As investigações sobre supostas fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e os empréstimos consignados do INSS ganham um novo contorno com a emergência do empresário Augusto “Guga” Lima. Ele é apontado como um personagem central que estabelece uma ligação direta entre o escândalo e o Partido dos Trabalhadores (PT).

Lima, que foi alvo de mandado de prisão preventiva na Operação Compliance Zero da Polícia Federal, é ex-sócio de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Ambos estão sob monitoramento eletrônico e devem prestar depoimentos cruciais à PF nos próximos dias, prometendo revelar detalhes importantes do esquema.

Essa conexão preocupa o Palácio do Planalto, pois lança luz sobre a origem e a expansão de um modelo de crédito consignado que, conforme apurado pela Gazeta do Povo, se desenvolveu em governos petistas na Bahia e se tornou uma das engrenagens da operação do Banco Master.

A Origem do CredCesta e o Papel de Guga Lima

A história de Guga Lima no centro do esquema começa com o programa CredCesta, uma política de crédito consignado criada e mantida por governos do PT na Bahia. O CredCesta, nos últimos anos, tornou-se fundamental para a expansão do Banco Master.

Esse programa deriva da antiga Cesta do Povo, uma estatal baiana de abastecimento. Nos anos 2000, ela se transformou no Cartão Cesta do Povo e, entre 2015 e 2018, sob governos petistas no estado, virou uma plataforma de crédito consignado com desconto em folha para servidores, aposentados e pensionistas.

A engenharia operacional e financeira por trás desse modelo foi conduzida por Guga Lima. Ele atuava como operador privado da estrutura, fora da administração formal do Estado, articulando a entrada no negócio da Cesta do Povo, conforme um executivo do setor financeiro disse à Gazeta do Povo.

O modelo era atrativo porque o público, majoritariamente servidores públicos, gerava recebíveis de boa qualidade. Em 2018, no governo de Rui Costa (PT), o programa foi formalizado com justificativa social, em articulação com o então ex-governador e hoje senador Jacques Wagner (PT).

No mesmo ano, Lima firmou um acordo de compartilhamento das operações do CredCesta com o Banco Master, antecipando a integração do modelo ao sistema bancário privado. Dois anos depois, em 2020, ele se tornou sócio de Vorcaro, aprofundando a conexão.

A Expansão dos Consignados e as Suspeitas de Fraude no Banco Master

A partir da parceria, o modelo concebido na Bahia foi replicado em larga escala pelo Banco Master. As carteiras de empréstimos consignados eram cedidas e usadas como ativos financeiros em operações com fundos de investimento e outros bancos, impulsionando a expansão do produto em todo o país.

Em 2024, o CredCesta já estava disponível em 176 municípios de 24 estados. A geração contínua de consignados e sua circulação por fundos e instituições financeiras privadas criaram um fluxo de ativos que contribuiu para a alavancagem do grupo.

Esses ativos serviriam, mais tarde, como base de garantias na negociação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). No entanto, surgiram as irregularidades que estão no centro das investigações.

Comunicações do próprio Master e relatos às autoridades indicam que uma parte significativa desses créditos teria sido originada por associações de servidores públicos da Bahia, como a Asteba e a Asseba. O problema, segundo apurações do Banco Central, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, é a falta de lastro compatível.

Técnicos concluíram que essas associações não tinham estrutura, base de associados ou fluxo financeiro que justificassem a geração de bilhões de reais em consignados. As investigações apontam que o banco firmou 338,6 mil contratos de crédito consignado com beneficiários do INSS entre outubro de 2021 e setembro de 2025.

Desses, cerca de 252 mil contratos, o equivalente a 74,3%, não teriam sido apresentados às autoridades. Mesmo assim, esses créditos foram usados para compor aproximadamente R$ 6,7 bilhões em contratos não comprovados, segundo relatórios preliminares.

Outros R$ 5,5 bilhões apareceram classificados como “valores acessórios” ou “prêmios financeiros”, sem explicação econômica compatível com operações tradicionais. No total, o banco apresentou ao BRB carteiras que somavam cerca de R$ 12,2 bilhões, montante que está sob intensa apuração.

Fundos Públicos e o Risco Oculto em Operações Financeiras

Os créditos questionados passaram a integrar carteiras estruturadas e fundos de investimento, alguns deles abastecidos com recursos ligados ao Estado da Bahia. Esses fundos estão sob investigação por possível ausência de lastro, falhas de governança e problemas de avaliação de risco.

A presença de fundos de investimento e entidades ligadas ao setor público nessas operações, por si só, não é irregular. No Brasil, fundos de pensão, regimes próprios de previdência social (RPPS) e veículos de investimento de estatais operam sob regulamentação específica e com estruturas formais de governança.

O economista Renoir Vieira, sócio da Duna Consultoria, explica que “quando se fala em ‘fundos públicos’, muitas vezes se mistura tudo. Na prática, estamos falando de entidades fechadas de previdência complementar, RPPS e veículos de estatais, todos sujeitos a regras claras”.

Ele ressalta que esses fundos podem investir em CDBs, cotas de fundos estruturados e outros instrumentos de crédito, desde que respeitem os limites de concentração e risco definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O problema, segundo analistas, surge quando a exposição ocorre por meio de estruturas intermediárias que diluem o risco real do ativo subjacente. Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, afirma que “os fundos públicos raramente entram diretamente em um banco médio”.

O caminho mais comum, ele explica, é via FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios) e fundos de crédito privado. “Esses permitem diversificação, mas também podem ‘maquiar’ risco quando o lastro não é sólido”, alerta Uarian.

No caso do Banco Master, grande parte da captação junto a fundos ocorreu pela cessão de carteiras de consignados, usadas como lastro para produtos estruturados. Essa combinação de crédito consignado originado em associações, circulação por estruturas financeiras complexas e a participação de fundos ligados ao setor público chamou a atenção dos órgãos de controle.

Uarian destaca que a expectativa implícita de socorro estatal ou cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pode reduzir o rigor na avaliação de risco. “O FGC cobre CDBs até R$ 250 mil, mas não cobre FIDCs ou estruturas mais complexas. No caso do Master, houve investimento em instrumentos sem cobertura plena, o que ampliou as perdas potenciais”, explica.

Vieira ainda lembra que, após grandes escândalos dos anos 2000, as decisões nos fundos se tornaram mais colegiadas, dificultando desvios individuais, mas não eliminando pressões externas.

CPIS Buscam Respostas e Conexões com o “Careca do INSS”

Enquanto as investigações da PF e dos órgãos reguladores avançam, parlamentares da oposição enfrentam resistência para criar uma CPI específica para o Banco Master no Congresso. A estratégia tem sido articular frentes paralelas de apuração, como na CPMI do INSS e na Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado.

Além da cúpula do Congresso, há obstáculos impostos por decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, que restringem o acesso dos parlamentares a provas já reunidas pela Polícia Federal. Membros da CPMI do INSS planejam convocar diretores do Master e familiares de Daniel Vorcaro para contornar essas restrições ao sigilo bancário, fiscal e telefônico do banqueiro.

Apesar das investigações sobre o INSS e o Banco Master terem origens distintas, parlamentares e investigadores notaram um padrão recorrente: o uso de estruturas associativas, lastreadas em consignados vinculados a benefícios públicos, como base para operações financeiras de grande escala.

As mesmas associações baianas citadas no caso Master, Asteba e Asseba, também são analisadas pela CPMI do INSS. Essa comissão apura descontos associativos irregulares em benefícios previdenciários e investiga se aposentados e pensionistas foram vinculados a associações sem consentimento válido.

No centro dessa frente de apuração está o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Ele é apontado por investigadores e parlamentares como o operador do esquema de intermediação junto ao instituto, atuando na captação de dados, articulação com associações e facilitação de descontos em folha.

A fonte do setor financeiro entrevistada pela Gazeta do Povo é enfática: “É tudo um esquema interligado. O escândalo do Master revela um encadeamento de esquemas, que engloba desde as fraudes do INSS até o crime organizado, já que muitas das operações envolvem lavagem de dinheiro. Se investigar a fundo, poucos vão ficar em pé.”

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