Clubes europeus enfrentam desafios de negócios enquanto esportes nos EUA disparam em valor
Um boom de negócios no setor esportivo global tem destacado a crescente valorização das franquias americanas, deixando os clubes de futebol europeus em segundo plano. Investidores apontam para a dificuldade em controlar custos e a ameaça constante de rebaixamento como fatores que limitam o interesse no futebol europeu, contrastando com o apetite por esportes nos Estados Unidos.
Negócios recentes nos EUA evidenciam essa disparada. O grupo de private equity Sixth Street e o financista Dean Metropoulos adquiriram uma participação de 8% no New England Patriots (NFL) por mais de US$ 9 bilhões, avaliando o time em mais de 11 vezes sua receita. Pouco depois, Mark Walter comprou a participação majoritária no Los Angeles Lakers (NBA) por US$ 10 bilhões, cerca de 18 vezes a receita.
Esses números refletem uma tendência de alta. Segundo a Sportico, o valor médio de uma equipe da NBA subiu para 14,1 vezes a receita, comparado a 11,8 vezes em 2023. Na NFL, as avaliações médias alcançaram 10,2 vezes a receita, impulsionadas pela permissão para empresas de private equity comprarem participações minoritárias. Seis das dez equipes esportivas mais valiosas do mundo competem na NFL, três na NBA e apenas uma, o Real Madrid, representa o futebol, ocupando a 22ª posição geral.
Conforme informações divulgadas por especialistas do setor, como Doc O’Connor, cofundador da Arctos Partners, o ambiente nos Estados Unidos oferece um crescimento mais previsível e sustentável. Ele ressalta que o cenário no futebol europeu é muito diferente das ligas norte-americanas, o que explica a disparidade nas avaliações.
Avaliações de clubes europeus estagnam, enquanto dívidas aumentam
Em contraste com o dinamismo americano, as avaliações dos principais times de futebol masculino na Europa estagnaram em apenas 4,2 vezes a receita. Dados da UEFA indicam uma queda drástica na atividade de fusões e aquisições no futebol europeu desde 2022, após uma série de negócios recordes. A Apollo Global Management, por exemplo, concordou em comprar uma participação majoritária no Atlético de Madrid por um valor entre € 2 bilhões e € 2,5 bilhões, o que representa cerca de 4,9 vezes sua receita de 2024.
O’Connor aponta que o menor nível de regulamentação nas ligas europeias, incluindo a existência de rebaixamento, a falta de limites efetivos para endividamento e gastos com salários e transferências, contribui significativamente para essa diferença nas avaliações. Essa instabilidade preocupa investidores e donos de times, que defendem a implementação de tetos salariais, nos moldes americanos, para conter os gastos exorbitantes.
Prejuízos operacionais e dívidas crescentes assombram o futebol europeu
As finanças dos clubes europeus mostram um quadro preocupante. De acordo com os dados mais recentes da UEFA, mais da metade dos times da primeira divisão europeia registraram prejuízos operacionais em 2024, somando um total de € 300 milhões. Os custos com transferências elevaram o prejuízo antes dos impostos para € 1,2 bilhão, e a dívida combinada aumentou 10%, atingindo € 28,1 bilhões.
A divergência nos mercados de direitos de mídia é outro fator crucial. As ligas americanas, como a NBA, negociaram contratos de mídia que aumentaram a receita anual de US$ 2,6 bilhões para US$ 6,9 bilhões, graças à forte concorrência entre redes de TV e serviços de streaming. Em contrapartida, os direitos de mídia das principais ligas europeias enfrentam queda ou estagnação. Mesmo a Premier League inglesa, a competição mais bem-sucedida comercialmente, obteve um aumento modesto de 4% em seus direitos de mídia no Reino Unido.
Estrutura das ligas americanas atrai investidores pela previsibilidade e compartilhamento de receita
O formato fechado das competições americanas, onde as equipes compartilham a maior parte das receitas principais, incluindo os contratos de TV, aumenta consideravelmente o atrativo para investidores. John Lambros, chefe de mídia digital e entretenimento da Houlihan Lokey, destaca que a organização, estrutura e oportunidades de compartilhamento de receita das ligas nos EUA são únicas globalmente.
A menor volatilidade e o risco reduzido nos esportes americanos, sem o risco de rebaixamento e com direitos de mídia previsíveis, criam um ambiente de receitas estáveis e confiáveis. Essa previsibilidade contrasta com a resistência dos torcedores europeus ao modelo de liga fechada, como demonstrado pela forte reação contra os planos da Superliga Europeia em 2021, que visava impedir o rebaixamento dos clubes fundadores.