Cães ‘superdotados’ desenvolvem vocabulário ouvindo conversas humanas, uma capacidade cognitiva rara que os aproxima da inteligência de crianças de dois anos.

Uma nova pesquisa revela um fascinante aspecto da inteligência canina, mostrando que alguns cachorros são capazes de aprender novas palavras simplesmente ao escutar pessoas conversando entre si, sem que a comunicação seja direcionada a eles. Essa habilidade sugere uma capacidade cognitiva surpreendente e complexa.

Essa descoberta coloca esses cães em um patamar de aprendizado linguístico comparável ao de crianças na faixa dos dois anos de idade, que muitas vezes expandem seu vocabulário ao observar interações de adultos. Contudo, essa notável aptidão não é comum a todos os animais de estimação.

O estudo, publicado no prestigiado periódico Science e liderado por Shany Dror da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, na Áustria, focou em um grupo específico de animais, conforme as informações divulgadas pela pesquisa.

Quem são os “Aprendizes de Palavras Talentosos”?

Os resultados significativos foram observados apenas em um pequeno subgrupo de cachorros, carinhosamente apelidado de “Aprendizes de Palavras Talentosos”. São cães que não só compreendem comandos básicos, como “senta” ou “dá a patinha”, mas também constroem um extenso vocabulário auditivo.

Esses cães podem assimilar centenas de nomes de objetos, muitas vezes sem treinamento formal. Eles adquirem esse conhecimento durante brincadeiras cotidianas e interações normais com seus tutores, mostrando uma predisposição natural para a linguagem.

O Experimento da “Entreouvida”

Para investigar a capacidade de aprender palavras por meio da “entreouvida”, a equipe da pesquisadora Shany Dror desenvolveu uma série de experimentos. O objetivo era verificar se os cães “talentosos” replicavam a forma como humanos aprendem a língua materna, escutando a comunicação alheia.

Inicialmente, foi aplicado o método tradicional de ensino, onde o tutor apresentava um brinquedo novo, como “o esquilo”, e brincava com o animal. Após a interação, o cachorro passava um tempo sozinho com o objeto, repetindo o processo por quatro dias não consecutivos.

A inovação veio com a variante da “entreouvida”. Nesse cenário, o pet apenas ouvia um diálogo entre duas pessoas, por exemplo, “Olhe, esse aqui é o esquilo” ou “essa aqui é a galinha”. Não havia interação direta com o cachorro sobre o brinquedo.

Um breve diálogo ocorria, com o tutor principal oferecendo o brinquedo a outro membro da família, que interagia com ele e depois o devolvia. Esse método visava simular situações onde a criança apenas escuta a conversa, sem ser o foco direto.

Resultados Surpreendentes e Diferenças Entre os Cães

Os resultados foram notáveis para os dez cães “talentosos” participantes. Na versão de interação direta, a escolha correta do objeto novo aconteceu em pouco mais de 90% dos testes, demonstrando a eficácia do método.

O mais impressionante foi o desempenho na modalidade da “entreouvida”, onde os cães acertaram em pouco mais de 80% dos testes. Era comum que, ao errar, o animal trouxesse o outro brinquedo novo, e não um dos já conhecidos, indicando que a associação entre nome e objeto estava sendo feita.

No entanto, essa mesma capacidade não foi observada em um grupo de dez cães considerados normais, todos da raça Border Collie. Apesar de submetidos ao mesmo protocolo, nenhum deles conseguiu diferenciar os nomes dos brinquedos.

No máximo, esses cães normais pegavam qualquer um dos brinquedos novos, o que é esperado devido à neofilia, o interesse por coisas novas, uma característica comum na espécie canina. Isso reforça a singularidade dos “Aprendizes de Palavras Talentosos”.

Memória e o Futuro da Pesquisa

A pesquisa também testou a memória dos cachorros com facilidade para aprender palavras. Após duas semanas, os animais ainda se lembravam da palavra associada aos novos objetos, confirmando que o aprendizado era genuíno e não apenas uma reação à novidade.

Ainda não está claro o que exatamente possibilita essa capacidade nos cães “talentosos”, uma vez que não é um potencial disponível para todos os animais domésticos. Essa característica, sem dúvida, abre novas portas para o estudo da cognição animal.

Uma das hipóteses é que esses cães sejam animais especialmente atentos ao comportamento e às intenções de seus donos. A capacidade de se colocar mentalmente no lugar dos tutores poderia, assim, estimular o aprendizado indireto ao observá-los conversar, um verdadeiro superpoder canino.

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