A França está no centro de uma investigação delicada e urgente que busca esclarecer a morte de dois bebês, cujas famílias relatam terem consumido fórmulas infantis das marcas Guigoz e Nidal, ambas da Nestlé. Os produtos foram retirados do mercado devido a uma “possível contaminação” por bactérias, gerando grande preocupação.
Os casos estão sendo analisados por tribunais em diferentes cidades francesas, enquanto a gigante suíça da indústria alimentícia já havia iniciado o recolhimento de lotes de suas fórmulas infantis semanas antes. A bactéria em questão, Bacillus cereus, é conhecida por causar problemas digestivos como diarreia e vômitos, que podem evoluir para complicações graves em recém-nascidos.
Este cenário levanta sérias questões sobre a segurança alimentar e a vigilância sanitária de produtos destinados a um público tão vulnerável. As informações foram divulgadas pela agência de notícias AFP, com detalhes dos procuradores envolvidos nas investigações.
A investigação em Bordeaux
Um dos casos sob apuração ocorreu na cidade de Bordeaux. De acordo com o procurador Renaud Gaudeul, o bebê, nascido em 25 de dezembro, consumiu a fórmula da marca Guigoz entre os dias 5 e 7 de janeiro. Infelizmente, no dia 7, após a mãe notar “problemas digestivos”, a criança foi levada às pressas ao hospital e veio a falecer no dia seguinte, 8 de janeiro.
As primeiras análises realizadas no caso de Bordeaux “determinaram a ausência de contaminação pela bactéria”, conforme informou o procurador. Contudo, para garantir a total elucidação dos fatos, testes complementares foram solicitados e estão em andamento. A busca pela verdade é fundamental para entender se há, de fato, uma ligação direta com o consumo da fórmula infantil da Nestlé.
O caso de Angers e a possível conexão
Em Angers, uma nova denúncia surgiu há poucos dias, envolvendo a morte de um bebê de 27 dias, ocorrida em 23 de dezembro. A mãe da criança relatou aos investigadores que sua filha havia ingerido a fórmula da marca Guigoz, a mesma citada no caso de Bordeaux. O promotor de Angers, Eric Brouillard, salientou a seriedade da denúncia.
Brouillard afirmou que “é uma pista séria”, mas fez a ressalva de que “é muito cedo para dizer que é a pista principal”. Um laboratório foi acionado com urgência para analisar o caso, buscando qualquer evidência que possa conectar a morte do bebê ao produto da Nestlé. A cautela é essencial diante da gravidade da situação.
O recolhimento global e a origem da contaminação
A preocupação com a fórmula infantil se estendeu para além das fronteiras francesas. Nas últimas semanas, tanto a Nestlé quanto a Lactalis, líder mundial no setor lácteo, realizaram o recolhimento de lotes de fórmulas infantis em diversos países. A lista inclui nações da América Latina como Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru e Uruguai.
Segundo o Ministério da Agricultura da França, os recolhimentos estão relacionados a “uma matéria-prima fornecida por um mesmo produtor na China”. A associação Foodwatch, por sua vez, indicou que essa matéria-prima seria o ácido araquidônico, uma substância sintética, fonte de ômega-6, cuja regulamentação é rigorosa na Europa e que faz parte da composição de algumas fórmulas infantis. Esse fornecedor chinês seria um dos poucos no mundo a produzir tal componente.
Ação da Foodwatch e a preocupação com a saúde infantil
Diante da extensão dos recolhimentos e da incerteza sobre a segurança dos produtos, a ONG Foodwatch anunciou que apresentará uma denúncia formal. O objetivo é “lançar luz” sobre as retiradas e as circunstâncias envolvidas, cobrando transparência e responsabilidade dos fabricantes e das autoridades.
A Foodwatch destacou a dimensão do problema, afirmando que “milhões de bebês no mundo foram afetados” pelos produtos potencialmente contaminados. A situação sublinha a necessidade de um controle rigoroso na cadeia de produção de alimentos infantis e a urgência em garantir a segurança e a saúde dos mais jovens consumidores globalmente.