A França anunciou que votará contra o acordo comercial que a União Europeia (UE) busca firmar com os países do Mercosul. O posicionamento foi confirmado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, nesta quinta-feira, 8 de fevereiro, em um cenário de crescentes protestos de agricultores que paralisaram Paris e importantes vias de acesso à capital.
Essa decisão reflete a intensa pressão interna, especialmente do setor agrícola, que teme uma inundação do mercado europeu por alimentos mais baratos. Os agricultores, que bloquearam locais simbólicos como o Arco do Triunfo, expressam profunda preocupação com a competição desleal e os padrões de produção.
Apesar de “compromissos importantes” obtidos junto à Comissão Europeia, Macron reiterou seu compromisso em proteger os agricultores franceses. A informação foi divulgada por veículos de imprensa, com base em declarações do presidente e líderes sindicais.
A Posição Firme da França e o Contexto Europeu
Emmanuel Macron utilizou suas redes sociais para afirmar que a França votará contra a assinatura do acordo nesta sexta-feira, 9 de fevereiro. Ele garantiu que continuará a lutar pela plena implementação dos compromissos europeus e pela proteção dos produtores agrícolas do país.
A Irlanda também se manifestou contra o acordo Mercosul-UE, com o vice-primeiro-ministro irlandês, Simon Harris, declarando que o país votará desfavoravelmente. Contudo, a Comissão Europeia parece ter garantido o apoio da Itália, o que pode indicar a aprovação do pacto na votação inicial.
Este tema é politicamente sensível para o governo francês, especialmente com eleições municipais se aproximando em março e o avanço da extrema-direita nas pesquisas, visando as eleições presidenciais de 2027. A ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, enfatizou que, mesmo com um apoio da UE, a França continuará a combater o acordo no Parlamento Europeu, onde a aprovação final é essencial.
Em uma tentativa de apaziguar os países hesitantes, a Comissão Europeia propôs disponibilizar antecipadamente 45 bilhões de euros, o equivalente a 52,42 bilhões de dólares, em fundos da UE para os agricultores. Além disso, concordou em reduzir as taxas de importação de alguns fertilizantes, buscando angariar apoio para o acordo comercial.
A Voz dos Agricultores: Motivos da Mobilização
Os protestos em Paris foram convocados pelo sindicato de direita Coordination Rurale, que liderou a mobilização contra o que consideram uma ameaça à subsistência dos agricultores europeus. Os manifestantes ultrapassaram postos de controle policial, dirigindo pela Champs-Élysées e bloqueando o trânsito ao redor do Arco do Triunfo antes do amanhecer, para então se reunirem em frente à Assembleia Nacional.
Além do acordo Mercosul-UE, os agricultores também protestam contra os altos custos de produção, a regulamentação local excessiva e uma política governamental de abate de rebanhos de vacas, considerada exagerada em resposta a uma doença bovina contagiosa.
Stephane Pelletier, membro sênior do sindicato Coordination Rurale, expressou o sentimento dos manifestantes à Reuters: “Estamos entre o ressentimento e o desespero. Temos um sentimento de abandono, sendo o Mercosul um exemplo disso”. A presidente da Assembleia Nacional, Yael Braun-Pivet, foi vaiada e empurrada ao tentar conversar com os manifestantes.
Impacto e Continuidade dos Protestos
Dezenas de tratores causaram congestionamentos significativos nas rodovias de acesso à capital, incluindo a A13, que conecta Paris aos subúrbios do oeste e à Normandia. O ministro dos Transportes informou que foram registrados 150 km de congestionamento, impactando severamente o tráfego matinal.
Mais tarde, agricultores da FNSEA, o principal sindicato agrícola da França, e sindicatos de jovens agricultores uniram-se aos protestos, concentrando-se pacificamente perto da Torre Eiffel. Arnaud Rousseau, presidente da FNSEA, destacou a preocupação com os padrões de produção:
“Vamos importar produtos do resto do mundo que não atendem aos nossos padrões, isso não é possível, é inaceitável. Por isso, vamos continuar mobilizados, vamos seguir em frente”, afirmou Rousseau a jornalistas, reiterando a oposição ao acordo com o Mercosul.
O Futuro do Acordo e as Reações Políticas
O ministro do Interior, Laurent Núñez, alertou sobre a possibilidade de mais protestos de agricultores em todo o país na sexta-feira. Ele expressou a esperança de que as manifestações mantenham o caráter pacífico observado na quinta-feira, sem incidentes de violência ou danos significativos. Os tratores já haviam começado a deixar Paris após as manifestações.
A decisão da França de votar contra o acordo Mercosul-UE sublinha a complexidade das negociações comerciais e a força da pressão dos setores agrícolas na Europa. O desfecho dessa votação e as próximas etapas no Parlamento Europeu serão cruciais para definir o futuro das relações comerciais entre os blocos.