Foz do Iguaçu Celebra Redução Drástica da Dengue, mas Vigilância Permanece Crucial
O município de Foz do Iguaçu, localizado no oeste do Paraná e strategicamente posicionado na tríplice fronteira com Paraguai e Argentina, encerrou o ano de 2025 com um marco histórico na luta contra a dengue. A cidade registrou uma redução expressiva de mais de 90% nos casos da doença, um feito notável que a deixou praticamente livre do “fantasma” da dengue após enfrentar epidemias severas nos anos anteriores.
Apesar dessa vitória significativa, o início de 2026 acende um sinal de alerta para a saúde pública local. A reemergência de um sorotipo específico do vírus da dengue, o DENV-3, e a baixa procura pela vacinação na população-alvo preocupam as autoridades. Este cenário indica que a vigilância e as ações preventivas precisam ser intensificadas para evitar novos ciclos de surto e proteger a população.
Este resultado de sucesso, porém acompanhado de novos desafios, é fruto de esforços integrados entre o poder público municipal e estadual, em parceria com instituições de renome como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Itaipu Binacional, conforme informações divulgadas por fontes oficiais e especialistas da área da saúde.
Queda Histórica: Um Contraste com o Passado Recente e Desafiador
Foz do Iguaçu, caracterizada por suas altas temperaturas e pela movimentação constante de pessoas devido à sua localização fronteiriça, sempre foi uma região historicamente endêmica para a dengue. A cidade, que convive há anos com a ameaça do Aedes aegypti, o mosquito vetor da doença, viu seus sistemas de saúde sobrecarregados em diversas ocasiões.
No ano de 2025, entretanto, a realidade foi drasticamente diferente. O município registrou apenas 1.031 casos confirmados de dengue, um número que contrasta de forma esmagadora com os anos anteriores. Esta cifra representa uma redução superior a 90% em comparação com 2024, quando os diagnósticos da doença ultrapassaram a marca de 14 mil, já um número alarmante.
O impacto da redução se torna ainda mais evidente ao se comparar com 2023, um ano considerado de surto grave e de proporções críticas para Foz do Iguaçu. Naquele período, a cidade contabilizou mais de 50 mil notificações, resultando em 26 mil casos confirmados de dengue. Além disso, foram registrados dezenas de óbitos e centenas de casos de chikungunya, demonstrando a severidade da crise sanitária enfrentada.
A notável diminuição dos casos em 2025 é amplamente atribuída a uma série de esforços integrados e coordenados. A prefeitura municipal destacou a importância fundamental das ações de eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti, que foram implementadas por meio de mutirões de limpeza contínuos. Essas campanhas mobilizaram não apenas os órgãos de saúde, mas também a comunidade, que se engajou ativamente na vistoria e limpeza de suas residências e quintais.
Os esforços conjuntos visaram quebrar o ciclo de reprodução do mosquito, que depende de locais com água parada para depositar seus ovos e se desenvolver. A conscientização da população sobre a responsabilidade individual na prevenção foi um pilar essencial para o sucesso das campanhas, transformando a luta contra a dengue em uma causa coletiva.
Estratégias Integradas: Mutirões de Limpeza e a Inovadora Tecnologia Wolbachia
A virada no cenário da dengue em Foz do Iguaçu não foi resultado de uma única ação, mas sim da combinação de diversas estratégias, que incluíram desde as medidas básicas de saneamento até a aplicação de ciência de ponta. Além dos mutirões de limpeza, que são fundamentais para a eliminação dos focos do mosquito, a cidade implementou uma inovação tecnológica de grande impacto.
Um dos fatores mais promissores apontados por especialistas e órgãos de saúde foi a utilização do método conhecido como “wolbachia”. Esta é uma abordagem biológica que utiliza mosquitos Aedes aegypti que foram infectados com uma bactéria natural e inofensiva para humanos e animais, chamada Wolbachia. A presença dessa bactéria no organismo do mosquito tem um efeito surpreendente: ela impede que o inseto desenvolva e, consequentemente, transmita vírus como os da dengue, zika e chikungunya para os seres humanos.
Foz do Iguaçu é uma das poucas cidades do Brasil a contar com uma biofábrica dedicada à produção desses mosquitos modificados, carinhosamente apelidados de “wolbitos”. A biofábrica produz milhões desses insetos, que são então liberados de forma controlada e estratégica em bairros específicos da cidade. O objetivo é que esses “wolbitos” se reproduzam com a população de mosquitos selvagens já existente na área.
Ao longo do tempo, a bactéria Wolbachia se espalha gradualmente entre os mosquitos nativos, resultando em uma população majoritária de insetos que são incapazes de transmitir os vírus. Entre os anos de 2024 e 2025, mais de 26 milhões desses mosquitos “do bem” foram soltos em 13 bairros iguaçuenses. Essa iniciativa, em parceria com a Fiocruz e o World Mosquito Program, representa um avanço significativo no controle biológico da dengue, oferecendo uma solução de longo prazo e sustentável.
A sinergia entre as ações de campo, como os mutirões, e as inovações científicas, como o método Wolbachia, demonstra o compromisso de Foz do Iguaçu em adotar uma abordagem abrangente e eficaz para proteger sua população contra as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.
O Perigo dos Sorotipos: Por Que a Dengue Pode Voltar Quatro Vezes Mais Forte
A dengue, embora seja uma única doença, é causada por um vírus que possui uma complexidade particular: existem quatro sorotipos geneticamente distintos, conhecidos como DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Essa característica é fundamental para entender por que a doença representa um desafio contínuo para a saúde pública e por que uma pessoa pode ser infectada mais de uma vez.
Cada um desses sorotipos tem a capacidade de provocar desde infecções leves, com sintomas que podem ser confundidos com outras viroses, até formas graves da doença, que exigem hospitalização e podem levar a complicações sérias e até mesmo ao óbito. O grande problema reside no fato de que a infecção por um determinado sorotipo confere imunidade permanente apenas contra aquele mesmo tipo do vírus.
Isso significa que uma pessoa que já contraiu dengue por, digamos, o sorotipo DENV-1, estará protegida contra uma nova infecção por DENV-1, mas permanece vulnerável aos outros três sorotipos (DENV-2, DENV-3 e DENV-4). Assim, é teoricamente possível contrair dengue até quatro vezes ao longo da vida, uma vez por cada sorotipo diferente.
Mais alarmante ainda é o risco associado a infecções subsequentes. Estudos e a experiência clínica demonstram que infecções por sorotipos distintos, após uma primeira infecção, podem aumentar significativamente o risco de desenvolver formas mais graves da doença. Isso ocorre porque o sistema imunológico, ao tentar combater um novo sorotipo, pode reagir de uma maneira que paradoxalmente agrava o quadro, levando a condições como a dengue hemorrágica ou a síndrome do choque da dengue, que são potencialmente fatais.
A circulação de múltiplos sorotipos em uma mesma região, ou a reintrodução de um sorotipo após um longo período de ausência, torna a população mais suscetível a essas formas graves. Por isso, a vigilância epidemiológica contínua e a compreensão de quais sorotipos estão ativos são cruciais para antecipar e mitigar os riscos.
DENV-3: A Nova Preocupação no Cenário Epidemiológico do Paraná
Neste ano epidemiológico, um dos sorotipos que mais preocupa as autoridades de saúde em Foz do Iguaçu e em todo o estado do Paraná é o DENV-3. Este sorotipo, em particular, é frequentemente associado a quadros clínicos mais severos da doença, o que eleva consideravelmente o nível de alerta para a população e para os sistemas de saúde.
A preocupação com o DENV-3 não é infundada. O sorotipo tem sido detectado em circulação no estado do Paraná, com casos confirmados que servem como um importante sinal de alerta. A última vez que esse sorotipo havia circulado de forma predominante no Brasil foi antes de 2008, o que significa que uma parcela significativa da população brasileira pode não ter tido contato com ele há mais de uma década e meia.
No Paraná, a situação é similar: a última grande circulação do DENV-3 ocorreu especificamente em 2016. A reintrodução ou o aumento da circulação desse sorotipo após um intervalo tão longo é um fator de risco considerável. Isso se deve ao fato de que grande parte da população, especialmente os mais jovens ou aqueles que não foram expostos em 2016, pode não possuir imunidade contra ele, tornando-se mais vulnerável a infecções e, potencialmente, a formas mais graves da doença.
A circulação do DENV-3 exige uma resposta rápida e multifacetada das autoridades de saúde. Isso inclui o reforço das medidas de controle do mosquito vetor, a intensificação da vigilância para a detecção precoce de novos casos e a comunicação transparente com a população. É fundamental informar sobre os riscos específicos associados a este sorotipo e as medidas preventivas que devem ser adotadas para evitar sua disseminação e o agravamento dos casos.
O monitoramento constante dos sorotipos em circulação é uma ferramenta vital para direcionar as estratégias de saúde pública e proteger a comunidade contra as ameaças em constante evolução da dengue.
Início de 2026: Sinais de Alerta no Verão Iguaçuense e Fatores Sazonais
Apesar da notável e histórica redução de casos de dengue em 2025, o início do ano epidemiológico de 2026 já apresenta indicativos de que a luta contra a doença em Foz do Iguaçu está longe de ser vencida. A cidade registrou, até o dia 27 de janeiro, um total de 284 casos de dengue, dos quais 197 são considerados prováveis e aguardam confirmação oficial, conforme os dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde.
Esses números iniciais servem como um lembrete contundente de que a ameaça persiste, especialmente em um período do ano que é historicamente favorável à proliferação do mosquito Aedes aegypti. Os fatores sazonais típicos do verão no Brasil, como as elevadas temperaturas e as chuvas frequentes e volumosas, criam o ambiente ideal para o ciclo de vida do mosquito.
As altas temperaturas aceleram o desenvolvimento das larvas do Aedes aegypti, diminuindo o tempo necessário para que elas se transformem em mosquitos adultos. Simultaneamente, as chuvas intensas e recorrentes deixam uma vasta quantidade de recipientes com água parada, desde pequenos objetos até caixas d’água destampadas, que se tornam locais perfeitos para a fêmea do mosquito depositar seus ovos.
A combinação da circulação de um novo sorotipo preocupante (DENV-3) com essas condições climáticas propícias para o mosquito reforça a urgência de manter e até mesmo intensificar as ações de vigilância epidemiológica, eliminação de criadouros e conscientização da população. Cada foco de água parada, por menor que seja, pode se transformar em um potencial criadouro, colocando em risco a saúde de toda a comunidade iguaçuense.
A participação ativa da população é, portanto, indispensável nesse cenário. A adoção de hábitos simples, como verificar e eliminar focos de água em calhas, caixas d’água, vasos de plantas, pneus e qualquer outro recipiente que possa acumular líquido, é uma medida eficaz e essencial para complementar os esforços das autoridades de saúde. A vigilância deve ser constante, em cada residência e em cada bairro.
Vacinação Aquém: O Desafio da Adesão Comunitária e a Proteção Negligenciada
Em meio aos complexos desafios impostos pela dengue, a vacinação emerge como uma das ferramentas mais promissoras e eficazes para a prevenção da doença. Em Foz do Iguaçu, as vacinas contra a dengue estão disponíveis para a população na faixa etária de 10 a 14 anos, que é considerada prioritária para a imunização em diversas campanhas de saúde pública.
No entanto, a cidade tem enfrentado um obstáculo significativo: a baixa procura por parte dos pais e responsáveis para levar seus filhos para serem vacinados. Essa falta de adesão resultou em uma taxa de imunização aquém do esperado para a população-alvo, o que preocupa profundamente a Secretaria de Saúde local, que vê na vacina uma oportunidade de proteger a comunidade contra os riscos da dengue.
Érica Ferreira de Souza, supervisora técnica da Vigilância Epidemiológica de Foz do Iguaçu, fez um apelo contundente, enfatizando a importância crucial da vacinação. “Anualmente, o município registra uma quantidade considerável de casos, que em algumas situações resultam em óbitos. A vacina é uma estratégia importante para a proteção da comunidade, contribuindo não apenas para a prevenção da infecção, mas também para a redução das complicações associadas à doença”, explicou.
A vacina não apenas ajuda a prevenir a infecção inicial pelo vírus da dengue, mas é igualmente vital para reduzir a gravidade dos sintomas caso a infecção ocorra. Ela diminui significativamente o risco de desenvolver as formas mais severas da doença, que podem exigir hospitalização, internação em unidades de terapia intensiva e, em casos extremos, levar ao óbito. A imunização, portanto, é um investimento na saúde individual e coletiva, protegendo contra as consequências mais devastadoras da dengue.
Apesar dos esforços contínuos das autoridades de saúde para disponibilizar as doses e informar a população sobre os benefícios da vacina, a barreira da baixa procura demonstra a necessidade de campanhas mais incisivas e informativas. É fundamental que a população compreenda plenamente os riscos da dengue e os benefícios comprovados da imunização para aumentar a adesão e garantir uma proteção mais ampla para a comunidade.
O Futuro da Luta Contra a Dengue: Vigilância Constante e Conscientização
O cenário atual de Foz do Iguaçu, marcado por uma expressiva redução de casos de dengue em 2025 e o acendimento de um novo alerta para 2026, reafirma que a luta contra essa doença é um processo contínuo, dinâmico e multifacetado. As conquistas do ano passado demonstram a eficácia de ações coordenadas, do engajamento comunitário e da aplicação de tecnologias inovadoras, como o método Wolbachia.
No entanto, a presença de um sorotipo mais agressivo em circulação, como o DENV-3, e a hesitação da população em buscar a vacinação indicam claramente que não há espaço para complacência. A cidade e seus moradores precisam manter um alto nível de vigilância e engajamento para sustentar os resultados positivos alcançados e, crucialmente, evitar a repetição das epidemias devastadoras que marcaram o passado recente.
O poder público, em parceria com instituições de pesquisa, o setor privado e a própria comunidade, deve continuar investindo em estratégias robustas de controle do mosquito Aedes aegypti. Isso inclui o monitoramento epidemiológico constante, a pesquisa de novas ferramentas de combate e a intensificação das campanhas de educação em saúde. A informação clara, precisa e acessível sobre os riscos da dengue, a importância fundamental da eliminação de criadouros e os benefícios comprovados da vacinação são ferramentas essenciais para empoderar a comunidade e torná-la parte ativa da solução.
A responsabilidade é inegavelmente compartilhada: enquanto as autoridades implementam políticas públicas eficazes e disponibilizam os recursos necessários para o controle da doença, cada cidadão tem o papel fundamental de proteger seu ambiente e sua família. Somente com a união de esforços de todos os setores da sociedade será possível garantir que Foz do Iguaçu continue avançando na erradicação da dengue, transformando o alerta atual em mais um período de controle efetivo e duradouro da doença, assegurando a saúde e o bem-estar de seus habitantes.