A Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, tornou-se o epicentro de uma nova disputa geopolítica, com a Europa e os Estados Unidos em lados opostos. Países europeus estão enviando contingentes militares e missões de reconhecimento à ilha ártica, um movimento claro em resposta ao reiterado interesse do ex-presidente americano Donald Trump em “conquistar” o território.
Essa mobilização europeia, que inclui França, Alemanha, Suécia, Noruega, Holanda e Reino Unido, sinaliza um apoio robusto à soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia. A iniciativa ocorre em um momento de crescente tensão, após um encontro em Washington entre autoridades americanas, dinamarquesas e groenlandesas.
O presidente Trump, de volta à Casa Branca em 2025, tem insistido que a posse da ilha é vital para a segurança nacional dos EUA, uma posição que tem gerado profunda discordância com seus aliados europeus, conforme informações divulgadas pelas fontes.
Europa Reforça Presença na Groenlândia e Envia Recado a Washington
A França foi um dos primeiros países a agir, com um contingente militar de 15 soldados chegando à capital da Groenlândia, Nuuk, em 15 de janeiro. O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que essa força será rapidamente reforçada com recursos terrestres, aéreos e marítimos, demonstrando a seriedade do compromisso europeu.
O diplomata francês Olivier Poivre d’Arvor destacou a importância simbólica da missão, afirmando: “Este é um primeiro exercício… mostraremos aos EUA que a OTAN está presente”. Essa declaração ressalta a intenção de solidificar a presença europeia e a unidade da aliança transatlântica em face das ambições americanas sobre a ilha.
Outros países como Alemanha, Suécia, Noruega, Holanda e Reino Unido também anunciaram o envio de equipes de reconhecimento. A Dinamarca, por sua vez, afirmou que a ampliação de sua presença militar na Groenlândia ocorrerá “em estreita cooperação com aliados”, reconhecendo que “as tensões geopolíticas se estenderam ao Ártico”.
“Discordância Fundamental”: O Impasse nas Negociações entre EUA e Dinamarca
A tensão em torno da Groenlândia foi palpável durante o encontro de 14 de janeiro em Washington, onde o vice-presidente americano, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, se reuniram com os ministros das Relações Exteriores da Dinamarca e da Groenlândia.
Após a reunião, o ministro dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, expressou haver uma “discordância fundamental” com os Estados Unidos. Ele classificou a insistência de Trump em “conquistar” a ilha como “totalmente inaceitável”, reforçando: “Nós deixamos muito, muito claro que isso não é do interesse [da Dinamarca]”.
A ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, embora aberta a ampliar a cooperação com os EUA, rejeitou veementemente a ideia de anexação. “Nós mostramos onde estão os nossos limites”, afirmou Motzfeldt, deixando claro que a soberania do território não está em discussão.
Apesar do impasse, as partes concordaram em criar um grupo de trabalho de alto nível para discutir o futuro do território. Rasmussen mencionou a existência de “linhas vermelhas” que os EUA não podem ultrapassar, mas também indicou que a Dinamarca e a Groenlândia estão abertas à possibilidade de os EUA abrirem mais bases militares na ilha, reconhecendo a necessidade de reforçar a segurança na região.
A Estratégia da Groenlândia: Segurança Nacional e o ‘Golden Dome’ de Trump
A Groenlândia, apesar de sua população escassa, possui uma localização estratégica crucial entre a América do Norte e o Ártico. Essa posição a torna ideal para sistemas de alerta antecipado contra ataques de mísseis e para o monitoramento de embarcações, um ponto que Trump tem explorado para justificar seu interesse.
O presidente americano tem afirmado repetidamente que a aquisição da ilha é vital para a segurança nacional dos EUA, especialmente para o seu sistema de defesa antimísseis, batizado de “Golden Dome”. “Isso é vital para o Golden Dome que estamos construindo”, escreveu Trump em uma rede social, sugerindo que “A Otan deveria liderar esse esforço para nós”.
Os EUA já mantêm uma presença militar significativa na base de Pituffik, no noroeste da Groenlândia, operada desde a Segunda Guerra Mundial. Pelos acordos existentes com a Dinamarca, os EUA têm o poder de enviar quantas tropas desejarem à ilha, o que adiciona uma camada de complexidade à situação atual.
Rasmussen reconheceu um “elemento de verdade” na visão de Trump sobre a necessidade de conter interesses russos e chineses no Ártico. No entanto, ele contestou as declarações do presidente americano sobre a presença de navios de guerra russos e chineses ao redor da Groenlândia, afirmando que elas “não são verdadeiras”.
Repercussão e Opinião Pública: Rejeição à Anexação nos EUA e na Groenlândia
A proposta de Trump de adquirir a Groenlândia enfrenta forte oposição não apenas na Dinamarca e na própria ilha, mas também entre a população americana. Pesquisas de opinião indicam que a maioria dos moradores da Groenlândia se opõe a ficar sob controle dos EUA, com apenas 6% favoráveis e 85% contrários em uma pesquisa de janeiro de 2025.
Nos Estados Unidos, uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 14 de janeiro revelou que apenas 17% dos americanos apoiam a tomada da ilha pelos EUA, contra 47% que se opõem à iniciativa de Trump. Essa rejeição generalizada sublinha a controvérsia em torno da proposta.
Apesar da formação do grupo de trabalho, a incerteza persiste sobre os próximos passos. Trump não descartou a possibilidade de recorrer ao uso da força militar para tomar a ilha, uma postura que tem gerado preocupação entre aliados e intensificado as tensões com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN.