Estudantes Iranianos Entoam Cânticos Antigoverno e Confrontam Forças de Segurança
O Irã testemunha o quarto dia consecutivo de protestos estudantis em diversas escolas e universidades, marcando o 40º dia desde o fim de manifestações antigovernamentais em todo o país. Jovens demonstraram insatisfação entoando cânticos contra o regime e entrando em confronto direto com as forças de segurança, em um cenário de crescente tensão social. A onda de protestos, que eclodiu no último fim de semana, reflete a persistência do descontentamento popular após a violenta repressão governamental de novembro.
Fotos e vídeos divulgados nos últimos dias revelam cenas de estudantes em universidades, inclusive na capital Teerã, queimando bandeiras da República Islâmica e proferindo insultos contra o Líder Supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Esses atos de desafio direto aos símbolos e à liderança do regime indicam um aprofundamento da contestação, que agora se manifesta com intensidade no ambiente acadêmico.
As autoridades iranianas reagiram com advertências. O Ministro da Ciência, Hossein Saraf, alertou que os “manifestantes violentos” serão tratados “com seriedade” por meio de “conselhos disciplinares”. Em um vídeo divulgado pela mídia estatal, Saraf declarou que “nenhum cidadão iraniano aceita insultos a símbolos nacionais como a querida bandeira do Irã”, buscando deslegitimar os protestos e apelar ao nacionalismo.
A Escalada dos Protestos Estudantis e a Resposta do Regime
Os protestos estudantis ganharam força e visibilidade nos últimos dias, com a juventude iraniana utilizando as instituições de ensino como palco para expressar seu descontentamento. A data escolhida para o reinício das manifestações, marcando 40 dias desde o fim de protestos mais amplos, sugere uma tentativa de manter viva a memória e a pressão contra o governo. A queima de bandeiras e os cânticos contra Ali Khamenei são atos simbólicos de profunda significância, visando descredibilizar a autoridade suprema do país.
A reação do governo, através do Ministro da Ciência, Hossein Saraf, aponta para uma estratégia de controle e dissuasão. Ao classificar os manifestantes como “violentos” e ameaçar com “conselhos disciplinares”, o regime busca criminalizar os atos de protesto e justificar possíveis medidas repressivas. A menção à “bandeira do Irã” como um símbolo sagrado visa evocar um sentimento de unidade nacional e patriotismo, tentando isolar os manifestantes e apresentá-los como antinacionais.
Mídia Estatal Minimiza Protestos e Promove Narrativa Pró-Governo
Em contrapartida à visibilidade dos protestos estudantis, a mídia estatal iraniana tem adotado uma postura de minimização. Relatos e vídeos divulgados por esses canais focam em manifestações pró-governo e em comícios de apoio às forças de segurança, buscando contrapor a narrativa de descontentamento generalizado. Essa estratégia de comunicação visa criar uma imagem de apoio popular ao regime e desacreditar as manifestações antigovernamentais, apresentando-as como ações de uma minoria radical.
A porta-voz do governo, Fatemah Mohajerani, procurou equilibrar o discurso, afirmando que os estudantes “têm o direito de protestar”. No entanto, ela imediatamente impôs limites claros, declarando que “os valores sagrados e a bandeira são linhas vermelhas que não devem ser cruzadas”. Essa declaração reforça a posição oficial de que certos atos de protesto ultrapassam os limites aceitáveis e podem ser sujeitos a punição, mesmo que o direito de manifestação seja formalmente reconhecido.
Contexto Histórico: A Repressão e a Persistência do Movimento de Protesto
Os protestos atuais em universidades e escolas não ocorrem em um vácuo. Eles sucedem um período de intensas manifestações antigovernamentais que abalaram o Irã no mês passado. Esses protestos, desencadeados por uma série de fatores, incluindo a crise econômica e o descontentamento com as restrições sociais e políticas, foram brutalmente reprimidos pelas forças de segurança. A violência empregada durante a repressão deixou um rastro de mortos, feridos e detidos, mas não conseguiu extinguir o ímpeto contestador.
O fato de os protestos ressurgirem, agora focados no ambiente estudantil e marcando um período significativo após a repressão, demonstra a resiliência do movimento de oposição. A juventude iraniana, em particular, parece determinada a continuar a luta por mudanças, utilizando novas estratégias e focos para manter a pressão sobre o regime. O ambiente universitário, historicamente um centro de ativismo e pensamento crítico, torna-se novamente um ponto nevrálgico para a contestação política no país.
O Papel dos Símbolos Nacionais e a Divisão da Sociedade
A queima de bandeiras e os cânticos contra o Líder Supremo são atos carregados de simbolismo. A bandeira da República Islâmica representa o regime estabelecido após a Revolução de 1979, e seu desprezo é uma afronta direta à legitimidade desse sistema. Da mesma forma, os ataques verbais ao aiatolá Ali Khamenei visam minar a autoridade da figura que personifica o poder religioso e político no Irã. Esses gestos, embora possam ser vistos por alguns como provocativos, são para os manifestantes uma forma de expressar a profundidade de sua rejeição ao status quo.
A resposta do Ministro da Ciência, Hossein Saraf, que se refere à bandeira como “querida”, evidencia a tentativa do regime de mobilizar o sentimento nacionalista para defender seus símbolos. Ao apelar para a ideia de que “nenhum cidadão iraniano aceita insultos” a esses símbolos, o governo busca criar uma divisão entre os manifestantes, que seriam vistos como desrespeitosos e antinacionais, e a maioria da população, que supostamente prezaria pelos símbolos pátrios. Essa estratégia visa isolar os dissidentes e fortalecer a base de apoio ao regime.
A Tática de Desinformação e a Busca por Legitimidade
A minimização dos protestos pela mídia estatal e a divulgação de comícios pró-governo são táticas comuns empregadas por regimes autoritários para controlar a narrativa pública. Ao apresentar uma imagem distorcida da realidade, o governo iraniano tenta projetar uma sensação de normalidade e de apoio popular, desestimulando futuras mobilizações e dissuadindo a comunidade internacional de intervir ou apoiar os manifestantes. Essa estratégia de desinformação é crucial para a manutenção do poder.
A divulgação de vídeos mostrando comícios em apoio ao regime, em meio a relatos de confrontos, serve a dois propósitos: por um lado, cria uma imagem de unidade e lealdade ao governo; por outro, sugere que os confrontos são obra de grupos minoritários e violentos, e não de um movimento popular mais amplo. Essa dicotomia é fundamental para a propaganda estatal, que busca retratar o regime como o guardião da ordem e da estabilidade contra elementos desestabilizadores.
O Direito de Protesto vs. “Linhas Vermelhas” do Regime
A declaração da porta-voz do governo, Fatemah Mohajerani, que reconhece o “direito de protestar” dos estudantes, contrasta fortemente com a imposição de “linhas vermelhas” intransponíveis. Essa ambiguidade calculada permite ao regime manter uma fachada de liberalidade, ao mesmo tempo em que reserva o direito de reprimir qualquer manifestação que considere uma ameaça. A definição de “valores sagrados” e a “bandeira” como limites a serem respeitados serve como um aviso claro sobre as consequências de ultrapassar esses limites.
Essa postura reflete a complexa dinâmica de poder no Irã, onde o governo busca equilibrar a necessidade de aparentar alguma abertura com a determinação em manter o controle absoluto. O reconhecimento do direito de protesto, mesmo que condicionado, pode ser uma tentativa de apaziguar setores mais moderados da sociedade ou de cumprir com certas expectativas internacionais. No entanto, a imposição de “linhas vermelhas” demonstra que a liberdade de expressão e de manifestação no país é severamente restrita.
Perspectivas Futuras: A Luta Contínua dos Estudantes Iranianos
O cenário atual no Irã indica que a luta dos estudantes e da juventude por mudanças está longe de terminar. Os protestos em universidades e escolas, mesmo diante da ameaça de repressão e da propaganda governamental, demonstram uma determinação notável. A capacidade desses movimentos de persistir e de encontrar novas formas de expressão é um indicativo da profundidade do descontentamento social e da busca por um futuro diferente.
Os próximos passos dependerão de diversos fatores, incluindo a resposta contínua das forças de segurança, a capacidade dos manifestantes de manterem a coesão e a organização, e o impacto das pressões internas e externas sobre o regime. A situação em universidades e escolas continuará a ser um termômetro importante do clima político e social no Irã, e a forma como o governo lidará com esses protestos definirá, em grande medida, o futuro do país.