A vitória do filme “O Agente Secreto” no Globo de Ouro, com prêmios para o diretor Kleber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura, foi um momento de grande celebração para o cinema brasileiro. Contudo, a cerimônia e as entrevistas pós-premiação rapidamente transformaram a euforia em um palco para intensos debates políticos.

Tanto Mendonça Filho quanto Moura aproveitaram a visibilidade internacional para fazer duras críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, conectando o enredo do filme, que aborda a ditadura militar, ao cenário político recente do Brasil.

Essas declarações geraram uma onda de reações, desde o apoio do atual governo até fortes contestações de figuras ligadas à antiga gestão, conforme informações apuradas.

Críticas Contundentes ao Ex-Presidente

Ao atender jornalistas na sala de imprensa, o diretor Kleber Mendonça Filho não hesitou em ligar o tema de seu filme ao governo anterior. Ele afirmou que o Brasil viveu uma “guinada bem drástica à direita” há cerca de dez anos, mas que “esses tempos se foram, com o ex-presidente Jair Bolsonaro agora preso”.

Mendonça Filho classificou o ex-presidente como “irresponsável de forma épica”, criticando sua liderança durante a pandemia. O cineasta também destacou o papel do cinema como um canal vital para a “expressão de lutos” e das complexidades enfrentadas pela sociedade.

Por sua vez, Wagner Moura, que recebeu o prêmio de melhor ator, foi ainda mais direto em suas críticas a Bolsonaro. Ele declarou que Bolsonaro é um “fascista” e de “extrema direita”, enfatizando que “O Agente Secreto” representa a “manifestação física dos ecos da ditadura” no Brasil.

Moura reiterou declarações anteriores à imprensa americana, onde já havia afirmado: “Bolsonaro agora está na cadeia, então nos livros de história ele será o fascista eleito pelos brasileiros que tentou um golpe de Estado”. A fala reforça a percepção do ator sobre o legado político de Bolsonaro.

Repercussão Imediata e Apoio Governamental

As críticas a Bolsonaro feitas por Mendonça Filho e Moura rapidamente ecoaram no Brasil, provocando reações diversas. O governo brasileiro, por exemplo, exaltou a conquista internacional do filme e de seus artistas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou suas redes sociais para celebrar o Globo de Ouro, descrevendo-o como um “símbolo” da “valorização dos artistas”. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) também emitiu uma nota oficial de congratulação.

A nota do MRE cumprimentou “o diretor Kleber Mendonça Filho, a produtora Emilie Lesclaux, a equipe do filme ‘O Agente Secreto’ e o ator Wagner Moura”. O texto oficial ainda reforçou que “esse reconhecimento internacional reafirma a excelência do cinema brasileiro e sua capacidade de dialogar com públicos em todo o mundo”.

Financiamento do Cinema e Reações Políticas

As declarações dos artistas não passaram despercebidas por figuras ligadas ao governo Bolsonaro. O ex-secretário especial de Cultura, Mario Frias, criticou duramente Wagner Moura em suas redes sociais.

Frias chamou o ator de “frango travestido de virtude”, “oportunista” e “sustentado por um Estado corrupto”. Ele acusou Moura de ter uma “indignação seletiva e calculada”, que “só aparece quando rende aplauso, contratos e prestígio”.

O pastor Silas Malafaia também se manifestou, criticando o ator e o que ele considerou prioridades do governo. Malafaia ironizou, dizendo que “governo bom é dar aumento de 18 reais para professores e 18 bilhões para o que eles chamam de cultura”.

A questão do financiamento do cinema também veio à tona. “O Agente Secreto”, vencedor de dois prêmios no Globo de Ouro, recebeu R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio de edital público.

O setor cinematográfico nacional tem um conhecido ressentimento por uma suposta escassez de recursos públicos durante o governo Bolsonaro. Wagner Moura, por exemplo, apontou que seu filme “Marighella” teria sido alvo de censura devido às dificuldades de financiamento na época.

Em 2019, o então presidente Bolsonaro declarou em suas lives semanais no Facebook que havia conseguido “abortar essa missão” de financiar filmes que considerava “dinheiro jogado fora”, questionando o que tais produções agregariam à cultura. As críticas a Bolsonaro dos artistas no Globo de Ouro reforçam essa tensão histórica.

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