Crise no Oriente Médio abala os BRICS e levanta questionamentos sobre a estratégia diplomática brasileira
A crescente instabilidade no Oriente Médio, marcada por ataques entre membros do bloco BRICS, como o Irã contra os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, está gerando uma crise de coesão e articulação diplomática dentro do grupo. A falta de uma posição conjunta diante dos conflitos levanta sérias dúvidas sobre a capacidade do BRICS de atuar como um polo geopolítico relevante e questiona a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de apostar no fortalecimento do bloco para ampliar a projeção internacional do Brasil.
Enquanto o Irã intensifica seus bombardeios e a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos consideram retaliações, o BRICS permanece em silêncio. Essa inação contrasta com o discurso de Lula em prol de um “Sul Global” mais assertivo e coloca em xeque a aposta do governo brasileiro em um bloco que, segundo analistas, carece de instrumentos institucionais e estratégicos para agir como um ator geopolítico unificado.
A visita do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa a Brasília, onde ambos líderes expressaram preocupação com a paz no Oriente Médio, evidenciou a falta de articulação do BRICS. Apesar de seus discursos individuais pedindo por negociação, nenhum dos chefes de Estado citou o bloco como um fórum para a mediação do conflito, conforme informações divulgadas em fontes diplomáticas.
Expansão do BRICS e a diluição de interesses: um bloco em busca de identidade
A recente expansão do BRICS, que em 2023 adicionou Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, visava aumentar a influência política do grupo e reforçar a ideia de um polo alternativo à ordem internacional liderada pelo Ocidente. No entanto, essa ampliação parece ter acentuado as divergências internas, expondo a fragilidade estrutural do bloco.
A inclusão de países com rivalidades regionais acirradas, como o Irã e a Arábia Saudita, que disputam influência no Oriente Médio e pertencem a campos políticos e religiosos opostos, torna a construção de posições comuns um desafio hercúleo. Analistas apontam que a presença simultânea de tais atores, com agendas geopolíticas distintas e inseridos em campos securitários opostos, reduz significativamente os incentivos para uma cooperação real e efetiva.
A Arábia Saudita, embora convidada, ainda não é membro pleno, mas sua participação em reuniões já demonstra a complexidade do cenário. A dinâmica de interesses divergentes e a baixa institucionalização do grupo, segundo o estrategista internacional Cezar Roedel, impossibilitam que o BRICS funcione como uma aliança política coesa. Ele descreve o bloco como uma união de países com características semelhantes no passado, mas hoje muito distintos entre si, mais focado em retórica do que em ações concretas.
A fragilidade do BRICS: falta de instrumentos e assimetria de poder
Especialistas em relações internacionais e ciência política apontam a falta de instrumentos institucionais e estratégicos como um dos principais gargalos para a atuação geopolítica do BRICS. O cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), destaca a grande assimetria de poder entre os membros, onde China e Rússia detêm a maior parte da influência global, enquanto países como Brasil, Índia e África do Sul possuem um papel intermediário ou menor.
Essa disparidade de poder limita a capacidade dos membros menores de influenciar as decisões globais e de contrabalançar as grandes potências. Gomes afirma que, na prática, o BRICS opera mais como um espaço de sinalização política e “photo opportunities”, como ironicamente descreveu um diplomata brasileiro, do que como uma aliança estratégica capaz de atuar de forma coordenada em crises internacionais.
A relevância do BRICS, segundo Gomes, reside em grande parte no peso econômico e tecnológico da China e no poder militar da Rússia. Sem mecanismos robustos de coordenação política e com interesses nacionais frequentemente divergentes, o bloco encontra dificuldades em consolidar uma voz unificada em questões globais complexas, como a guerra no Oriente Médio.
Posicionamento antiamericano em declínio e o silêncio sobre o conflito
Desde 2023, sob influência da China e da Rússia, o BRICS vinha adotando posições mais críticas aos Estados Unidos e seus aliados. Em junho do ano passado, o bloco se manifestou institucionalmente contra ataques de Israel e dos EUA a estruturas nucleares do Irã, durante a chamada Guerra dos 12 Dias. Contudo, na atual escalada militar, o grupo optou pelo silêncio, um reflexo direto das tensões internas e da dificuldade em conciliar interesses.
Essa mudança de postura, ou a ausência dela, é vista por analistas como um indicativo da perda de força do discurso antiamericano dentro do bloco. A prioridade, no momento, parece ser a salvaguarda dos interesses estratégicos nacionais de cada membro, especialmente a segurança das rotas energéticas no Golfo Pérsico, que preocupam Rússia, Índia e China. A ausência de um grande incentivo para uma reação política forte dentro do BRICS sobre o conflito no Irã é, portanto, compreensível sob essa ótica.
A falta de uma posição conjunta sobre o conflito no Oriente Médio não surpreende Cezar Roedel, que desde a criação do grupo, o considera mais um agrupamento de países com características semelhantes do que uma aliança política coesa. A expansão recente, em sua visão, intensificou as divergências, tornando qualquer posição conjunta algo “muito fraco, basicamente simbólico”.
Lula aposta em bloco enfraquecido: riscos para a projeção internacional do Brasil
A aposta do governo Lula no fortalecimento do BRICS como eixo de projeção internacional do Brasil pode enfrentar sérios obstáculos diante das limitações estruturais do bloco. Analistas alertam para o risco de o país investir capital diplomático em um projeto com baixa capacidade real de influência geopolítica.
Roedel avalia que o Brasil insiste em um discurso que, na prática, não se reflete na ação dos membros do BRICS, cada um seguindo seu próprio caminho. O grupo atravessa um momento de “desorganização estratégica”, com divergências profundas sobre temas centrais, como a proposta de criação de uma moeda alternativa ao dólar. A Índia, que preside o bloco rotativamente, não demonstra interesse em discutir seriamente a substituição do dólar, enquanto a Rússia pressiona por sistemas alternativos de pagamento e a China reduziu seu tom nesse discurso.
Em artigo recente, Roedel argumenta que o BRICS se transformou em um espaço dominado pela retórica política, “virou um bloco que fala muito e entrega pouco”. Essa percepção de esvaziamento, ou “processo falimentar”, como descrito pelo estrategista, levanta questionamentos sobre a viabilidade da estratégia diplomática brasileira de apostar no bloco como principal vetor de sua inserção internacional.
Divergências e rivalidades internas expõem a fragilidade do BRICS
A composição política do BRICS, que inclui regimes autoritários, também dificulta a construção de posições comuns e gera desconfiança mútua entre os governos. A presença simultânea de Irã e Arábia Saudita no grupo ampliado é um dos exemplos mais gritantes das divergências estratégicas e das rivalidades internas que expõem a fragilidade do bloco.
Esses dois países, que disputam influência regional no Oriente Médio e pertencem a campos políticos e religiosos rivais, possuem agendas geopolíticas muito diferentes e baixa complementariedade econômica. Enquanto a Arábia Saudita mantém relações estratégicas com o Ocidente, o Irã se aproxima do eixo formado por Rússia e China. Essa dinâmica de oposição interna reduz drasticamente os incentivos para uma cooperação real e sólida.
Para o cientista político Elton Gomes, o BRICS funciona mais como uma plataforma para “produzir capital político e projeção internacional”, servindo como um espaço de sinalização, e não como uma aliança estratégica capaz de atuar de forma coordenada. A capacidade do bloco de influenciar eventos globais é limitada, sendo muitas vezes utilizado por potências como a China para reforçar sua posição na disputa geopolítica com os Estados Unidos, buscando “parecer cercado de aliados”, mesmo que essa aliança seja “bastante frágil”.
Lula e Ramaphosa buscam a paz sem mencionar o BRICS como mediador
No encontro bilateral entre Brasil e África do Sul, mesmo diante da escalada de tensões no Oriente Médio, o BRICS não foi citado como um possível instrumento de mediação diplomática. Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Cyril Ramaphosa expressaram preocupação com a guerra e pediram por paz, mas o fizeram em declarações individuais, reforçando as dúvidas sobre a capacidade política do grupo.
Ramaphosa apelou por um cessar-fogo imediato e pela resolução pacífica dos conflitos por meio da negociação. Lula, por sua vez, destacou que o diálogo e a diplomacia são o “único caminho viável para a construção de uma solução duradoura”. Ambos os líderes demonstraram solidariedade aos países afetados por ataques retaliatórios e instaram as partes a respeitar o direito internacional e a exercer contenção.
O comunicado conjunto divulgado após o encontro bilateral mencionou o conflito no Oriente Médio, expressando grave preocupação com os ataques e as ações retaliatórias, que representam uma séria ameaça à paz e segurança internacionais. No entanto, o BRICS apareceu no documento apenas no contexto econômico e financeiro, com a reafirmação do interesse em ampliar o comércio entre os países do grupo e reduzir a dependência do dólar nas transações. Essa ênfase em questões econômicas, em detrimento de uma articulação diplomática para crises, reforça a percepção de que o BRICS atua mais como uma plataforma de contestação econômica e política à influência dos EUA do que como um mecanismo estruturado de resolução de conflitos.
O futuro incerto do BRICS e os desafios para o Brasil na diplomacia global
A atual crise no Oriente Médio e a consequente paralisia diplomática do BRICS lançam um holofote sobre os desafios que o Brasil enfrenta em sua estratégia de projeção internacional. A aposta em um bloco com fragilidades estruturais e divergências internas significativas pode comprometer os objetivos brasileiros de ampliar sua relevância no cenário global e liderar o “Sul Global”.
A falta de coesão e a ausência de instrumentos efetivos para a ação coletiva levam analistas a questionar a sustentabilidade da estratégia diplomática brasileira. O BRICS, que já foi visto como um contraponto à ordem ocidental, agora se mostra incapaz de gerir conflitos entre seus próprios membros, o que diminui sua credibilidade como polo geopolítico alternativo.
O futuro do BRICS é incerto, com a possibilidade de se consolidar como um fórum de discussões e “photo opportunities”, mas com pouca capacidade de intervenção em crises globais. Para o Brasil, isso significa a necessidade de repensar suas alianças e estratégias, buscando diversificar seus parceiros e fortalecer mecanismos diplomáticos que realmente ofereçam capacidade de ação e influência no complexo tabuleiro geopolítico mundial.