Regime iraniano: Mudança só com invasão militar, afirma especialista em direito internacional
A recente morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em decorrência de ataques atribuídos aos Estados Unidos e Israel, intensificou os debates sobre o futuro do país. No entanto, segundo o especialista em direito internacional Daniel Toledo, professor honorário da Universidade de Oxford, a derrubada do atual regime teocrático só seria possível mediante uma incursão militar em território iraniano.
Toledo explica que a particularidade da estrutura política iraniana, regida pela Constituição, e os desafios geográficos do país são fatores cruciais para essa análise. A complexidade da situação levanta questões sobre as estratégias de potências como os Estados Unidos e Israel, que manifestam o desejo de promover uma mudança de regime no Irã, conforme informações divulgadas pelo especialista.
A possibilidade de retaliações e ataques terroristas, com o envolvimento de grupos financiados pelo Irã, como o Hezbollah, também é um ponto de atenção destacado por Toledo, que observa os impactos dessa tensão global em diferentes partes do mundo, incluindo recomendações de segurança em cidades como Houston, Texas.
Estrutura constitucional do Irã e a sucessão do Líder Supremo
A análise de Daniel Toledo para a eventual queda do regime iraniano parte da compreensão de sua estrutura política, detalhada na Constituição do país. Segundo o artigo 111 da Carta Magna iraniana, na ausência do líder supremo, a sucessão não é automática nem aponta para uma transição democrática imediata. Em vez disso, um conselho assume o poder temporariamente.
Este conselho é formado por figuras-chave do atual sistema: o presidente em exercício, Masoud Pezeshkian, o chefe do judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, e uma terceira pessoa a ser nomeada pelo Conselho Guardião. A principal atribuição deste grupo seria a organização de novas eleições para a escolha de um novo líder supremo, assegurando, assim, a continuidade do regime teocrático.
Essa particularidade constitucional é um dos pilares da argumentação de Toledo de que, para ocorrer uma efetiva mudança de regime, no sentido de uma alteração fundamental na natureza política do país, seria necessária uma intervenção externa direta. A estrutura existente é projetada para garantir a perpetuação do sistema teocrático, dificultando transições internas que levem a um novo modelo de governança sem pressão externa significativa.
A necessidade de incursão militar para mudança de regime, segundo Toledo
Daniel Toledo argumenta de forma contundente que a única via para uma mudança de regime no Irã, algo que tem sido explicitamente desejado por figuras políticas como Donald Trump e por Israel, é através de uma incursão militar direta no território iraniano. Ele fundamenta essa afirmação em uma perspectiva histórica e pragmática sobre transformações políticas em nações.
“Para haver uma mudança de regime, que é o que Donald Trump quer e é o que Israel também quer, é preciso ter uma incursão militar dentro do país. Historicamente, não existe nenhum país que teve uma mudança de regime sem uma incursão de infantaria”, afirmou Toledo, ressaltando a ausência de precedentes que sustentem a ideia de que uma derrubada de regime possa ocorrer apenas por meios internos ou pressões externas indiretas.
Essa perspectiva sugere que as atuais tensões e ataques pontuais, mesmo que significativos, não seriam suficientes para desmantelar a estrutura de poder estabelecida. Uma intervenção militar terrestre, com a entrada de tropas em solo iraniano, seria, na visão do especialista, o fator determinante para forçar uma alteração no sistema de governança do país. A declaração aponta para um cenário de conflito direto como única alternativa para atingir o objetivo de mudança de regime.
Desafios geográficos e estratégicos para uma invasão do Irã
Além da complexidade política, Daniel Toledo destaca os consideráveis desafios geográficos que tornariam uma eventual incursão militar no Irã uma operação extremamente complexa e arriscada. A topografia do país apresenta obstáculos naturais que poderiam ser utilizados para fins defensivos, complicando significativamente qualquer avanço de tropas invasoras.
“Invadir o Irã é a mesma sensação que você teria em escalar um muro com pessoas atirando de cima para baixo. Porque ali nós temos as colinas do norte e do oeste, as montanhas do norte e do oeste, um grande deserto no meio e todo o resto é área de defesa do Irã”, explicou Toledo, utilizando uma analogia vívida para descrever a dificuldade tática e estratégica de tal empreitada.
Essa descrição detalhada da geografia iraniana – com suas cadeias de montanhas, colinas e o vasto deserto central – sugere que o país está naturalmente preparado para a defesa. Qualquer força invasora enfrentaria não apenas a resistência das forças armadas iranianas, mas também a própria configuração do terreno, que favorece emboscadas e defesas em altura. Esses fatores aumentam exponencialmente o custo humano e material de uma operação militar de larga escala no Irã.
Ameaças de retaliação e o financiamento de grupos armados
Um dos aspectos mais preocupantes mencionados por Daniel Toledo refere-se às possíveis retaliações iranianas, que incluem o espectro de ataques terroristas. O especialista aponta que o Irã, através do financiamento e apoio a grupos como o Hezbollah, possui a capacidade de projetar poder e instabilidade em diversas regiões.
Segundo Toledo, esses grupos recebem um montante anual estimado em aproximadamente US$ 6 bilhões (mais de R$ 30,8 bilhões) em armamentos. Esse volume financeiro e material representa uma ameaça significativa não apenas para os países vizinhos do Irã, mas também para os próprios Estados Unidos e seus aliados. A capacidade de financiamento e armamento desses grupos é um vetor importante na estratégia de Teerã para exercer influência e responder a ameaças.
A gravidade dessa ameaça é tamanha que, em cidades como Houston, Texas, onde o especialista se encontrava, foram emitidas orientações para evitar grandes aglomerações. A menção ao tradicional rodeio da cidade como um exemplo de evento que poderia ser alvo de ataques sublinha o nível de preocupação com a possibilidade de atentados terroristas motivados pela escalada de tensões no Oriente Médio. Essa estratégia de apoio a proxies demonstra a complexidade da segurança global diante do cenário iraniano.
Operações de combate anunciadas pelos EUA e Israel
Em meio a esse cenário de alta tensão, Donald Trump anunciou publicamente que os Estados Unidos iniciaram “grandes operações de combate” no Irã. A declaração, feita em um vídeo divulgado na rede social Truth Social, prometia a aniquilação das forças armadas iranianas e a destruição de seu programa nuclear, sinalizando uma escalada significativa no conflito.
Trump acusou o Irã de rejeitar repetidamente oportunidades para renunciar às suas ambições nucleares, afirmando que os Estados Unidos “não aguentam mais”. Paralelamente, Israel também confirmou a realização de ataques contra o território iraniano, indicando uma ação coordenada ou, no mínimo, simultânea entre as duas potências contra o regime de Teerã.
Diferentemente de ataques anteriores, como os ocorridos em junho de 2025, as atuais operações tiveram início à luz do dia, na madrugada de um sábado – o primeiro dia da semana no Irã –, enquanto a população se dirigia para o trabalho e estudos. Fontes da CNN Internacional relataram que, desta vez, as forças armadas norte-americanas planejam ataques com duração de vários dias, contrastando com a brevidade das operações passadas.
O alvo da primeira onda de ataques e a resposta iraniana
Relatos da CNN Internacional indicam que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, estava entre os alvos da primeira onda de ataques, juntamente com outros líderes importantes do regime. Essa informação sugere que a estratégia militar visava atingir diretamente a cúpula do poder iraniano, na tentativa de desestabilizar o governo de forma rápida e eficaz.
Em resposta a essas ações, o regime iraniano lançou uma onda de ataques sem precedentes em todo o Oriente Médio. Explosões foram ouvidas em diversos países que abrigam bases militares americanas, incluindo Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Iraque. Essa retaliação em larga escala demonstra a capacidade de alcance e a disposição do Irã em responder a agressões, espalhando o conflito para além de suas fronteiras.
A magnitude e o alcance desses ataques iranianos evidenciam a complexidade da situação geopolítica na região e o risco de uma escalada generalizada. A resposta do Irã, que atingiu múltiplos países simultaneamente, sublinha a interconexão dos conflitos e a dificuldade em conter a instabilidade uma vez que ela se instaura. A situação atual reflete um ponto crítico nas relações internacionais, com sérias implicações para a segurança global.
O papel do Hezbollah e a projeção de poder iraniano
A menção ao Hezbollah como um grupo financiado pelo Irã, com um aporte anual de aproximadamente US$ 6 bilhões em armamentos, é crucial para entender a estratégia de projeção de poder de Teerã. Este financiamento substancial permite ao Hezbollah manter uma capacidade bélica significativa, atuando como um braço armado do Irã em diversas frentes e regiões.
Daniel Toledo ressalta que essa capacidade de armamento representa uma ameaça considerável para países vizinhos e até mesmo para os Estados Unidos. O Hezbollah, com o apoio iraniano, tem sido um ator central em conflitos regionais, influenciando a dinâmica política e militar no Oriente Médio. A extensão desse apoio financeiro e militar demonstra a importância estratégica que o Irã confere a esses grupos para sua política externa e de segurança.
A preocupação com possíveis ataques terroristas, como mencionado anteriormente, está diretamente ligada a essa capacidade de financiamento e armamento. A orientação de segurança em Houston, Texas, que sugere evitar grandes aglomerações, como o tradicional rodeio da cidade, é um reflexo concreto do temor de que esses grupos possam ser mobilizados para realizar atentados em solo estrangeiro. Essa rede de influência e ação militar indireta é um dos principais instrumentos do Irã para exercer poder e responder a adversidades.
O futuro incerto e as implicações globais
A análise de Daniel Toledo lança uma luz sombria sobre o futuro do regime iraniano e a possibilidade de uma mudança política sem intervenção militar. A estrutura constitucional do país, combinada com seus desafios geográficos e a complexidade das alianças regionais, sugere um cenário onde a estabilidade do regime teocrático é resiliente a pressões internas e externas menos diretas.
As operações de combate anunciadas pelos Estados Unidos e Israel, e a subsequente resposta iraniana, indicam uma escalada de tensões que pode ter repercussões globais. A capacidade do Irã de mobilizar grupos como o Hezbollah para retaliações amplifica o risco de um conflito regional mais amplo, com potencial para afetar a estabilidade econômica e a segurança internacional.
A declaração de Toledo de que “historicamente, não existe nenhum país que teve uma mudança de regime sem uma incursão de infantaria” serve como um alerta sobre a gravidade da situação. Se o objetivo de potências como os EUA e Israel for realmente a mudança de regime, o caminho apontado pelo especialista é o de um confronto militar direto, com todas as incertezas e perigos que tal empreitada acarreta. O desenrolar desses eventos continuará sendo acompanhado de perto pela comunidade internacional.