O recente encontro de líderes europeus em Paris, focado na busca por um acordo de paz duradouro para a Ucrânia, foi ofuscado por uma questão inesperada: a Groenlândia. Enquanto tentavam assegurar o apoio dos Estados Unidos para a soberania ucraniana, um “elefante do tamanho da Groenlândia” pairava sobre a sala, gerando apreensão e preocupação.

O presidente dos EUA, Donald Trump, expressou repetidamente seu desejo de adquirir a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, justificando a necessidade por razões de segurança nacional. Esta insistência tem causado um profundo desconforto e pânico entre os aliados europeus, que veem a demanda como uma ameaça direta à soberania de um país-membro da OTAN.

A situação é particularmente irônica, pois a Europa se esforça para proteger a Ucrânia da agressão russa, enquanto um de seus próprios membros enfrenta uma potencial ameaça de seu maior aliado. A complexidade desta crise diplomática levanta sérias questões sobre o futuro das alianças globais e a segurança do continente, conforme informações divulgadas.

O Elefante na Sala: A Groenlândia no Centro da Geopolítica

A Groenlândia, a maior ilha do mundo, possui uma área colossal, quase quatro vezes o tamanho do Estado da Bahia ou seis vezes a da Alemanha. Situada estrategicamente no Ártico, ela é um território autônomo da Dinamarca, mas Trump insiste em sua posse, alegando ser crucial para a segurança nacional dos Estados Unidos.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, presente na reunião em Paris, é uma aliada vital para muitos líderes da União Europeia e do Reino Unido na Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN. Inicialmente, nenhum país queria antagonizar diretamente com Donald Trump, buscando manter as relações diplomáticas.

Contudo, diante da escalada da tensão política, seis grandes potências europeias, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, emitiram uma declaração conjunta. Nos bastidores das negociações sobre a Ucrânia, eles afirmaram que a segurança do Ártico deve ser alcançada coletivamente, com os aliados da OTAN, e que apenas a Dinamarca e a Groenlândia devem decidir sobre questões referentes à ilha.

Escalada da Tensão: A Resposta de Washington e o Pânico Europeu

A declaração conjunta europeia, no entanto, não foi suficiente para conter as ambições de Donald Trump. A resposta veio em questão de horas: a Casa Branca divulgou seu próprio comunicado, afirmando estar “discutindo uma série de opções” para adquirir a Groenlândia, todas unilaterais, incluindo a compra direta.

O que mais assustou os líderes europeus foi a declaração da secretária de imprensa Karoline Leavitt, que afirmou que “o uso das forças armadas dos Estados Unidos é sempre uma opção à disposição do Comandante-em-Chefe”. Esta não é a primeira vez que Trump expressa sua intenção de tomar a ilha, mas a seriedade do tom mudou.

Durante seu primeiro mandato, a ideia era frequentemente ridicularizada na Europa. Contudo, após a controversa intervenção militar do governo Trump na Venezuela, ninguém mais vê a possibilidade com humor. A primeira-ministra dinamarquesa declarou que as intenções de Trump devem ser levadas a sério, e os líderes europeus deixaram a reunião sobre a Ucrânia profundamente preocupados.

A ironia da situação é notável. Líderes europeus e de organizações como a OTAN e a União Europeia se reuniram para tentar garantir o apoio dos EUA na proteção da soberania da Ucrânia contra a Rússia. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos agiam militarmente na Venezuela e ameaçavam a soberania da Dinamarca, um aliado.

OTAN em Xeque: O Dilema da Aliança Transatlântica

Para agravar a situação, a Dinamarca e os Estados Unidos são membros da aliança transatlântica, a OTAN. Copenhague considera os dois países aliados extremamente próximos, ou pelo menos considerava. A Dinamarca alerta que, se o governo Trump tomar posse da Groenlândia unilateralmente, será o fim da aliança de defesa que sustenta a segurança da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Trump nunca foi um grande admirador da OTAN, e Copenhague tentou atrair o governo americano em relação à ilha. Os Estados Unidos já possuem uma base militar na Groenlândia, estabelecida no início da Guerra Fria por meio de um acordo bilateral. A quantidade de pessoal na base foi reduzida, e os EUA foram acusados por muito tempo de ignorar a segurança do Ártico, até agora.

Em contrapartida, a Dinamarca prometeu recentemente investir US$ 4 bilhões, cerca de R$ 21,6 bilhões, na defesa da Groenlândia, incluindo navios, drones e aeronaves. No entanto, o governo Trump não demonstrou interesse em dialogar. Trump insistiu que a Groenlândia é “muito estratégica no momento”, afirmando que “está coberta de navios russos e chineses por toda parte. Precisamos da Groenlândia do ponto de vista de segurança nacional e a Dinamarca não será capaz de fazê-lo”. Os dinamarqueses refutam essa última afirmação.

A Fragilidade Europeia Diante da Agressividade Americana

Uma autoridade da União Europeia, sob condição de anonimato, afirmou que “toda esta situação simplesmente destacou, mais uma vez, a fundamental fraqueza da Europa em relação a Trump”. Embora vizinhos nórdicos tenham defendido a Dinamarca, houve um silêncio inicial dos chamados Três Grandes da Europa, Reino Unido, França e Alemanha.

Posteriormente, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o chanceler alemão Friedrich Merz afirmaram que somente a Dinamarca e a Groenlândia podem decidir o futuro da ilha. O presidente francês Emmanuel Macron visitou a Groenlândia em dezembro em um gesto de solidariedade. A declaração conjunta de seis países, emitida na terça-feira, excluiu, contudo, críticas diretas aos Estados Unidos.

Camille Grand, do Conselho Europeu de Relações Exteriores e ex-vice-secretário-geral de Investimentos de Defesa da OTAN, destacou que uma declaração conjunta de todos os 27 parceiros da União Europeia, mais o Reino Unido, teria sido uma mensagem poderosa para Washington. No entanto, apenas seis aliados europeus da Dinamarca emitiram o comunicado, revelando a divisão.

A postura direta de Trump, que alguns classificam como tática de bullying, deixou os líderes europeus extremamente nervosos. Eles geralmente preferem administrar o presidente americano, protegendo relações bilaterais, em vez de confrontá-lo individualmente ou em conjunto. A Europa, neste novo cenário da política de grandes potências, dominado pelos Estados Unidos e pela China, corre o risco de ser “pisoteada”.

A União Europeia, que sempre prometeu um papel maior no cenário global, parece decididamente fraca diante de Trump. O bloco não cumpriu a promessa de apoiar financeiramente a Ucrânia usando ativos russos congelados, e cedeu às tarifas de importação de 15% impostas por Trump no ano passado, temendo perder o apoio dos EUA para sua segurança e defesa.

Julianne Smith, ex-embaixadora americana na OTAN, alertou que esta situação “ameaça o rompimento da UE” e representa um dilema existencial para a OTAN. Ela aconselha a Europa a levar a sério as intenções de Trump e “fazer mais do que pedir contenção”, sugerindo planos de contingência, uso de reuniões internacionais e “ideias ousadas e inovadoras, como novos pactos de defesa”.

Os tratados da OTAN não distinguem ataques de países externos ou de outro aliado, mas há o entendimento de que o Artigo 5, a “cláusula um por todos e todos por um”, não se aplica a conflitos internos, como o ocorrido entre Turquia e Grécia em relação a Chipre, onde os EUA mediaram. A Dinamarca é um dos menores, mas ativos, aliados da OTAN, enquanto os EUA são o maior e mais poderoso.

O profundo nervosismo na Europa é palpável. Embora as grandes potências europeias tenham emitido sua declaração conjunta, defendendo a soberania da Dinamarca e da Groenlândia, a questão é até onde irão para garantir essa soberania. Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, afirmou à CNN que “ninguém irá enfrentar os Estados Unidos militarmente sobre o futuro da Groenlândia“.

Camille Grand enfatiza que as tensões sobre a Groenlândia destacam, mais uma vez, “a necessidade dos europeus de reduzir sua dependência dos Estados Unidos em questões de segurança e falar com uma única voz”. Embora Trump tenha conseguido que quase todos os aliados da OTAN aumentassem seus gastos com defesa, a Europa ainda depende muito dos EUA em inteligência, comando, controle e capacidades aéreas, uma dependência que Washington conhece bem. Fontes internas da OTAN revelam que, mesmo a portas fechadas, os membros europeus dificilmente conseguem contemplar o que aconteceria se Washington agisse militarmente na Groenlândia.

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