A recente captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos, lançou a Venezuela em um período de intensa incerteza. Neste cenário delicado, as Forças Armadas da Venezuela emergem como o ator principal, com o poder de determinar os próximos passos da nação.

Rapidamente, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, confirmou que os militares reconheceram Delcy Rodríguez, então vice de Maduro, como a nova chefe do Executivo interino. Essa declaração solidificou o alinhamento institucional do Exército venezuelano ao núcleo do chavismo remanescente, mesmo após a saída do antigo ditador.

A decisão militar é um divisor de águas, mostrando que a queda de um líder não significa, automaticamente, o fim de um regime. A lealdade das Forças Armadas é agora o ponto central da disputa pelo poder, como detalhado em informações divulgadas pela Gazeta do Povo e outros veículos.

O Papel Central das Forças Armadas na Crise Venezuelana

Horas após a operação americana, o posicionamento das Forças Armadas foi claro. Sob a bênção militar, Delcy Rodríguez foi oficialmente empossada como ditadora interina da Venezuela nesta segunda-feira, dia 5. Este movimento reflete a contínua influência do chavismo dentro das instituições militares.

A oposição venezuelana, por sua vez, tentou nos últimos dias pressionar os militares para que apoiassem uma transição democrática. O líder opositor Edmundo González Urrutia divulgou um vídeo nas redes sociais, reivindicando sua legitimidade como presidente eleito e pedindo o reconhecimento de seu mandato, concedido nas eleições de 28 de julho de 2024, que foram fraudadas por Maduro.

Na mensagem, González Urrutia enfatizou que a lealdade das Forças Armadas venezuelanas deve ser “com a Constituição, com o povo e com a República”, e não com o chavismo. Apesar do apelo contundente, os militares não demonstraram publicamente qualquer sinal de adesão à reivindicação da oposição.

A Lealdade Militar e a Sustentação do Regime

Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec, afirmou à Gazeta do Povo que “as Forças Armadas sempre foram o verdadeiro eixo de sustentação do regime” chavista. Segundo ele, com a queda de Maduro, a questão central passou a ser a redefinição dessa lealdade.

O professor ressaltou que a captura de Maduro pelos EUA “não significa, automaticamente, o colapso do chavismo”. Ele explicou, “Em mais de vinte anos analisando regimes sob estresse, aprendi que remover o líder é apenas o primeiro ato, não o desfecho. Regimes autoritários longevos tendem a sobreviver à queda de uma figura central porque o poder real costuma estar distribuído em redes, e não concentrado em um único nome”.

Essa perspectiva sugere que o chavismo possui uma estrutura de poder mais complexa e difusa do que a simples figura de Maduro. A lealdade das Forças Armadas a essa estrutura é fundamental para sua persistência.

Pragmatismo Militar e Cenários de Transição

De acordo com Galvão, o comportamento das Forças Armadas em cenários de ruptura, como o da Venezuela, é guiado por um cálculo pragmático. Ele afirmou que “Militares negociam quando percebem que o custo de sustentar o status quo supera o custo de uma transição controlada”.

Esse cálculo, segundo o professor, envolve uma série de fatores cruciais para os militares, como “garantias, preservação de posições, proteção patrimonial e segurança pessoal”. Estes elementos são decisivos para qualquer mudança de posicionamento das Forças Armadas.

Para Galvão, se houver sinais claros, por parte da oposição, de redução de riscos, os militares venezuelanos poderiam até considerar apoiar uma transição democrática pactuada. Contudo, ele alertou que “se o ambiente” apoiado pelos opositores “for de punição indiscriminada e incerteza, a tendência é o fechamento e a resistência”, ou seja, a manutenção do apoio militar ao atual arranjo de poder chavista.

Alinhamento ao Poder e o Futuro Incerto

Em uma análise à emissora DW, o cientista político Víctor Mijares afirmou que a tendência é que as Forças Armadas venezuelanas se “alinhem ao polo de poder que apresente maior capacidade de se manter”. Isso significa que o grupo que demonstrar maior controle institucional, capacidade de governar e chances reais de se sustentar no poder será o preferido pelos militares.

Neste momento, o grupo político que demonstra mais força internamente é o próprio chavismo remanescente. O ex-oficial venezuelano Williams Cancino, em entrevista à AFP, reforçou essa visão, dizendo que a atual cúpula militar da Venezuela “é totalmente leal ao regime” chavista.

Essas análises indicam que, apesar da queda de Maduro, o chavismo pode estar longe de perder o controle efetivo da Venezuela. A postura das Forças Armadas continua sendo o pilar central que sustenta o regime e definirá o verdadeiro rumo da nação.

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