Ibovespa em Alta: Recuperação Impulsionada e Desafios Internos
O Ibovespa, principal índice da bolsa de valores brasileira, registrou uma notável valorização nesta segunda-feira, superando a marca dos 182 mil pontos. A recuperação foi impulsionada principalmente pela performance dos papéis da Vale, em um cenário de ajustes nos mercados globais.
Investidores domésticos e internacionais monitoram de perto os desdobramentos econômicos e políticos, com a Petrobras penalizada pela queda do petróleo e os grandes bancos operando em alta. A movimentação reflete a complexa interação entre fatores macroeconômicos e o desempenho de setores chave.
A sessão acontece em um dia de abertura do ano legislativo e judiciário no Brasil, enquanto o exterior digere uma forte liquidação de metais preciosos e aguarda resultados corporativos. As informações são de análise de mercado e agências de notícias como Reuters.
Cenário Global: Metais Preciosos e o Impacto da Indicação ao Fed
Os mercados globais foram marcados por uma forte liquidação de metais preciosos, como ouro e prata, além do bitcoin, que registraram quedas expressivas. O ouro chegou a despencar quase 10% e a prata recuou até 16%, ampliando a queda recorde de 26% vista na sexta-feira. Esse movimento de venda é atribuído, em grande parte, à indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos.
A percepção dos investidores é que Warsh adota uma postura mais “hawkish”, ou seja, mais inclinada a políticas monetárias restritivas, com foco no controle da inflação e na redução do balanço patrimonial do banco central. Tal cenário tende a fortalecer o dólar e aumentar o custo de oportunidade de ativos que não rendem juros, como os metais preciosos e as criptomoedas, diminuindo seu apelo como proteção contra a volatilidade.
Especialistas observam que a visão de Warsh de reduzir significativamente o balanço patrimonial multibilionário do Fed, que ele considera distorcer as finanças da economia, pode apertar as condições financeiras e dificultar a busca por juros de curto prazo mais baixos. Essa incerteza sobre a futura política monetária americana gerou cautela e alívio mistos em Wall Street, com a expectativa de que Warsh não promova cortes de juros de forma abrupta, mas sim uma política criteriosa e baseada em dados.
Petróleo e Geopolítica: Tensões no Oriente Médio e Seus Reflexos
O preço do petróleo operou em forte baixa nesta segunda-feira, desvalorizando-se quase 5%, após sinais de um possível abrandamento nas tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e o Irã. O presidente Donald Trump afirmou que o Irã estava “conversando seriamente” com Washington, sinalizando uma potencial redução da escalada de conflitos na região. Essa notícia aliviou as preocupações que haviam levado o petróleo a atingir as maiores cotações em seis meses.
A queda da commodity impactou diretamente as ações da Petrobras (PETR4) na bolsa brasileira, que operaram em forte baixa. No entanto, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) divulgou que a produção de petróleo do Brasil em 2025 somou 3,770 milhões de barris por dia, um aumento de 12,3% em relação a 2024, impulsionada por novas unidades no pré-sal e atingindo um novo recorde. A produção de gás natural também cresceu 17% no período.
Em contraste, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+) concordou em manter sua produção inalterada para março, mesmo com os preços do petróleo bruto em patamares elevados. A dinâmica entre oferta, demanda e o cenário geopolítico continua sendo um fator crucial para os mercados de energia e, consequentemente, para empresas do setor.
Desempenho dos Mercados Internacionais: EUA, Europa e Ásia
Apesar da recuperação do Ibovespa, os mercados internacionais apresentaram um quadro misto, com a maioria dos índices futuros dos EUA operando em baixa, pressionados pela fuga de ativos de maior risco e pela instabilidade gerada pela liquidação de metais preciosos. Os investidores recalibram suas expectativas para a política monetária americana, aguardando o mais aguardado relatório sobre o mercado de trabalho dos EUA, o payroll, que será divulgado esta semana.
Em Wall Street, os principais índices de ações avançavam na parte da tarde, absorvendo a liquidação de commodities e aguardando uma semana intensa de resultados corporativos. Mais de 100 empresas do S&P 500 devem divulgar seus balanços, incluindo gigantes como Amazon e Alphabet. A temporada de balanços tem sido forte, mas houve vendas expressivas após algumas divulgações, como a da Microsoft, e a Nvidia recuou em um investimento bilionário prometido na OpenAI, estressando o setor de tecnologia.
Na Europa, o índice STOXX 600 registrou leves ganhos, com as perdas em ações ligadas a commodities sendo compensadas por setores defensivos, como o de bens de consumo básico. O Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra se reunirão na quinta-feira, mas não são esperadas alterações na política monetária. Na Ásia-Pacífico, os mercados fecharam em baixa, com os índices sul-coreanos liderando as perdas, enquanto dados privados mostraram que a atividade industrial da China expandiu em janeiro, superando expectativas, embora em contraste com o PMI oficial.
Atividade Industrial Global em Destaque
A atividade manufatureira dos Estados Unidos cresceu em janeiro pela primeira vez em um ano, impulsionada por uma forte recuperação das novas encomendas. O PMI de manufatura do Instituto de Gestão de Fornecimento subiu para 52,6, indicando crescimento no setor. No entanto, o setor ainda enfrenta desafios, como o aumento dos preços das matérias-primas devido a tarifas de importação e pressões nas cadeias de abastecimento.
Na China, o Índice de Gerentes de Compras (PMI) da RatingDog China, compilado pela S&P Global, subiu de 50,1 em dezembro para 50,3 em janeiro de 2026. A expansão foi impulsionada pela recuperação das encomendas de exportação e pelo crescimento acelerado da produção, elevando as contratações ao nível mais alto em três meses. Esses dados contrastam com o PMI oficial chinês, que mostrou hesitação na atividade industrial, o que pode ser explicado por diferenças na cobertura da pesquisa e nos perfis dos entrevistados.
Boletim Focus e Indicadores Nacionais: Inflação, Juros e PIB
No cenário doméstico, o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central, trouxe novas projeções para os principais indicadores econômicos. A projeção para o IPCA (inflação) para 2026 recuou para 3,99%, ante 4,00% na semana anterior, sinalizando uma melhora nas expectativas de controle inflacionário. Para os anos seguintes, as projeções se mantiveram estáveis em 3,80% para 2027 e 3,50% para 2028 e 2029.
Em relação à Selic, a taxa básica de juros, a projeção para 2026 permaneceu em 12,25%, sem alterações. Para 2027, 2028 e 2029, as expectativas também se mantiveram estáveis em 10,50%, 10% e 9,50%, respectivamente. Esse cenário sugere que o mercado ainda prevê um patamar de juros relativamente elevado no médio prazo, embora com uma tendência de queda gradual.
As projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2026 permaneceram em 1,80%, sem mudanças. Para os anos subsequentes, as expectativas para o crescimento econômico também se mantiveram inalteradas, em 1,80% para 2027 e 2,00% para 2028 e 2029. Quanto ao dólar, as projeções para 2026 ficaram em R$ 5,50, sem alterações, enquanto para 2027 houve uma leve redução de R$ 5,51 para R$ 5,50. Para 2028 e 2029, o câmbio projetado se manteve em R$ 5,52 e R$ 5,57, respectivamente.
Outro indicador relevante, o IPC-S da quarta quadrissemana de janeiro de 2026, subiu 0,59% e acumula alta de 4,60% nos últimos 12 meses, reforçando a importância do monitoramento da inflação no país.
Dólar e Juros Futuros no Brasil: Volatilidade e Expectativas
O dólar comercial voltou a subir diante do real nesta segunda-feira, após uma queda na véspera, alinhando-se ao movimento de valorização da moeda norte-americana no exterior. O índice DXY, que compara o dólar com uma cesta de moedas fortes, registrou alta, refletindo a cautela global e as expectativas em torno da política monetária do Federal Reserve. A cotação de venda do dólar no Brasil alcançou R$ 5,248, com máximas de R$ 5,279 ao longo do dia.
A valorização do dólar no mercado interno, apesar de algumas perdas da moeda americana ante pares do real no exterior em certos momentos, pode ser explicada pela incerteza sobre o ritmo de corte de juros no Brasil e pela percepção de risco global. A indicação de Kevin Warsh para o Fed, com sua postura mais “hawkish”, tende a fortalecer o dólar internacionalmente, exercendo pressão sobre moedas emergentes como o real.
Os juros futuros brasileiros operaram mistos, com inclinação na curva longa, ou seja, taxas de juros de prazos mais longos subindo. Isso indica que o mercado precifica uma maior cautela em relação à inflação e ao cenário fiscal no futuro. As taxas de DI Futuro para vencimentos mais longos, como DI1F33 e DI1F35, registraram leves altas, enquanto os vencimentos mais curtos apresentaram pequenas quedas ou estabilidade. Essa inclinação reflete a percepção de risco e a necessidade de prêmios maiores para investimentos de longo prazo em um ambiente de incertezas.
Destaques Corporativos e Setoriais: Movimentações no Mercado Brasileiro
O mercado corporativo brasileiro também apresentou movimentações significativas. A Sabesp (SBSP3) anunciou a intenção de fazer uma oferta pública para aquisição das ações da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) ao preço de R$49,46 por papel. Essa OPA visa adquirir até a totalidade das ações ordinárias da Emae, representando uma importante consolidação no setor de saneamento e energia do estado de São Paulo.
No setor de agronegócio, a Cargill informou que manifestantes bloqueiam a portaria de sua unidade em Santarém (PA), impedindo a entrada e saída de caminhões com grãos. A empresa ressaltou que a pauta dos manifestantes, relacionada a obras no Rio Tapajós, não tem ingerência da companhia. Esse tipo de interrupção logística pode gerar impactos na cadeia de escoamento de grãos, um ponto sensível para o agronegócio brasileiro.
Outro destaque foi o pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor para a Fictor Holding e Fictor Invest, com compromissos que somam aproximadamente R$4 bilhões. A decisão busca equilibrar a operação e assegurar o pagamento dos compromissos financeiros, principalmente com os sócios participantes. A crise de liquidez, originada após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, exemplifica os desafios enfrentados por algumas empresas no atual ambiente econômico.
Outros Setores e Indicadores
O setor automotivo, por sua vez, registrou uma queda de 39% nos emplacamentos de veículos leves em janeiro na comparação com dezembro, embora tenha ficado praticamente estável em relação ao mesmo mês do ano anterior. A consultoria K.Lume destacou que janeiro e fevereiro são frequentemente os piores meses do ano para o setor, mas o crescimento da média diária de emplacamentos em janeiro de 2026 foi menor do que o visto em 2025, indicando um início de ano com “menor força”.
A Refinaria de Petróleos de Manguinhos (Refit) comunicou a interdição total de suas instalações no Rio de Janeiro pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A ANP justificou a medida por identificar “risco grave e iminente” devido a falhas de segurança de processo, incluindo sistemas de combate a incêndio e gerenciamento de emergências. A Refit protocolou pedido de suspensão da decisão, buscando o restabelecimento de suas operações.
No cenário internacional corporativo, a Oracle planeja levantar entre US$45 bilhões e US$50 bilhões em 2026 para expandir sua infraestrutura de serviços em nuvem, atendendo à crescente demanda de grandes clientes como AMD, Meta, NVIDIA, OpenAI e TikTok. Essa movimentação reflete o forte investimento em tecnologia e inteligência artificial que tem impulsionado o mercado nos últimos anos.
Perspectivas para a Semana: Balanços, Bancos Centrais e Agendas Políticas
A semana promete ser intensa para os mercados, com uma agenda recheada de eventos que podem influenciar o Ibovespa e os ativos globais. Além da continuidade da temporada de balanços corporativos nos Estados Unidos, que trará resultados de empresas de peso como Alphabet e Amazon, os investidores estarão atentos às decisões de política monetária do Banco Central Europeu e do Banco da Inglaterra, embora não se esperem grandes mudanças.
No Brasil, a abertura do ano legislativo no Congresso e do ano judiciário no Superior Tribunal Federal (STF) trará à tona discussões políticas e pautas que podem impactar o ambiente de negócios. A interação entre a dívida elevada e choques inflacionários torna mais provável que o limite fiscal passe a restringir a política, amplificando a inflação, conforme estudo recente. Temas como combate a facções criminosas e defesa dos direitos trabalhistas, com a necessidade de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1, também estarão em destaque na agenda política.
A XP Investimentos, por sua vez, elevou sua projeção para o Ibovespa a 190 mil pontos em 2026, com um cenário otimista apontando para 235 mil pontos, demonstrando confiança no potencial de valorização da bolsa brasileira. Essas projeções, no entanto, dependem da evolução do cenário macroeconômico global, da estabilidade política interna e da capacidade das empresas de entregar resultados sólidos.
A volatilidade nas commodities, as decisões de bancos centrais e os desenvolvimentos geopolíticos continuarão a ser monitorados de perto, moldando o humor dos investidores e a direção dos mercados nas próximas sessões. A capacidade de absorver esses choques e reagir a dados econômicos será crucial para a manutenção do ritmo de alta do Ibovespa.