Indústria brasileira enfrenta desaceleração em 2025 com crescimento de 0,6% impulsionado por juros altos
A indústria brasileira encerrou o ano de 2025 com um crescimento modesto de apenas 0,6%, um resultado que reflete um período de intensa desaceleração da atividade fabril. Essa performance tímida é amplamente atribuída à persistência dos juros elevados, que impactaram diretamente as decisões de investimento das empresas e o poder de consumo das famílias ao longo do ano.
Os dados, divulgados nesta terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Industrial Mensal, revelam um cenário desafiador para o setor produtivo nacional. A produção industrial, inclusive, registrou um recuo de 1,2% em dezembro frente a novembro, aprofundando uma sequência de resultados fracos observada nos últimos meses de 2025.
Este menor dinamismo do setor é um alerta para a economia, evidenciando como a política monetária restritiva pode frear o ímpeto de recuperação. O Banco Central, que manteve a taxa Selic em 15% por cinco reuniões consecutivas do Comitê de Política Monetária (Copom), é apontado como o principal responsável por esse freio, conforme informações divulgadas pelo IBGE.
Um Crescimento Tímido em Meio a Desafios Econômicos Persistentes
O crescimento de apenas 0,6% da indústria brasileira em 2025, conforme o IBGE, marca o terceiro ano consecutivo de alta, porém em um ritmo cada vez menor. Em 2024, a expansão havia sido de 3,1%, e em 2023, de 0,1%. Essa trajetória descendente no ritmo de crescimento indica uma dificuldade crescente do setor em ganhar fôlego e se consolidar após os impactos da pandemia e as flutuações econômicas globais.
Apesar do avanço, a produção industrial ainda se encontra em um patamar delicado. Embora esteja 0,6% acima do nível pré-pandemia, registrado em fevereiro de 2020, o setor segue significativamente aquém de seu pico histórico. A produção atual está 16,3% abaixo do recorde alcançado em maio de 2011, evidenciando uma recuperação incompleta e os desafios estruturais que a indústria brasileira enfrenta há mais de uma década.
O cenário de desaceleração se tornou mais evidente nos últimos meses de 2025. Em dezembro, o recuo de 1,2% na produção industrial aprofundou uma sequência de resultados fracos que se iniciou em setembro, período em que a indústria acumulou uma perda de 1,9%, registrando a maior queda mensal desde julho de 2024. Mesmo com um avanço de 0,4% na comparação com dezembro do ano anterior, interrompendo dois meses consecutivos de retração, a média móvel trimestral permaneceu negativa, em -0,5%, sinalizando a fragilidade da recuperação.
Juros Altos: O Principal Vilão da Desaceleração Industrial
A explicação para o desempenho modesto da indústria é clara, segundo André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE. “Esse menor dinamismo guarda uma relação importante com a política monetária mais restritiva, especialmente marcada pelo aumento na taxa de juros, o que impacta diretamente as decisões de investimento por parte das empresas e de consumo por parte das famílias”, explica Macedo.
Os juros elevados, mantidos em 15% por cinco reuniões consecutivas do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atuaram como um freio significativo para o avanço da produção industrial e do consumo. Taxas de juros altas encarecem o crédito para empresas, tornando investimentos em expansão, modernização ou novas tecnologias menos atrativos. Para as famílias, o crédito mais caro e a percepção de incerteza econômica levam à redução do consumo, especialmente de bens duráveis e de maior valor.
Contudo, uma luz no fim do túnel parece surgir no horizonte. Na ata da última reunião do Copom, divulgada mais cedo, a autoridade monetária sinaliza que começará a cortar a Selic a partir de março. Essa moderação, embora gradual, pode representar um alívio para o setor produtivo, estimulando o crédito e o investimento, e potencialmente reaquecendo a demanda interna nos próximos meses, o que é crucial para a indústria brasileira.
Setores em Destaque: Quem Puxou e Quem Freou o Crescimento
O crescimento de 0,6% da indústria brasileira em 2025 não foi homogêneo, sendo sustentado por apenas duas das quatro grandes categorias econômicas e por pouco menos da metade dos produtos pesquisados pelo IBGE. Essa concentração de resultados positivos em poucas áreas evidencia a fragilidade da recuperação geral do setor.
As principais contribuições positivas vieram das indústrias extrativas, que registraram uma alta expressiva de 4,9% ao longo do ano. Esse desempenho foi impulsionado, em grande parte, pela produção de petróleo e minério de ferro, que se beneficiaram da demanda externa e de investimentos específicos no setor. O setor de produtos alimentícios também contribuiu positivamente, avançando 1,5%, um segmento geralmente mais resiliente devido à demanda essencial por seus produtos.
Na outra ponta, o setor de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis teve uma queda significativa de 5,3% em 2025, exercendo a maior influência negativa sobre a média da indústria. Essa retração pode estar relacionada a fatores como a volatilidade dos preços internacionais do petróleo e a demanda interna por combustíveis. Já a indústria de transformação, que é mais sensível às condições de crédito e ao custo do capital, encerrou o ano com um recuo de 0,2%, reforçando o impacto direto dos juros elevados sobre a atividade produtiva e a capacidade de investimento das empresas.
André Macedo reforça a disparidade: “O setor extrativo, especialmente impulsionado pelo petróleo, é o principal destaque positivo. É o que garante o avanço do total do setor industrial, ao passo que a indústria de transformação teve uma perda de 0,2% no ano de 2025”. Essa análise sublinha como o desempenho da indústria extrativa mascarou um cenário mais desafiador para a parcela mais diversificada e empregadora do setor industrial.
Grandes Categorias Econômicas: Desempenho Desigual no Ano
A análise por grandes categorias econômicas revela um panorama de desempenho desigual na indústria brasileira em 2025, sublinhando os efeitos da política monetária restritiva e das condições de mercado. Os bens de consumo duráveis, por exemplo, conseguiram um crescimento de 2,5% no ano. Esse avanço, embora positivo, pode ser visto como um reflexo de uma demanda reprimida ou de nichos específicos, mas ainda em um contexto de crédito caro.
Os bens intermediários, que são insumos utilizados na produção de outros bens, avançaram 1,5%. Esse crescimento foi sustentado por segmentos específicos da cadeia produtiva, como a produção de matérias-primas para a construção civil ou para a indústria alimentícia. O desempenho dessa categoria é fundamental, pois indica a capacidade de produção de outros setores da economia.
Em contrapartida, os bens de consumo semi e não duráveis, que englobam desde vestuário até alimentos processados, recuaram 1,7%. Essa queda é um indicativo direto da redução do poder de compra das famílias e da cautela no consumo diante dos juros altos e da inflação. Paralelamente, os bens de capital, que representam máquinas e equipamentos utilizados para a produção, caíram 1,5%, sinalizando uma retração nos investimentos das empresas e na produção voltada para o aumento da capacidade produtiva do país. A diminuição nos bens de capital é particularmente preocupante, pois impacta a produtividade futura e a competitividade da indústria.
Dezembro de 2025: Uma Queda Generalizada e Preocupante
O último mês de 2025 trouxe um cenário ainda mais sombrio para a indústria brasileira. A queda de 1,2% em dezembro foi disseminada, atingindo todas as grandes categorias econômicas e 17 dos 25 ramos pesquisados pelo IBGE. Essa abrangência da retração indica uma dificuldade generalizada em manter o ritmo de produção no final do ano.
O principal impacto negativo veio do setor de veículos automotores, que despencou 8,7% no mês. Essa foi a maior queda para essa atividade desde maio de 2024, quando havia recuado 11,6%. André Macedo enfatiza a gravidade: “Há um movimento de perda generalizada dentro desta atividade, com queda em automóveis, caminhões, autopeças”. A indústria automobilística, sendo um termômetro importante da economia e altamente sensível ao crédito, foi duramente atingida pelos juros altos e pela redução do consumo.
Outros setores também contribuíram para o resultado negativo de dezembro. Produtos químicos registraram uma queda de 6,2%, enquanto a metalurgia recuou 5,4%. Além dos fatores econômicos, Macedo explicou que paralisações e férias coletivas em diversos setores industriais também contribuíram para o resultado negativo do mês, um elemento sazonal que, somado às dificuldades estruturais, intensificou a retração.
Na contramão dessa tendência de queda, o setor de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis avançou 5,4% em dezembro, interrompendo três meses consecutivos de retração. Esse desempenho positivo ajudou a conter uma retração ainda maior da indústria no período, mostrando a resiliência de alguns segmentos mesmo em um ambiente econômico adverso.
Perspectivas para a Indústria Brasileira: Entre Desafios e Sinais de Alívio
O ano de 2025, com seu crescimento pífio de 0,6%, deixa a indústria brasileira em um patamar de cautela e com muitos desafios a serem superados. A dependência de poucos setores para sustentar o avanço geral e a retração da indústria de transformação, mais diversificada e geradora de empregos, são preocupações que persistem. A recuperação incompleta em relação ao pico histórico de 2011 também ressalta a necessidade de políticas de longo prazo para fortalecer o setor.
A sinalização do Banco Central de iniciar cortes na taxa Selic a partir de março de 2026, mesmo que com moderação, acende uma luz de esperança para a indústria. Uma redução nos juros altos pode gradualmente aliviar o custo do crédito, estimulando novos investimentos por parte das empresas e reaquecendo o consumo das famílias. Contudo, a efetividade dessa medida dependerá da velocidade e da magnitude dos cortes, bem como da resposta do mercado e da confiança dos consumidores e investidores.
Para que a indústria brasileira consiga um crescimento mais robusto e sustentável, será crucial não apenas a política monetária, mas também a adoção de medidas que melhorem o ambiente de negócios, promovam a inovação, reduzam o custo Brasil e incentivem a competitividade. A capacidade de o setor se adaptar às novas demandas e tecnologias, juntamente com um cenário macroeconômico mais favorável, será determinante para sua recuperação e para o retorno a patamares de crescimento mais significativos nos próximos anos, impactando positivamente a geração de empregos e a renda nacional.
O Papel Crucial da Indústria no Desenvolvimento Econômico Nacional
Apesar dos desafios e do crescimento modesto em 2025, o setor industrial continua a ser um pilar fundamental para o desenvolvimento econômico do Brasil. Sua relevância transcende os números de produção, impactando diretamente a geração de empregos qualificados, a inovação tecnológica e a balança comercial do país. Uma indústria brasileira forte e dinâmica é essencial para a diversificação da economia e para a redução da dependência de commodities.
Quando a indústria desacelera, os efeitos são sentidos em toda a cadeia produtiva, desde os fornecedores de matérias-primas até o comércio varejista, passando pelos serviços de logística e transporte. A queda nos investimentos em bens de capital, por exemplo, não apenas freia a produção atual, mas também compromete a capacidade de modernização e a competitividade futura das empresas brasileiras no cenário global.
Portanto, o desempenho da indústria em 2025 serve como um alerta para a urgência de políticas coordenadas entre os setores público e privado. É fundamental criar um ambiente que favoreça o investimento, a inovação e a expansão, permitindo que o Brasil supere os obstáculos impostos pelos juros altos e por outras fragilidades estruturais. Somente assim será possível retomar um caminho de crescimento sustentado e garantir que o setor industrial continue a ser um motor de progresso e prosperidade para a nação.