também se torna um ponto de debate na discussão jurídica.
O Padrão de Investigação de Moraes e as Críticas
A abertura deste inquérito sigiloso por Alexandre de Moraes segue um padrão já observado em outras ocasiões, como no caso de seu ex-assessor Eduardo Tagliaferro.
Tagliaferro, que denunciou métodos supostamente ilegais no STF e no TSE para perseguir críticos da corte, tornou-se réu por crimes como violação de sigilo funcional, em vez de suas denúncias serem investigadas.
Essa abordagem, segundo críticos, visa “abater o mensageiro”, desviando o foco das suspeitas e ligações questionáveis para a forma como as informações vieram a público.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), com vasta experiência como delegado da Polícia Civil, expressou sua preocupação em uma publicação no X, antigo Twitter.
“Os ministros Toffoli e Moraes tentam de todas as formas constranger e ameaçar a Polícia Federal e a Receita. É abuso de poder escancarado. Não conseguem explicar relações com investigados e transações milionárias, então partem para a intimidação”, afirmou o senador.
Há temores de que este novo inquérito sigiloso possa resultar em tentativas de intimidar profissionais da imprensa que revelaram os fatos, possivelmente buscando a quebra do sigilo de suas fontes, protegido constitucionalmente.
Questionamentos à Supremocracia e a Busca por Transparência
A hipótese de um vazamento de dados, embora não totalmente descartada, carece de base sólida no momento, e qualquer investigação deveria seguir o rito correto.
Isso incluiria um pedido formal do Ministério Público ao juízo competente, sem que ministros do Supremo acumulem os papéis de vítimas, investigadores e julgadores.
No entanto, o que se observa é, mais uma vez, a atuação da “supremocracia”, onde a investigação pode se transformar em instrumento de intimidação.
Nesse cenário, a lei pode ser substituída pelas vontades dos ministros, e os fatos que merecem investigação profunda ficam em segundo plano.
O foco principal parece ser descobrir como aquilo que deveria ter permanecido oculto veio à luz pública, em vez de esclarecer as denúncias de alto impacto.