Flávio Bolsonaro intensifica sua campanha à Presidência, demonstrando uma postura mais assertiva pouco mais de um mês após anunciar sua pré-candidatura. O senador do PL-RJ busca consolidar seu nome e encerrar especulações sobre alternativas no campo da direita e centro-direita.
Amparado por pesquisas que indicam crescimento em intenções de voto, ele reafirma a irreversibilidade de sua participação no pleito de outubro, agindo, segundo ele, por delegação expressa de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A estratégia agora é clara: buscar a unidade com todos os atores desses espectros políticos, enquanto desarticula ruídos internos e garante apoios importantes, conforme informações apuradas por veículos de imprensa.
A reviravolta nas pesquisas e a reafirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro
A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ganhou novo fôlego após a divulgação da pesquisa Quaest nesta quarta-feira, 14. O levantamento revelou um avanço de seis pontos percentuais nas intenções de voto do senador após um mês de campanha.
No cenário sem Tarcísio, Flávio Bolsonaro subiu de 26% para 32%, diminuindo a diferença para o presidente Lula, que se manteve em 39%. Para analistas, esse resultado aponta uma competição direta no primeiro turno e um possível teto para o desempenho do atual presidente.
Outra pesquisa, do Instituto Paraná, divulgada em 26 de dezembro de 2025, já indicava um empate técnico no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Lula aparecia com 44,1% das intenções de voto, enquanto Flávio registrava 41%, dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
Diante desses números, Flávio Bolsonaro reafirmou categoricamente sua permanência na disputa presidencial. Ele classificou a decisão como irreversível, descartando qualquer cenário de substituição e afirmando que não há “outra possibilidade de candidatura” em discussão.
Desarmando ruídos internos e a lealdade de Tarcísio de Freitas
O senador também se dedicou a dissipar rumores de fissuras internas no campo político. Ele negou qualquer desentendimento com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ambos mencionados como potenciais alternativas.
Segundo Flávio Bolsonaro, o movimento atual é de convergência em torno de seu nome, respeitando, contudo, o “tempo de cada um” para formalizar o apoio. Especulações surgiram após Michelle curtir uma postagem de Tarcísio que mencionava a necessidade de um “novo CEO” para o Brasil.
Tarcísio, por sua vez, esclareceu que a postagem era apenas “um desabafo” contra o PT e o presidente Lula. Ele reiterou seu apoio a Flávio Bolsonaro e enfatizou que seu projeto político permanece focado na reeleição em São Paulo.
Flávio Bolsonaro pediu cautela em relação a Tarcísio, afirmando: “Ele já declarou que vai me apoiar, então, não vamos pressioná-lo. Confio na lealdade dele”. O senador destacou a importância da aliança, ressaltando que “o palanque de São Paulo, com um governador bem avaliado e com entregas, como Tarcísio, é o sonho de qualquer candidato”.
Em uma demonstração mais enfática de apoio, Tarcísio de Freitas declarou na quinta-feira, 15: “Pra mim o Flávio é um grande nome. Já falei que ele é o meu candidato”. O governador reforçou que “a direita vai estar unida em torno de um nome. E o meu nome é o Flávio”.
O jogo político da centro-direita e as novas negociações
O anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, em 4 de dezembro de 2025, surpreendeu líderes da centro-direita e da direita. Muitos trabalhavam para que Tarcísio de Freitas fosse o nome de consenso para a Presidência, aguardando um gesto do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Apesar da prisão de Jair Bolsonaro em 6 de dezembro, que inicialmente poderia diminuir sua influência, o efeito foi o oposto. A indicação de Flávio Bolsonaro não apenas manteve o ex-presidente no jogo eleitoral, mas também preservou o protagonismo da direita.
A leitura predominante nos bastidores é que a direita e a centro-direita devem firmar um “acordo de cavalheiros”. Mesmo com múltiplos nomes disputando no primeiro turno, o objetivo comum é criticar o presidente Lula e unir forças no segundo turno contra o PT.
Flávio Bolsonaro iniciou uma ofensiva para reduzir resistências, buscando dirigentes da centro-direita com um perfil conciliador. Ele se mostrou aberto ao diálogo, visando construir uma candidatura agregadora, apesar da rejeição inicial apontada por algumas pesquisas eleitorais.
Cenário de alianças e o pragmatismo eleitoral
A influência de Jair Bolsonaro tem sido um fator central nas negociações com o centro. Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, avançou nos últimos dias com a possível pré-candidatura do governador do Paraná, Ratinho Jr., à Presidência, encomendando pesquisas para aferir sua competitividade.
O PSD avaliou que, diante da aposta da direita em Flávio Bolsonaro, a legenda precisava se posicionar com protagonismo próprio. Ratinho Jr. sinalizou prontidão para “aceitar o desafio”, construindo um discurso que critica a polarização entre Lula e Bolsonaro.
Para o cientista político Ismael Almeida, a escolha de Bolsonaro colocou a centro-direita em desvantagem em relação à direita. Ele observa que o capital político de Bolsonaro se tornou o eixo das negociações, antes dominadas pela escolha prévia de Tarcísio pelos partidos do centro.
Líderes como Ciro Nogueira (PP-PI), após um desconforto inicial por não ter sido consultado sobre a escolha de Flávio Bolsonaro, agora atuam para reorganizar o bloco. Nogueira chegou a sugerir o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), como vice na chapa de Flávio, destacando a força combinada nos maiores colégios eleitorais do país.
No entanto, Zema descartou a hipótese, e Flávio Bolsonaro afirmou nunca ter feito o convite. Nogueira defende que o senador fale aos eleitores de centro para atrair os indecisos que buscam fugir da polarização, e criticou a fala de Flávio sobre a possível nomeação de Eduardo Bolsonaro como ministro das Relações Exteriores.
Elton Gomes, professor de Ciências Políticas da UFPI, aponta que a centro-direita explora de forma pragmática a tendência de deslocamento do eleitorado para a direita. Ele vê um caráter instrumental na candidatura de Flávio Bolsonaro, sustentada pelo antipetismo e pela capacidade de Bolsonaro transferir votos, “talvez até mais do que Lula em 2018”, mesmo estando preso.
Leandro Gabiati, diretor da consultoria política Dominium, avalia que o cenário permanecerá aberto até 4 de abril, prazo para a desincompatibilização de autoridades que disputarão cargos eletivos. Ele ressalta que “a política não comporta certezas absolutas”, e o avanço do calendário eleitoral será crucial para definir as chances dos candidatos.