A recente captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por forças americanas em Caracas, desencadeou um novo capítulo na crise venezuelana. Sob intensa pressão dos Estados Unidos, o regime chavista, agora sob o comando interino de Delcy Rodríguez, iniciou a libertação de parte dos presos políticos detidos durante a gestão de Maduro.

Embora o regime afirme ter libertado mais de 400 pessoas, organizações de direitos humanos contestam veementemente esses números. A ONG Justicia, Encuentro y Perdón (JEP) confirmou apenas 257 libertações, enquanto o Foro Penal, que acompanha casos de detenções arbitrárias, aponta que o número de presos políticos no país ainda ultrapassa mil.

Os relatos dos que conseguiram deixar as terríveis prisões venezuelanas são perturbadores. Eles descrevem um padrão recorrente de tortura física, violência psicológica, isolamento absoluto, uso forçado de medicamentos e ameaças constantes de morte por parte de agentes chavistas, conforme informações divulgadas pelas fontes.

Relatos de Horror: A Experiência dos Sobreviventes da Tortura Chávista

O colombiano David, um dos presos políticos libertados, passou cerca de 13 meses detido após ser capturado na fronteira. Trabalhando como mototaxista, ele foi preso sem explicações formais, acusado de associação criminosa e impedido de contatar advogado ou familiares. David relatou ao canal chileno Meganoticias que foi algemado, encapuzado e espancado antes de ser transferido para Caracas.

Em diferentes centros de detenção, David foi submetido a sessões de choques elétricos, queimaduras com água quente misturada com cal e tortura contínua por privação de sono. Ele descreveu que os guardas chavistas jogavam spray de pimenta na cela, batiam portas e apontavam lanternas para impedir qualquer descanso. Além disso, recebia comprimidos sem saber o que eram e permaneceu todo o período sem contato com a família, que o considerava desaparecido.

Sua libertação veio sem explicações, sendo obrigado a assinar um documento negando maus-tratos. “Comecei a chorar, mas de alegria, porque sabia que minha irmã estava lutando por mim”, disse David. Sua irmã, Nubia, alertou que ainda há ao menos nove colombianos injustamente presos nas prisões venezuelanas.

O Inferno das Prisões Venezuelanas: Isolamento, Condições Desumanas e Ameaças Constantes

Cidadãos europeus também libertados nos últimos dias corroboram os relatos de David. O empresário italiano Mario Burlò, de 52 anos, preso no fim de 2024 sob acusação de “terrorismo e conspiração” sem provas formais, passou quase um ano incomunicável. Sua família na Itália chegou a acreditar que ele estivesse morto, conforme relatou ao jornal El País.

Burlò descreveu o presídio Rodeo I, o mesmo onde David foi mantido, como um local de condições degradantes. Ele era forçado a dormir no chão, entre baratas, em celas pequenas e escuras. A comida era escassa, entregue por uma abertura na porta, sem contato humano. O acesso ao pátio era limitado a uma hora por dia, cinco vezes por semana, e visitas familiares eram proibidas.

“Até os cães têm necessidades diárias. Nós éramos tratados pior que cães”, afirmou Burlò, ressaltando o tratamento desumano. Embora não tenha sofrido tortura física direta, ele considerou o isolamento prolongado e a ausência de contato com os filhos como tortura psicológica. Guardas mascarados, usando apelidos como “Hitler”, promoviam intimidação constante, levando Burlò a temer pela própria vida.

Outro italiano libertado, Alberto Trentini, voluntário humanitário preso em novembro de 2024, divulgou um comunicado através de sua advogada. O texto afirma que os 423 dias de prisão na Venezuela deixaram marcas “indelével” e que sua felicidade ao ser libertado “teve um preço muito alto”. Trentini expressou solidariedade aos presos que ainda permanecem detidos.

Na Argentina, o jornal Clarín publicou o depoimento da família do argentino-israelense Yaacob Eliahu Harary, de 72 anos, que descreveu sua libertação após 490 dias como “sair do inferno”. Harary foi vítima de maus-tratos, humilhações constantes e uso recorrente de medicamentos psiquiátricos, sem indicação médica, usados como sedativos. Ele também esteve no presídio Rodeo I, onde testemunhou tentativas de suicídio.

O regime chavista nunca o informou sobre a morte de sua companheira, ocorrida durante seu período de prisão, e ele permaneceu cerca de 15 meses incomunicável. Ao ser libertado, Harary teve um encontro direto com Diosdado Cabello, o número 2 do chavismo, que acompanhou pessoalmente sua saída.

O Sistema de Repressão Permanece: O Alerta de Oposição e Organizações de Direitos Humanos

Apesar das libertações anunciadas e da queda de Maduro, líderes opositores e organizações independentes alertam que o sistema de repressão chavista permanece intacto na Venezuela. A ausência de transparência, a continuidade das detenções arbitrárias e os consistentes relatos de tortura indicam que as libertações atuais não representam uma mudança estrutural no país, mas sim uma manobra política.

A Versão Oficial: O Regime Chavista Nega Presos Políticos e Fala em “Novo Momento Político”

Do lado do regime, Diosdado Cabello afirmou em seu programa na emissora estatal Venezolana de Televisión (VTV) que as libertações foram decisões “unilaterais” da ditadura. Ele negou, novamente, a existência de presos políticos na Venezuela, classificando as libertações como uma revisão de casos ordenada por Maduro antes de sua captura.

“Não é uma concessão graciosa”, disse Cabello, reiterando a postura do regime. Já Delcy Rodríguez, a ditadora interina, declarou a jornalistas que a Venezuela vive um “novo momento político” e que o processo de libertações busca “promover o entendimento político”, em contraste flagrante com as experiências de terror dos ex-detentos.

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