O avanço do Chega e o impacto na política portuguesa e na comunidade brasileira

A corrida eleitoral em Portugal ganhou um novo contorno com a passagem de André Ventura, candidato do partido de direita radical Chega, para o segundo turno das eleições presidenciais. Este fato, inédito em 40 anos, marca um momento crucial para o cenário político português.

Mesmo com analistas apontando poucas chances de vitória para Ventura, sua presença na rodada final é vista como uma vitória estratégica para a direita radical. O movimento não apenas garante uma plataforma de visibilidade sem precedentes, mas também projeta uma influência crescente nas pautas nacionais.

Esse fortalecimento, segundo especialistas, pode ter um impacto significativo, especialmente na comunidade brasileira residente no país. Há temores de um endurecimento nas políticas migratórias e um aumento da xenofobia, conforme informações divulgadas pela BBC Brasil.

O Trunfo da Exposição e Legitimidade

Apesar dos altos índices de rejeição que André Ventura enfrenta, uma sondagem da Universidade Católica Portuguesa indica que 64% dos eleitores jamais votariam nele no segundo turno. Contudo, sua ida à etapa final representa um ganho estratégico inegável para o Chega.

A principal razão é a visibilidade. Ao longo da campanha para o segundo turno, Ventura terá um palco nacional para expor suas ideias e propostas, alcançando um público ainda maior. Essa exposição prolongada contribui para a normalização de seus discursos, muitas vezes radicais.

Além disso, no segundo turno, os eleitores escolhem entre apenas dois nomes. Isso provavelmente resultará na maior votação da carreira política de Ventura, mesmo em caso de derrota, o que representa um fortalecimento significativo para o partido.

António Costa Pinto, professor da Universidade Lusófona de Lisboa, observa que se Ventura conquistar entre 30% e 35% dos votos, a agenda do Chega ganhará peso. Isso consolidaria a percepção de que o partido é “um movimento em ascensão” e poderia tornar alianças políticas com a direita radical mais aceitáveis no futuro.

Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, reforça que “mesmo sem vencer, um Chega fortalecido tende a empurrar o debate político para a direita e a pressionar por leis mais duras sobre imigração e ordem pública”. Assim, a ida do Chega ao 2º turno é, de fato, um trunfo para a direita radical portuguesa, redefinindo o jogo político.

O Cenário Político Português e a Ascensão do Chega

O Chega, fundado em 2019, expandiu sua base de apoio para mais de 20% do eleitorado. Seu discurso foca na rejeição à corrupção das “elites” políticas tradicionais, na defesa de políticas de segurança mais rígidas e no combate à imigração “descontrolada”.

Nas últimas eleições legislativas, o partido conquistou 60 cadeiras no Parlamento, tornando-se a segunda maior força política do país, atrás apenas do governista Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita. Este crescimento ocorre em meio a uma forte instabilidade política em Portugal.

Desde 2021, o país realizou três eleições legislativas. O atual governo de centro-direita não obteve maioria parlamentar. Para aprovar seus projetos, ele depende ora do apoio da direita radical, ora do Partido Socialista (PS). Este equilíbrio precário destaca a importância da figura presidencial.

O regime político português é um semipresidencialismo de matriz parlamentar. O presidente, com mandato de cinco anos, exerce um “poder moderador”, como explica Joana Ricarte, professora da Universidade de Coimbra. Ele pode vetar leis, empossar o primeiro-ministro e, em casos extremos, dissolver o Parlamento.

A eleição do novo presidente, que substituirá Marcelo Rebelo de Sousa, será crucial para o país. A expectativa para o segundo turno é de uma campanha altamente polarizada, onde a direita radical em Portugal buscará consolidar ainda mais sua influência.

Portugal e a Crise de Expectativas: Salários, Custo de Vida e Imigração

O avanço da extrema-direita em Portugal está intrinsecamente ligado a uma crise estrutural de expectativas, conforme analisa o cientista político Riccardo Marchi, do Instituto Universitário de Lisboa. Após a entrada na União Europeia em 1986, o país viveu um ciclo de crescimento impulsionado por fundos europeus. Contudo, este ciclo se esgotou.

A classe média, que experimentou ascensão no final do século 20, hoje vê seus filhos, mesmo com formação superior, incapazes de manter um padrão de vida estável, muitas vezes tendo de emigrar. Embora a economia portuguesa tenha crescido mais que a média da UE desde a pandemia, os salários continuam baixos.

O salário mínimo, por exemplo, é de pouco mais de 1.000 euros por mês, quase 30% inferior ao da vizinha Espanha e menos da metade do da Alemanha. Ao mesmo tempo, o custo de vida em Portugal continua a subir. No ano passado, o preço das casas aumentou cerca de 17%, contra uma média de pouco mais de 5% na UE.

Marchi conclui que “Portugal deixou de ser um país barato, mas continuou a pagar salários baixos”. Este descompasso econômico é um terreno fértil para discursos que culpam “elites” ou “estrangeiros” pelos problemas, fortalecendo a direita radical portuguesa.

Outro fenômeno de grande impacto é o aumento acelerado da imigração. O número de estrangeiros em Portugal saltou de 592 mil em 2019 para mais de 1,5 milhão hoje. Entre eles, estão cerca de 500 mil brasileiros, em um país com menos de 11 milhões de habitantes.

Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, aponta que “a sociedade portuguesa, do ponto de vista cultural, administrativo e social, ainda não conseguiu processar esse aumento tão grande e rápido no número de imigrantes”. Essa situação criou divisões que a extrema-direita está aproveitando politicamente.

O Impacto para a Comunidade Brasileira e o Debate Migratório

O fortalecimento da direita radical já se reflete em mudanças legislativas. Em 2025, a coligação governista, a Iniciativa Liberal e o Chega aprovaram no Parlamento um endurecimento da legislação migratória por meio de mudanças na Lei de Estrangeiros.

A nova lei restringiu o visto de trabalho a profissionais qualificados. Também eliminou a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem no país como turistas e endureceu as regras de reagrupamento familiar. Para este ano, o Parlamento deve tentar aprovar uma reforma da Lei da Nacionalidade.

Essa reforma deverá tornar mais rigorosos os critérios de acesso à nacionalidade portuguesa, com uma primeira versão da proposta já tendo sido vetada pelo presidente. As medidas geram preocupação entre as comunidades estrangeiras.

Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, a associação mais antiga de imigrantes brasileiros no país, afirma que a comunidade brasileira teme não apenas o aperto das leis. Há também preocupação com um aumento da discriminação e xenofobia.

Isso se deve à “normalização do discurso contra estrangeiros na esfera pública”. Embora Ventura afirme que brasileiros que “contribuem” são bem-vindos e que o problema principal seria a imigração do Sul da Ásia, o alerta de Costa é mais amplo.

“A partir do momento em que o discurso de exclusão e discriminação contra determinados grupos passa a ser politizado e normalizado no debate público, as pessoas sentem-se autorizadas a adotar comportamentos antes socialmente impensáveis”, explica Costa.

Ela acrescenta que “ataques xenófobos e racistas tornam-se mais frequentes, contra todos”. Há, inclusive, relatos de aumento no número e na violência de ataques xenófobos contra membros da comunidade brasileira, como um caso de um menino que teve os dedos decepados na escola.

Este cenário sublinha a importância da ida do Chega ao 2º turno e a ascensão da direita radical em Portugal para a vida dos imigrantes. O impacto vai além das urnas, afetando o cotidiano e a segurança.

António Costa Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa, ressalta que o fortalecimento da extrema-direita não é uma anomalia portuguesa. É parte de uma tendência europeia e global mais ampla, na qual o Chega se apoia, mantendo relações com partidos como o Vox na Espanha e a Reunião Nacional na França.

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro já manifestou apoio a Ventura no passado. Costa Pinto conclui que “a extrema-direita não precisa vencer eleições para ser bem-sucedida. Resultados expressivos já são suficientes para legitimar temas, deslocar o centro do debate e pressionar partidos tradicionais a adotar posições mais duras.”

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