Decreto “Justiça por Orelha” visa endurecer penas para maus-tratos a animais no Brasil

O governo federal está em fase avançada de elaboração de um decreto que promete um endurecimento significativo nas penas e multas aplicadas a casos de maus-tratos contra animais. A iniciativa, batizada de “Justiça por Orelha”, presta uma homenagem a um cão comunitário que teria sido vítima de crueldade na Praia Brava, em Florianópolis (SC), e busca aumentar a proteção legal dos animais no país.

A expectativa é que o decreto seja publicado durante a Semana Nacional dos Animais, prevista para meados de março. A nova norma não apenas aumentará os valores das multas e o rigor das sanções, mas também estabelecerá agravantes específicos para crimes cometidos contra animais, buscando coibir práticas cruéis e garantir maior responsabilização.

As mudanças propostas visam aprimorar a legislação ambiental atual, que, segundo especialistas, ainda apresenta lacunas na punição de atos de crueldade. A medida reflete a crescente preocupação da sociedade com o bem-estar animal e a necessidade de mecanismos legais mais eficazes para combater a violência. Conforme apurou a CNN, a atualização da lei é uma prioridade para o Ministério do Meio Ambiente (MMA), com apoio da Casa Civil.

O Caso “Orelha” e o Impulso para a Mudança Legislativa

O nome “Justiça por Orelha” não é uma coincidência. A inspiração para o decreto vem do trágico caso do cão comunitário conhecido como “Orelha”, encontrado morto na Praia Brava, em Florianópolis. A suspeita é de que o animal tenha sido vítima de maus-tratos, um episódio que gerou grande comoção nacional e intensificou os debates sobre a necessidade de leis mais rigorosas para proteger os animais.

A repercussão do caso “Orelha” serviu como um catalisador para que o governo federal acelerasse os trâmites para a criação de uma legislação mais robusta. A história do cão evidenciou a fragilidade das leis existentes e a urgência em promover mudanças que dessem um recado claro de que maus-tratos não serão tolerados.

A comunidade local e ativistas pelos direitos dos animais clamaram por justiça, e essa demanda ecoou nos corredores do poder público. O decreto, portanto, surge como uma resposta direta a essa mobilização social e um passo concreto para honrar a memória de “Orelha” e de tantos outros animais que sofrem em silêncio.

O Que Diz a Legislação Atual Sobre Maus-Tratos a Animais

Atualmente, a proteção legal contra maus-tratos a animais no Brasil é regida principalmente pela Lei de Crimes Ambientais, em seu artigo 32. Esta lei tipifica como crime o ato de praticar “abuso, maus-tratos, ferimentos ou mutilações a animais silvestres, domésticos, domesticados, nativos ou exóticos”.

A pena prevista para esses crimes é de detenção de três meses a um ano, além de multa. No entanto, a lei prevê um aumento de pena de 1/6 a 1/3 caso o crime resulte na morte do animal. Na prática, essa progressão pode levar a sentenças que variam de dois a cinco anos de prisão, mas a efetividade dessa punição é frequentemente questionada.

No que diz respeito às multas administrativas, elas estão previstas em um decreto de 2008 que trata de infrações e sanções ambientais. Contudo, este decreto não foi atualizado desde sua publicação e estabelece multas que variam de R$ 300 a R$ 3.000, valores considerados baixos diante da gravidade de alguns atos de crueldade. Além disso, a norma atual não prevê agravantes específicos para a aplicação dessas multas, o que o novo decreto pretende corrigir.

Agravantes Previstos no Novo Decreto “Justiça por Orelha”

Um dos principais avanços esperados com o decreto “Justiça por Orelha” é a inclusão de uma série de agravantes que tornarão as punições mais severas e adequadas à crueldade dos atos. A minuta em elaboração pelo Ministério do Meio Ambiente tem focado em penalizar de forma mais contundente situações específicas de maus-tratos.

Entre os agravantes que devem ser incorporados ao texto, destacam-se a reincidência do criminoso, ou seja, se a pessoa já cometeu crimes semelhantes anteriormente. Outro ponto crucial é o uso de violência extrema, que demandará uma resposta legal mais dura. Atos cometidos ou divulgados na internet, dada a facilidade de disseminação e o potencial de incentivar outros crimes, também serão considerados agravantes.

Adicionalmente, o decreto deve prever penas mais severas para maus-tratos a animais em risco de extinção, bem como em casos que envolvam o recrutamento de menores para a prática dos crimes. Essas novas tipificações buscam abranger um leque maior de situações de crueldade e garantir que a justiça seja aplicada de forma mais proporcional.

Atualização das Multas Administrativas: Um Passo Essencial

Além do endurecimento das penas criminais, o decreto “Justiça por Orelha” também contemplará a atualização do decreto de 2008 que rege as multas administrativas por infrações ambientais. A norma atual, que estabelece valores de R$ 300 a R$ 3.000, é considerada defasada e ineficaz na dissuasão de crimes contra animais.

A atualização deste decreto, com apoio da Casa Civil, visa adequar os valores das multas à realidade atual e torná-las um instrumento mais efetivo de punição. A falta de atualização desde 2008 permitiu que as multas perdessem seu poder de coibição. O novo texto busca corrigir essa defasagem, possivelmente aumentando os valores e introduzindo faixas de multas mais condizentes com a gravidade da infração.

É importante notar que as multas administrativas são distintas das penas criminais. Enquanto as penas criminais visam a responsabilização do indivíduo através de detenção ou prisão, as multas administrativas são sanções pecuniárias aplicadas pelo poder público. A atualização de ambas as esferas é vista como fundamental para uma proteção mais efetiva dos animais.

Capacitação de Profissionais de Segurança: Uma Nova Fronteira na Proteção Animal

Diante da repercussão do caso “Orelha” e da necessidade de aprimorar a aplicação da lei, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) também está investindo na capacitação dos profissionais das forças de segurança. Essa iniciativa representa uma nova e importante frente de atuação para o combate aos maus-tratos.

Segundo Vanessa Negrini, diretora do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais do MMA, esta será a primeira vez que um curso de capacitação sobre o tema será oferecido em nível nacional pelo governo brasileiro. O objetivo é uniformizar o conhecimento e as práticas entre policiais, peritos e outros agentes públicos envolvidos na investigação e repressão de crimes contra animais.

A diretora ressalta que a capacitação vai além do simples reconhecimento de um crime. “O que é crime de maus-tratos? É só matar o animal? Deixar preso na corrente? Deixar em local sujo? Essas perguntas não são claras para muita gente”, explica Negrini. A formação abordará desde a identificação correta dos atos de crueldade até a importância da coleta e preservação de provas, garantindo que os casos cheguem à justiça com a qualidade técnica necessária para a condenação dos culpados.

O Que Significa “Cultura do Enfrentamento aos Maus-Tratos”

A capacitação de profissionais de segurança, conforme destacado por Vanessa Negrini, visa criar uma verdadeira “cultura do enfrentamento aos maus-tratos”. Isso implica em mudar a percepção e a abordagem sobre o tema dentro das próprias instituições de segurança pública.

Historicamente, crimes contra animais muitas vezes eram vistos como de menor importância ou de difícil comprovação. A falta de conhecimento específico sobre o comportamento animal, sinais de abuso e as nuances legais envolvidas podia levar à subnotificação ou à ineficácia das investigações. A nova capacitação busca suprir essa lacuna, fornecendo ferramentas e conhecimento para que os profissionais atuem de forma mais proativa e eficiente.

Ao aprimorar a capacidade de identificação, denúncia e coleta de evidências, o governo espera aumentar o número de casos que resultam em punições efetivas. Isso, por sua vez, pode ter um efeito dissuasório, desencorajando potenciais agressores e demonstrando o compromisso do Estado com a proteção animal. A clareza sobre o que constitui maus-tratos e a capacidade de documentar tais atos são passos fundamentais para construir essa cultura de enfrentamento.

Impacto Social e a Importância da Colaboração na Proteção Animal

A elaboração do decreto “Justiça por Orelha” e as iniciativas de capacitação refletem uma mudança significativa na forma como a sociedade e o governo encaram a proteção animal. A crescente conscientização sobre o tema tem impulsionado debates e ações que buscam garantir que os animais sejam tratados com dignidade e respeito.

O impacto social dessas medidas é amplo. Ao endurecer as penas e multas, o governo envia uma mensagem clara de que a crueldade contra animais terá consequências mais severas. Isso pode encorajar a população a denunciar casos de maus-tratos e a se engajar ativamente na defesa dos direitos dos animais. A capacitação das forças de segurança, por sua vez, garante que as denúncias sejam tratadas com a seriedade e a competência necessárias.

A colaboração entre governo, sociedade civil organizada, ativistas e a população em geral é fundamental para o sucesso dessas iniciativas. A proteção animal é um desafio multifacetado que exige o engajamento de todos os setores. O decreto e os programas de capacitação são passos importantes, mas a vigilância contínua e a participação ativa da sociedade serão cruciais para garantir um futuro mais seguro e justo para os animais no Brasil.

O Que Esperar Após a Publicação do Decreto “Justiça por Orelha”

Com a expectativa de publicação do decreto “Justiça por Orelha” em meados de março, o cenário legal para a proteção animal no Brasil tende a se tornar mais robusto. A medida promete trazer mais rigor e efetividade na punição de crimes de maus-tratos, alinhando a legislação brasileira com as demandas sociais por maior proteção aos animais.

A principal mudança será o agravamento das penas e multas, com a introdução de novas circunstâncias que levarão a punições mais severas. A inclusão de agravantes como reincidência, violência extrema e divulgação online, além da proteção especial a espécies ameaçadas, tornará a lei mais abrangente e dissuasória.

Paralelamente, a capacitação nacional das forças de segurança promete elevar o padrão de investigação e aplicação da lei. A maior clareza sobre o que constitui maus-tratos e a melhoria na coleta de provas devem resultar em mais condenações e, consequentemente, em uma maior sensação de justiça para os animais vítimas de crueldade. O caso “Orelha” pode, assim, marcar um ponto de virada na luta contra os maus-tratos no país.

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