Filho de Khamenei assume o poder no Irã e sinaliza continuidade, sem reformas estruturais
A ascensão de Mojtaba Khamenei como potencial sucessor de seu pai, Ali Khamenei, à liderança suprema do Irã, aponta para um cenário de estabilidade e continuidade para o regime islâmico. Essa é a análise de Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Economia da FAAP e Relações Internacionais da FGV, em entrevista à CNN Brasil. A escolha de um membro da família Khamenei para a posição de liderança máxima indica uma mensagem clara aos setores conservadores do país, priorizando a manutenção do status quo em detrimento de mudanças profundas que poderiam ser almejadas por potências como os Estados Unidos.
A expectativa, segundo o especialista, é de que a política externa iraniana, marcada pela oposição a Washington e Tel Aviv, permaneça inalterada. Embora possa haver alguma flexibilização em questões internas, como a resposta a protestos populares por motivos econômicos ou sociais, os pilares da atuação internacional do Irã devem seguir imutáveis. A confirmação de Mojtaba Khamenei não atende às expectativas de mudança que o ex-presidente americano Donald Trump, por exemplo, manifestou em relação ao Irã.
A análise de Vieira, divulgada pela CNN Brasil, sugere que o principal desafio do novo líder será a coesão interna do regime, especialmente em um contexto de tensões regionais. A manutenção da unidade dentro do Irã e, posteriormente, a busca por encerrar conflitos em andamento, despontam como prioridades. A República Islâmica, apesar de sua aparente fragilidade diante de pressões externas, possui mecanismos de defesa robustos, como a Guarda Revolucionária e o uso estratégico de drones, que representam um custo operacional relativamente baixo.
A sucessão de Khamenei: um sinal de estabilidade conservadora
A indicação de Mojtaba Khamenei como o provável próximo líder supremo do Irã é interpretada por especialistas como uma estratégia deliberada para reforçar a base conservadora do regime. Ao escolher um sucessor familiar, Ali Khamenei envia uma mensagem inequívoca de que a estabilidade e a preservação do sistema político atual são as prioridades máximas. Essa decisão contrasta fortemente com as aspirações de mudança que alguns setores, incluindo os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, manifestaram anteriormente.
Vinícius Rodrigues Vieira, professor da FAAP e FGV, explica que a escolha de Mojtaba visa, antes de tudo, garantir a continuidade. “A sinalização, com a escolha do filho do Khamenei, é justamente de continuidade, ou seja, não aquilo que Trump pretende”, afirmou Vieira. Essa continuidade se traduz na manutenção dos princípios fundamentais que norteiam a política interna e externa do Irã, mesmo diante de pressões internas e externas por reformas. A sucessão, portanto, não deve ser vista como um prenúncio de liberalização, mas sim como um selo de aprovação para a manutenção do status quo.
Política externa inegociável: EUA e Israel como inimigos
Um dos pontos centrais da análise de Vinícius Rodrigues Vieira é a inegociabilidade da política externa iraniana. Segundo o especialista, os princípios que definem a relação do Irã com o cenário internacional, especialmente no que tange aos Estados Unidos e Israel, permanecerão inalterados. A visão de Washington como um adversário e de Tel Aviv como um inimigo é um pilar ideológico e estratégico que não se espera que seja abalado pela ascensão de Mojtaba Khamenei.
“Os princípios que dizem respeito à política externa, ou seja, ver os Estados Unidos ali como um inimigo e Israel, vão permanecer inegociáveis”, ressaltou Vieira. Essa postura é fundamental para a identidade da República Islâmica e para a sua projeção de poder na região. Qualquer tentativa de alterar essa dinâmica, seja por pressão externa ou por demandas internas, encontraria forte resistência dentro do establishment político e religioso iraniano. A continuidade, neste aspecto, significa a manutenção de uma linha dura e confrontacional com adversários regionais e globais.
Desafios internos: economia e costumes sob pressão
Apesar da ênfase na continuidade da política externa, o professor Vinícius Rodrigues Vieira não descarta a possibilidade de ajustes na condução política interna. A pressão popular, impulsionada por dificuldades econômicas e por questões relacionadas a costumes, pode forçar o novo líder a buscar medidas para acalmar o descontentamento social. No entanto, esses ajustes seriam, em sua visão, mais pragmáticos do que ideológicos, visando a manutenção da estabilidade social sem comprometer os princípios fundamentais do regime.
A economia iraniana tem enfrentado desafios significativos, agravados por sanções internacionais e pela gestão interna. Protestos populares, como os que ocorreram em anos recentes, evidenciaram a insatisfação de parcelas da população com a falta de oportunidades e com as restrições sociais impostas. Mojtaba Khamenei, ao assumir a liderança, terá a tarefa de equilibrar a necessidade de manter a ortodoxia ideológica com a urgência de responder às demandas econômicas e sociais, buscando aplacar a insatisfação popular e evitar a desestabilização do regime.
Manutenção da coesão do regime como prioridade máxima
A principal tarefa de Mojtaba Khamenei, caso se consolide como o novo líder supremo, será manter a coesão interna do regime. Em um contexto de conflitos regionais e de pressões externas, a unidade das diferentes facções políticas e militares dentro do Irã é vista como crucial para a sobrevivência do sistema. A capacidade de gerenciar tensões internas e apresentar uma frente unida diante de adversários externos será determinante para o sucesso de sua liderança.
“Acho que a prioridade é manter o regime coeso e, posteriormente, sim, havendo a passagem da guerra eventualmente, encerrar esse conflito o mais rapidamente possível”, analisou Vieira. Essa prioridade reflete a compreensão de que a estabilidade interna é um pré-requisito para qualquer atuação externa eficaz e para a própria sustentabilidade do poder. A gestão de crises, a pacificação de conflitos regionais e a defesa dos interesses nacionais serão os pilares de sua agenda, sempre com o objetivo primordial de fortalecer a posição do Irã no tabuleiro geopolítico global.
Resistência do regime: a força da Guarda Revolucionária e dos drones
A República Islâmica do Irã possui mecanismos de resistência bem estabelecidos que lhe permitem enfrentar pressões e ataques externos. Vinícius Rodrigues Vieira destaca a importância da Guarda Revolucionária, uma força militar com forte influência política e econômica no país, e o uso estratégico de drones, que representam uma capacidade de projeção de poder a um custo operacional relativamente baixo.
Esses elementos conferem ao Irã uma capacidade de dissuasão e de resposta que dificulta tentativas de desestabilização por parte de potências estrangeiras. A Guarda Revolucionária não apenas garante a segurança interna, mas também atua em missões externas, apoiando aliados regionais e projetando a influência iraniana. Os drones, por sua vez, oferecem uma ferramenta versátil para vigilância, ataque e até mesmo para a dissuasão, permitindo ao Irã demonstrar força sem incorrer em custos proibitivos.
Diversidade étnica e o risco de separatismo fomentado por potências externas
O Irã é um país com diversidade étnica significativa, o que pode ser explorado por potências estrangeiras com o objetivo de desestabilizar o regime. A presença de grupos como os curdos, que buscam a formação de um Estado-nação próprio e estão presentes em outros países da região, como Turquia, Iraque e Síria, representa um potencial ponto de vulnerabilidade para a unidade territorial iraniana.
“O Irã não é único em termos étnicos. Temos, por exemplo, os curdos, que até hoje, também presentes na Turquia, no Iraque, com parte na Síria, querem formar o seu próprio Estado-nação”, explicou Vieira. A exploração dessas tensões étnicas por parte de adversários do Irã poderia levar a conflitos internos e minar a autoridade central. A gestão dessa diversidade, garantindo a representação e os direitos das minorias étnicas, é um desafio constante para o governo iraniano.
O fantasma da guerra civil e a instabilidade prolongada no Oriente Médio
Mesmo em um cenário de eventual queda da República Islâmica, o professor Vinícius Rodrigues Vieira alerta que a região do Oriente Médio continuaria em estado de instabilidade prolongada. A possibilidade de uma guerra civil, decorrente da fragmentação do poder e da disputa por controle após o colapso do regime atual, é um risco real que poderia manter a região em ebulição por muitos anos.
“Ainda que a República Islâmica caia, é importante dizer que o Oriente Médio, aquela região, ainda vai permanecer instável por muito tempo”, concluiu. A complexa teia de interesses regionais, as rivalidades étnicas e religiosas, e a presença de múltiplos atores com agendas distintas tornam qualquer transição de poder no Irã um evento com potencial para gerar ondas de instabilidade em toda a região. A queda de um regime não significaria, portanto, o fim dos conflitos, mas sim uma potencial reconfiguração, com novos focos de tensão e disputas.