Gêmeos Separados ao Nascer: O elo invisível que desafia o ambiente e a criação
O fascínio por gêmeos é universal. Perguntas sobre telepatia e experiências compartilhadas são comuns, refletindo a curiosidade em torno de duas pessoas que, embora indivíduos distintos, compartilham semelhanças notáveis. Essa admiração não se restringe apenas ao imaginário popular, mas também é um campo fértil para a ciência.
A pesquisa com gêmeos oferece uma oportunidade única para investigar a complexa interação entre a genética e o ambiente na formação de características físicas e comportamentais. É a natureza ou a criação que nos define? Essa é uma das grandes questões que esses estudos buscam responder.
As descobertas mais surpreendentes vêm dos casos raros de gêmeos idênticos separados ao nascer, que cresceram em contextos completamente diferentes e, ainda assim, desenvolveram traços e hábitos incrivelmente semelhantes. Essas histórias, conforme informações divulgadas pelo programa CrowdScience do BBC World Service, revelam o poder da herança genética.
A Fascinante Ciência dos Gêmeos
Existem dois tipos principais de gêmeos. Os não idênticos, ou fraternos, nascem de dois óvulos diferentes fecundados por espermatozoides distintos, compartilhando, em média, metade do material genético, assim como irmãos comuns. Já os gêmeos idênticos, que são mais raros, formam-se a partir de um único óvulo e espermatozoide que se dividem em dois embriões, compartilhando quase todos os genes e, por isso, apresentando grande semelhança física.
A professora Nancy Segal, geneticista comportamental e psicóloga da California State University, dedica sua carreira a esse campo, dirigindo o Twin Studies Center. Ela explica que gêmeos separados ao nascer e os criados juntos permitem analisar a influência genética e ambiental em praticamente qualquer característica, desde a inteligência e velocidade de corrida até a personalidade, altura e peso.
Estudos típicos comparam gêmeos geneticamente idênticos com gêmeos fraternos. Se os idênticos são mais semelhantes em uma característica específica, isso sugere um papel genético no desenvolvimento desse traço. Não é surpresa que genes influenciem a altura ou o peso, mas a pesquisa mostra que a herança genética vai muito além.
Além da Aparência: A Genética dos Hábitos e Crenças
A influência genética se estende a aspectos muito pessoais, como a religiosidade e as atitudes sociais. Nancy Segal destaca que pesquisas nos Estados Unidos, Holanda e Austrália indicaram que gêmeos idênticos tendem a compartilhar visões religiosas semelhantes com mais frequência do que os não idênticos, especialmente na vida adulta.
Isso não significa uma predisposição genética para acreditar em Deus, mas sim que os genes podem influenciar um complexo conjunto de características, como inteligência ou sensibilidade, que podem tornar uma pessoa mais propensa a desenvolver certas crenças. Os genes também foram associados a comportamentos como o uso de drogas e até decisões financeiras.
Para a professora Segal, as descobertas mais impressionantes vêm dos estudos com gêmeos idênticos separados ao nascer. Ela afirma que, em traços como agressividade e quão tradicional uma pessoa é, esses gêmeos são tão semelhantes quanto os criados juntos. Isso indica que, para parentes que vivem juntos, são as influências genéticas, e não o ambiente compartilhado, que explicam a semelhança.
Gêmeos Separados ao Nascer: Histórias que Desafiam a Lógica
Um dos casos mais conhecidos estudados por Segal foi o de Ann Hunt e Elizabeth Hamel, gêmeas idênticas separadas quase ao nascer e que detêm o recorde de maior tempo separadas, 78 anos. Elas se reencontraram nos Estados Unidos, onde Elizabeth vivia, depois que Ann, residente no Reino Unido, iniciou a busca pela irmã.
Os resultados mostraram que Ann e Elizabeth não apenas compartilhavam diversos traços de personalidade, mas ambas se casaram com homens chamados Jim. Outros estudos revelam coincidências ainda mais curiosas entre gêmeos separados ao nascer, quase desafiando a lógica.
A professora Segal cita exemplos como um par de gêmeos idênticos que usava a mesma marca sueca de creme dental. Outro par, reencontrado em um aeroporto de Minnesota, ambos usavam sete anéis, três pulseiras e um relógio. Essas semelhanças em hábitos incomuns e comportamentos se repetem de forma extraordinária.
Havia também um par de gêmeos idênticos com o hábito de colocar elásticos nos pulsos e lavar as mãos antes e depois de usar o banheiro, sugerindo uma sensibilidade a germes e rigor com a limpeza. Outro par de gêmeos idênticos escoceses, criados separados, costumava cortar a torrada em quatro quadrados e comer apenas três, o que a pesquisadora sugere ser uma preocupação em controlar o apetite.
Esses exemplos indicam que o acaso não explica tudo, como conclui Segal. Todos temos hábitos estranhos ou peculiares, e eles refletem quem somos em alguma medida, de forma mais profunda do que imaginamos.
Genética e Livre-Arbítrio: Onde Está o Limite?
Um dos casos mais extremos de sincronicidade foi o dos chamados gêmeos Jim, de Minnesota. Ambos se chamavam Jim, foram separados ao nascer e se reencontraram aos 39 anos. Suas vidas eram surpreendentemente semelhantes: ambos casaram-se com mulheres chamadas Linda, depois se divorciaram e casaram-se novamente com mulheres chamadas Betty.
Eles também tinham um cachorro chamado Toy e um filho chamado James Alan, roíam as unhas e passavam férias na mesma praia. Em um estudo conduzido por Thomas Bouchard, da Universidade de Minnesota, os gêmeos Jim obtiveram resultados notavelmente semelhantes em testes de personalidade, apesar de nunca terem tido contato.
Essas histórias levantam uma questão inevitável: temos tanto controle sobre nossas escolhas e comportamentos quanto gostamos de imaginar? Nancy Segal esclarece que a influência genética não anula a autonomia individual. Ela usa o divórcio como exemplo de um grande evento de vida que pode ser influenciado, mas não determinado, pela genética.
Segundo a especialista, traços como personalidades difíceis ou teimosia podem ter uma base genética, mas os genes não ditam a decisão de se divorciar. A escolha final é sempre individual, mantendo o livre-arbítrio intacto. A chave, para Segal, é não pensar em termos absolutos.
Quando se trata de personalidade e traços individuais, não há uma única fonte definitiva que nos molde por completo. A ideia de que o ambiente nos molda totalmente é um equívoco, como afirma Segal, destacando a complexidade da interação entre nossa herança genética e as experiências de vida que nos tornam quem somos.