IA Transcreve Fala Instantaneamente, Mas Poder Público Brasileiro Insiste em Taquígrafos
Ferramentas de inteligência artificial (IA) já são capazes de transcrever conversas com precisão e velocidade impressionantes, transformando a forma como lidamos com áudio e vídeo. No entanto, no cenário brasileiro, órgãos como a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) continuam a empregar taquígrafos para registrar em tempo real os debates e sessões, mantendo uma prática secular em paralelo ao avanço tecnológico.
A persistência dos taquígrafos em instituições públicas brasileiras, apesar da eficiência crescente das IAs, levanta questões sobre a adaptação do setor público às novas tecnologias, os custos envolvidos e a real necessidade de manter estruturas tradicionais. A taquigrafia, uma arte de escrita rápida com origens na Antiguidade, ainda é considerada um serviço de alta qualificação e remuneração no serviço público.
Enquanto a tecnologia oferece soluções instantâneas e acessíveis para a transcrição, o ambiente regulatório e as barreiras institucionais do setor público parecem desacelerar a adoção de inovações. A Gazeta do Povo buscou informações sobre os custos e o número de profissionais envolvidos na atividade nos três poderes, mas não obteve resposta até o momento da publicação.
A História Milenar da Taquigrafia e Sua Relevância Atual
A taquigrafia, cujo nome deriva do grego e significa “escrita rápida”, possui raízes que remontam a civilizações antigas. Registros históricos apontam para sistemas rudimentares na Grécia Antiga, mas foi no Império Romano que a prática se consolidou com as chamadas “notas tironianas”, desenvolvidas por Marco Túlio Tiro, um liberto de Cícero, no século I a.C. Essas notas eram um sistema de abreviações e símbolos que permitiam registrar discursos e debates com grande agilidade, uma necessidade premente em um mundo sem gravações eletrônicas.
O princípio da taquigrafia permanece o mesmo ao longo dos séculos: a utilização de um conjunto de sinais, abreviações e métodos específicos para capturar a fala em alta velocidade e convertê-la em texto escrito. Essa habilidade, que exige treinamento e dedicação, continua sendo altamente valorizada no serviço público, onde a precisão e a fidelidade dos registros são cruciais para a documentação oficial de processos legislativos e judiciários.
A complexidade e a exigência da profissão se refletem nas remunerações. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, a folha de pagamento de janeiro de 2026 indica que analistas legislativos com especialização em taquigrafia podem atingir uma remuneração bruta de até R$ 37.594,45. No Senado Federal, cargos de Analista de Registro e Redação Parlamentar podem alcançar R$ 24.152,10 no topo da carreira, enquanto no STF, a remuneração máxima para taquígrafos chega a R$ 19.823,62, conforme resolução de 2023.
Estrutura e Quantitativo de Taquígrafos no Poder Público Brasileiro
A manutenção de equipes de taquigrafia é uma realidade consolidada nos principais órgãos do Poder Legislativo e Judiciário federal. Na Câmara dos Deputados, o portal de transparência revela a existência de 112 profissionais atuando na área de “Taquigrafia”, a maioria vinculada ao Departamento de Taquigrafia, Revisão e Redação. Essa estrutura robusta demonstra o peso da atividade na rotina legislativa.
No Senado Federal, a organização é similar, com 90 cargos de Analista de Registro e Redação Parlamentar. Desses, 61 estão ocupados, indicando que há 29 vagas em aberto para esta especialidade. Já o Supremo Tribunal Federal conta com 8 cargos dedicados à taquigrafia, de acordo com o quadro de pessoal efetivo divulgado pelo tribunal. É importante notar que a comparação direta dos números pode ser imprecisa, pois os dados da Câmara se referem a “área de atuação”, enquanto Senado e STF apresentam “quadros de cargos”.
Apesar da disponibilidade de tecnologias de transcrição automática, a presença desses profissionais em órgãos públicos sugere que a demanda por seus serviços continua alta. A valorização salarial e a existência de concursos públicos para a área reforçam a percepção de que a taquigrafia ainda é vista como uma carreira essencial e bem remunerada no serviço público brasileiro.
Avanço da Inteligência Artificial na Transcrição de Áudio
Paralelamente à manutenção das estruturas tradicionais, o campo da inteligência artificial tem presenciado avanços significativos em softwares de reconhecimento automático de fala (ASR, na sigla em inglês). Essas ferramentas, que já são rotineiras em smartphones e diversas aplicações, operam convertendo áudio em texto com uma precisão cada vez maior e em tempo real.
Os sistemas modernos de transcrição automática oferecem recursos sofisticados, como pontuação automática, identificação de diferentes oradores, marcação temporal para sincronizar o texto com o áudio, e a capacidade de aprender vocabulários personalizados. Essa evolução tecnológica abre um leque de possibilidades para otimizar processos em diversas áreas, desde o atendimento ao público e reuniões corporativas até setores como mídia, educação, saúde e, claro, os próprios serviços públicos.
As perspectivas para o futuro da transcrição de áudio impulsionada por IA são de expansão contínua. À medida que os algoritmos se tornam mais precisos, rápidos e capazes de lidar com nuances da linguagem, como sotaques, ruídos de fundo, falas simultâneas e contextos específicos, a tendência é que essas ferramentas se tornem ainda mais integradas ao cotidiano. O suporte multilíngue e a adaptação a domínios específicos são áreas de desenvolvimento ativo, prometendo ampliar ainda mais o alcance e a utilidade dessas tecnologias.
Barreiras Institucionais e a Lenta Adaptação do Setor Público
Apesar do potencial transformador da inteligência artificial, a incorporação dessas tecnologias no serviço público brasileiro enfrenta desafios significativos. Ana Paula Bertolin, mestre em Administração e professora da PUC-PR, aponta que as dificuldades do setor público em acompanhar inovações tecnológicas estão intrinsecamente ligadas a barreiras institucionais e processuais.
Ao contrário do setor privado, onde a agilidade é frequentemente um diferencial competitivo, o Estado opera sob um arcabouço de normas e etapas formais que naturalmente tornam os processos de mudança mais lentos. A necessidade de licitações, análises jurídicas detalhadas, planejamento orçamentário rigoroso e a constante exigência de transparência e controle público criam um ambiente onde a adoção de novas tecnologias demanda tempo e atenção meticulosa.
“Esses mecanismos são fundamentais para garantir o uso adequado dos recursos públicos, mas acabam tornando o processo mais lento”, explica Bertolin. Além das questões processuais, a gestão de pessoas também representa um entrave. Muitas instituições públicas lidam com limitações para investir em capacitação de seus servidores, enfrentam a falta de reposição de quadros e mantêm carreiras cujas estruturas nem sempre acompanham a velocidade das transformações tecnológicas.
A Persistência da Habilidade Humana em Meio à Automação
Profissionais experientes da área de taquigrafia, com décadas de atuação, defendem que a inteligência artificial, embora avançada, ainda não representa uma substituta imediata para a complexidade do registro de discursos e debates. Para eles, a tecnologia pode atuar como uma ferramenta de apoio valiosa, mas ainda encontra limitações práticas significativas que justificam a manutenção da expertise humana.
Maria Adelina Bastos de Azevedo, professora e taquígrafa com vasta experiência, inclusive no setor privado, é categórica ao afirmar que a IA não superará a taquigrafia. Ela ressalta a versatilidade da taquigrafia como ferramenta essencial em diversos contextos, que vão além dos concursos públicos, abrangendo audiências, seminários, reuniões empresariais e atendimentos profissionais. “Jamais a inteligência artificial vai ultrapassar a taquigrafia. A taquigrafia é uma grande ferramenta para qualquer tipo de setor, útil muito além dos concursos públicos, em audiências, seminários, reuniões empresariais e até atendimentos profissionais”, declara Maria Adelina, 80 anos.
Eduardo Trevisan Duarte, professor e taquígrafo com passagens pelo Judiciário e pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre, corrobora essa visão. Ele aponta que a IA “não pega tudo”, especialmente em situações que envolvem ruído ambiente, falas simultâneas ou ambiguidades inerentes à linguagem humana. Trevisan ilustra com exemplos de transcrições automáticas que resultaram em distorções absurdas, como a substituição de “o deputado foi interpelado no avião” por “o deputado foi atropelado no avião”, evidenciando a necessidade de supervisão e revisão humana.
Concursos Públicos e a Valorização Contínua da Profissão
A demanda por taquígrafos não se restringe às grandes capitais ou aos órgãos federais. A profissão continua a ser um campo fértil para concursos públicos em diversas esferas do serviço público, indicando uma valorização contínua da especialidade. Um exemplo recente é o edital de 2025 da Assembleia Legislativa de Rondônia, que incluiu a vaga de “Analista Legislativo – Especialidade Taquigrafia”, com salários que variam entre R$ 6.503,55 e R$ 24.078,42, dependendo do cargo.
Na esfera municipal, a Câmara de Vereadores de São Paulo abriu concurso em 2023 para “Técnico Legislativo – Taquigrafia”, com prova prática realizada em 2024. Esses concursos demonstram que, mesmo com o avanço das tecnologias de IA, a necessidade de profissionais qualificados para o registro preciso e fiel de debates públicos e administrativos persiste.
A estabilidade oferecida pelo serviço público, com a garantia de permanência no cargo após três anos de efetivo exercício e a possibilidade de demissão apenas em casos de falta grave, adiciona um elemento de segurança para os profissionais. Contudo, essa mesma rigidez do sistema pode ser um dos fatores que contribuem para a lentidão na adaptação da máquina pública a novas tecnologias e processos de trabalho mais dinâmicos.
O Equilíbrio entre Eficiência Tecnológica e Segurança Institucional
A incorporação de ferramentas de inteligência artificial no setor público, embora promissora para aumentar a eficiência em tarefas repetitivas e otimizar fluxos de trabalho, exige uma abordagem cautelosa e estratégica. A preservação institucional e a segurança da informação são pilares fundamentais da administração pública, o que demanda um processo de adoção tecnológica que seja responsável e bem governado.
“As ferramentas tecnológicas contribuem para aumentar a eficiência em tarefas repetitivas. O desafio está em incorporar essas soluções de forma responsável, garantindo governança e supervisão técnica”, afirma Ana Paula Bertolin. Isso implica não apenas a escolha das tecnologias mais adequadas, mas também o investimento em capacitação dos servidores para utilizá-las de forma eficaz e segura, além da implementação de protocolos claros para a gestão e o uso dos dados coletados.
A questão central reside em encontrar um equilíbrio entre a agilidade e os potenciais ganhos de eficiência proporcionados pela IA e a necessidade de manter a precisão, a fidelidade e a segurança dos registros públicos. Enquanto a tecnologia avança a passos largos, o setor público brasileiro navega por um processo de adaptação mais gradual, ponderando os benefícios e os riscos para garantir que a inovação sirva aos interesses da sociedade de forma íntegra e segura.
O Futuro da Transcrição: IA como Ferramenta de Apoio, Não Substituição?
A discussão sobre a inteligência artificial e a taquigrafia no serviço público brasileiro aponta para um cenário futuro onde a tecnologia e a expertise humana podem coexistir e se complementar. A IA, com sua capacidade de processamento rápido e escalabilidade, pode assumir tarefas de transcrição inicial, identificação de falantes e até mesmo a geração de rascunhos de atas, liberando os taquígrafos para se dedicarem a tarefas de maior complexidade e nuance.
Profissionais experientes argumentam que a supervisão humana continuará sendo indispensável para garantir a precisão e a integridade dos registros, especialmente em contextos que demandam interpretação contextual, correção de ambiguidades e a garantia de que a essência do debate seja preservada. A capacidade de discernir a intenção do orador, capturar o tom e o contexto de uma declaração, e assegurar a fidelidade absoluta são habilidades que, por enquanto, permanecem no domínio da inteligência humana.
Portanto, a pergunta que paira não é se a IA substituirá os taquígrafos, mas sim como essas duas forças podem convergir para criar um sistema de registro mais eficiente, preciso e seguro. A adaptação do setor público a essa nova realidade dependerá de investimentos em tecnologia, capacitação de pessoal e uma revisão contínua dos processos para incorporar as inovações de forma estratégica e responsável, garantindo a qualidade e a confiabilidade da informação pública.