A Nova Geopolítica Americana: Por Que a Estratégia Norte-Sul Redefine o Poder Global e o Papel das Américas?
O cenário geopolítico mundial está passando por uma ruptura estrutural, com a forma como o poder global é projetada sendo completamente redefinida. Observadores apontam para uma guinada significativa na política externa dos Estados Unidos, especialmente sob a administração de Donald Trump, marcando o abandono da tradicional estratégia Leste-Oeste.
Essa mudança culmina na consolidação de uma nova e ambiciosa diretriz: a estratégia Norte-Sul. Washington estaria agora priorizando uma conexão profunda e prioritária entre todas as Américas, buscando uma espécie de “secularização” estratégica, onde o foco se desvia de regiões como Oriente Médio, Ásia e, surpreendentemente para muitos, a própria Europa.
O objetivo é claro, criar um bloco contínuo e autossuficiente que se estenda da Groenlândia à Patagônia, uma reorientação vista como essencial para a sobrevivência americana em um mundo em constante transformação, conforme análise recente sobre a nova missão americana.
A Reorientação Estratégica dos Estados Unidos
A nova corrida global não é vencida apenas pelo aumento da capacidade produtiva de armas convencionais, mas sim por meio de tecnologias revolucionárias capazes de incapacitar sistemas de defesa inteiros. Para sustentar essa vanguarda, os Estados Unidos necessitam de um “quintal” seguro e rico, o que explica a virada para o continente americano.
Nesta nova ordem, três imperativos ditam a urgência dessa integração. Primeiramente, o acesso soberano a terras raras, minerais que são a espinha dorsal de novos produtos e serviços, cruciais não apenas para a transição energética, mas também para a inteligência artificial e a computação quântica.
Em segundo lugar, a segurança integral de recursos. As Américas detêm a tríade necessária para a estabilidade de qualquer potência global: minérios estratégicos, energia abundante e segurança alimentar. Essa combinação é vista como fundamental para a autonomia e resiliência dos EUA.
Por fim, a incapacitação tecnológica do adversário. O domínio dessas tecnologias permite aos EUA neutralizar ameaças sem a necessidade de confrontos bélicos de larga escala, desde que controlem a cadeia de suprimentos hemisférica. Essa abordagem pragmática visa a segurança nacional a longo prazo.
O Declínio Europeu e a Proximidade Americana
Enquanto muitos analistas ainda veem a Europa como um pilar do Ocidente, uma análise técnica sugere que o Velho Continente pode estar se tornando um antagonista político e econômico. A Europa, segundo a perspectiva, mergulhou em um “socialismo fabiano”, um coletivismo gradual que estagnou economias, empobreceu a classe média e resultou em um colapso demográfico.
O dinamismo que outrora caracterizou o eixo transatlântico teria sido substituído por uma burocracia paralisante. Em contraste, a América Latina possui uma afinidade civilizacional inestimável com os Estados Unidos, com populações maioritariamente cristãs que compartilham valores familiares e uma herança institucional moldada pelo modelo americano.
A Europa estaria caminhando para se tornar um território hostil, com governos que, em menos de uma década, poderiam confrontar os valores ocidentais. Diante disso, as Américas oferecem uma base culturalmente compatível e um custo de manutenção da OTAN e auxílio à Europa considerado alto demais para um benefício nulo, reforçando a estratégia Norte-Sul.
A estratégia Norte-Sul é, portanto, uma questão de pragmatismo econômico. É visto como exponencialmente mais barato e rápido estabelecer uma hegemonia nas Américas do que tentar remediar a alegada falência europeia. Os Estados Unidos precisam do petróleo da Venezuela e das terras raras brasileiras para garantir que estes ativos não caiam nas mãos de potências extrarregionais, especificamente a China, que hoje atua como um agente de subversão econômica no hemisfério americano.
O Brasil no Tabuleiro Geopolítico e os Desafios à Soberania
Para que esta doutrina seja plenamente executada, o governo americano terá de enfrentar os “cânceres” que corroem a região. O narcotráfico, por exemplo, não é apenas um problema de segurança pública, mas o motor da falência institucional que sustenta ditaduras e promove a imigração desordenada.
A pressão norte-americana será implacável, focada em resultados. Um governo, seja de direita ou de esquerda, que não garantir estabilidade e combate ao crime, será visto como um obstáculo à segurança nacional dos EUA. Já se observa este movimento na pressão sobre Nicarágua e Venezuela, indicando a seriedade da nova missão americana.
No Brasil, a situação é particular devido à sua dimensão federalista e à complexidade institucional. Contudo, o prazo é exíguo, com a expectativa de que até o final de 2026 as cartas estarão todas na mesa. O país terá de decidir seu papel, pois está atualmente em uma posição delicada, entre a influência russa e chinesa, que busca manter regimes ditatoriais sob controle externo, e o alinhamento com os EUA.
Os pontos críticos desta transição institucional incluem a desarticulação do narcoterrorismo, visando a asfixia financeira de grupos que desestabilizam governos e corrompem a democracia. Além disso, a contenção da influência autocrática, com a expulsão estratégica do capital chinês e russo que visa a dependência política, é crucial.
O desafio final é a revisão da soberania nacional, um equilíbrio entre manter a identidade brasileira e se integrar em um bloco liderado por uma superpotência pragmática. A transição para o eixo Norte-Sul é um caminho sem volta, que oferece ao Brasil uma proteção necessária contra modelos antidemocráticos e nocivos.
No curto prazo, a tolerância e a liberdade garantidas pelo alinhamento com os EUA são consideradas infinitamente superiores às sombras de um regime pró-China, um país altamente autocrático. Contudo, ao abraçarmos essa nova era, a soberania brasileira será posta à prova, com a preferência sendo um parceiro estratégico na fortaleza das Américas do que um peão isolado num tabuleiro euro-asiático, como o BRICS, que é visto como um bloco em chamas.