Seis promotores federais de carreira em Minnesota apresentaram suas renúncias nesta terça-feira, 13, em um movimento que expõe uma profunda crise no sistema de justiça dos Estados Unidos. As saídas ocorrem em meio a fortes pressões do Departamento de Justiça (DOJ) para que uma investigação criminal fosse aberta contra a viúva de uma mulher morta por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), enquanto o próprio atirador não era alvo de qualquer apuração.
A situação gerou um intenso debate sobre a imparcialidade das investigações e a aplicação da lei em casos envolvendo agentes federais. A recusa do DOJ em apurar o uso da força pelo agente do ICE, contrastando com a insistência em investigar a viúva, levantou sérias questões éticas e legais.
O caso, que se desenrola em Minneapolis, cidade marcada por recentes tensões raciais e policiais, ganhou destaque nacional e foi detalhado pelo The New York Times, que ouviu fontes com conhecimento direto dos fatos.
Promotores Se Recusam a Investigar Viúva e Deixam Cargos
Entre os promotores que deixaram seus cargos está Joseph H. Thompson, que ocupava a posição de número dois no Ministério Público Federal em Minnesota. Thompson era responsável por uma ampla investigação de fraudes envolvendo programas sociais no estado, e sua renúncia é vista como um grande impacto.
Segundo o The New York Times, Thompson se opôs veementemente à exigência de investigar Becca Good, viúva de Renee Nicole Good, a mulher morta na semana passada em Minneapolis durante uma ação de agentes do ICE. Ele também criticou a recusa do Departamento de Justiça em apurar se o uso da força pelo agente foi legal e justificável.
Além de Joseph H. Thompson, outros promotores seniores como Harry Jacobs, Melinda Williams e Thomas Calhoun-Lopez também renunciaram. Nenhum deles comentou publicamente os motivos de suas saídas, e o Departamento de Justiça não respondeu aos pedidos de esclarecimento do jornal.
A Morte de Renee Nicole Good e a Reação do Departamento de Justiça
Renee Nicole Good foi morta a tiros por um agente de imigração dos Estados Unidos durante uma operação realizada na última quarta-feira, 7, em Minneapolis, a mesma cidade onde George Floyd foi assassinado pela polícia em 2020. A morte de Renee, mãe de três filhos, provocou centenas de pessoas a protestarem contra a ação do ICE.
Após o tiroteio, a chefe da Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça, Harmeet Dhillon, informou internamente que o departamento não abriria uma investigação federal para avaliar se o agente havia violado a lei. Em vez disso, o foco do departamento passou a ser a análise dos vínculos da viúva da vítima com grupos que monitoram e protestam contra as ações de agentes de imigração.
A postura do governo foi ainda mais inflamada quando a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, referiu-se publicamente à vítima como uma “terrorista doméstica”, gerando forte indignação e críticas sobre a forma como o caso estava sendo tratado.
Evidências em Vídeo e Ações Legais Contra o ICE
Um vídeo gravado por transeuntes e amplamente divulgado nas redes sociais mostra a sequência de eventos. As imagens revelam um agente se aproximando do carro de Renee, exigindo que ela abrisse a porta e tentando agarrar a maçaneta. Quando ela começa a avançar com o veículo, outro agente do ICE, posicionado à frente, saca sua arma e dispara imediatamente pelo menos dois tiros contra o carro à queima-roupa.
Em resposta à escalada de tensões e aos alegados abusos, o procurador-geral de Minnesota e os prefeitos de Minneapolis e St. Paul ingressaram com uma ação na Justiça Federal. Eles pedem o fim da operação do ICE no estado, alegando abusos e violações de direitos civis por parte dos agentes federais.
A situação de tensão envolvendo agentes federais não se limitou a Minneapolis. Na última quinta-feira, 9, um novo tiroteio envolvendo agentes federais foi registrado em Portland, no Oregon, deixando duas pessoas feridas, o que intensifica o debate sobre as práticas e a responsabilidade das forças de segurança federais.