A Dell Technologies formalizou um processo contra a VMware no Reino Unido, exigindo o pagamento de pelo menos 10 milhões de libras, o que equivale a cerca de R$ 72 milhões na cotação atual. Esta ação é o mais recente capítulo de uma complexa batalha jurídica no setor de tecnologia.
A disputa, que já envolve gigantes como Broadcom, dona da VMware, e a revendedora Computacenter, expõe as tensões geradas pela mudança no modelo de negócios imposta após a aquisição da gigante de virtualização, impactando diretamente as licenças perpétuas de software.
O que começou como uma reclamação contratual da maior rede de supermercados britânica, a Tesco, transformou-se em um “efeito dominó” legal, arrastando algumas das principais empresas de software para os tribunais, conforme informações apuradas.
A Origem da Disputa e o Papel da Dell
Para compreender a participação da Dell neste caso, é fundamental analisar a raiz do conflito, que reside no fim das licenças perpétuas de software. A Tesco, por exemplo, alega ter adquirido licenças da VMware em 2021 com garantia de renovação de suporte.
No entanto, após assumir o controle da VMware, a Broadcom eliminou essa modalidade, forçando a migração para assinaturas recorrentes, que são significativamente mais caras. Sentindo-se lesada, a rede de supermercados processou a revendedora Computacenter e a Broadcom, pleiteando mais de 100 milhões de libras em indenizações.
Foi nesse momento que a Dell foi envolvida na confusão. A Computacenter argumenta que não pode entregar o que as fabricantes se recusam a vender. Por isso, processou seus fornecedores para se resguardar, alegando que a Dell, em 2021, como então distribuidora da VMware, enviou uma proposta que garantia preços e condições de suporte a longo prazo.
Para a Computacenter, é a Dell quem deve honrar essa oferta. Contudo, na ação recém-aberta, a gigante dos PCs sustenta que sua obrigação contratual limitava-se a “comunicar à VMware qualquer solicitação de renovação”.
Essa responsabilidade, segundo a Dell, dependia da companhia continuar sendo uma distribuidora autorizada. Como a parceria de distribuição com a VMware foi encerrada em janeiro de 2024, a empresa alega incapacidade técnica e legal de fornecer os softwares sem a cooperação da Broadcom.
Basicamente, a Dell, que agora exige indenização para cobrir eventuais perdas se o veredito for desfavorável, afirma ao tribunal que, se a Computacenter vencer a ação, a VMware deve arcar com a conta, intensificando a disputa de R$ 72 milhões.
Fim das Licenças Perpétuas e Risco de Desabastecimento
A base crucial desta complexa disputa de R$ 72 milhões é a decisão da Broadcom de encerrar o suporte a licenças antigas. Nos autos do processo, a Tesco enfatiza que o software da VMware é “essencial para as operações e a resiliência dos negócios”.
Este software gerencia cerca de 40 mil cargas de trabalho em servidores, abrangendo desde os caixas das lojas até a intrincada logística de fornecimento de alimentos em todo o Reino Unido e Irlanda. A interrupção do suporte a licenças perpétuas pode ter um impacto devastador.
O alerta emitido pela varejista é grave: sem as atualizações e o suporte contratado, pode haver interrupções significativas no abastecimento de produtos alimentícios para milhões de consumidores, um risco real para a segurança alimentar.
A Broadcom, por sua vez, não demonstra intenção de recuar. A gigante dos chips sustenta que os produtos solicitados pela Tesco foram descontinuados e não são mais comercializados no mercado atual.
A empresa argumenta ainda que não pode ser obrigada a dar suporte a softwares obsoletos. Além disso, a Broadcom afirma ter tentado negociar um novo acordo de assinatura com a rede de supermercados, mas a Tesco teria ignorado as propostas apresentadas.
O Impasse Jurídico e as Implicações para o Mercado
Este impasse criou uma situação jurídica peculiar, onde Tesco, Broadcom, Computacenter e Dell tentam, cada uma a seu modo, empurrar a responsabilidade financeira umas para as outras. A disputa de R$ 72 milhões se torna um símbolo das complexidades do mercado de tecnologia.
O caso destaca as profundas implicações das mudanças nos modelos de licenciamento de software, especialmente em um mercado onde a virtualização e as soluções de nuvem são cruciais para a operação de grandes empresas, e o fim das licenças perpétuas gera incertezas.
A decisão judicial terá um impacto significativo não apenas para as partes envolvidas, mas também para o futuro das relações entre fornecedores de software, distribuidores e clientes corporativos em todo o mundo, redefinindo expectativas e contratos.
A saga judicial continua, e o desfecho poderá redefinir as regras do jogo para as licenças perpétuas e a manutenção de softwares essenciais em um cenário tecnológico em constante transformação, com repercussões globais para o setor de software e virtualização.