O Irã tem sido palco de intensas manifestações populares, impulsionadas por uma severa crise econômica que assola o país. Em uma tentativa de conter a organização e a disseminação de informações sobre esses protestos, o governo iraniano implementou um rigoroso “apagão digital” no início deste ano.
A medida, que inicialmente afetava serviços de telefonia fixa e móvel, escalou rapidamente para um nível inesperado. Agora, o bloqueio de internet consegue atingir até mesmo os serviços de internet via satélite da Starlink, empresa de Elon Musk, desafiando a percepção de que essas redes seriam imunes à censura governamental.
Essa ação sem precedentes tem gerado grande preocupação internacional, dada a sofisticação da tecnologia empregada e o impacto na comunicação da população iraniana, conforme informações divulgadas pelo Miaan Group e IranWire.
A Escalada do “Apagão Digital” no Irã
Desde quinta-feira, 8 de janeiro, empresas de monitoramento têm observado uma queda drástica no tráfego de dados das redes iranianas. Na sexta-feira, 9 de janeiro, o próprio governo do Irã reconheceu estar por trás das medidas que visam dificultar o acesso à internet pela população local, intensificando o bloqueio de internet.
O que mais surpreendeu foi a eficácia do bloqueio de internet contra a Starlink. Na manhã da sexta-feira, cerca de 30% do tráfego de uplink e downlink da rede de satélites já estava comprometido. À noite do mesmo dia, por volta das 22h no horário local, o bloqueio já atingia mais de 80% da rede, configurando um verdadeiro “apagão digital”.
Nesta segunda-feira, 12 de janeiro, os serviços de acesso à internet da Starlink continuavam severamente comprometidos no Irã. Este cenário é alarmante, pois redes de satélites são frequentemente vistas como uma alternativa crucial em regiões onde governos tentam controlar o fluxo de informações.
Tecnologia Militar por Trás do Bloqueio da Starlink
O sucesso do Irã em bloquear a Starlink não é obra do acaso, mas sim resultado do uso de uma tecnologia extremamente avançada. De acordo com Amir Rashidi, especialista em segurança digital do Miaan Group, uma organização focada em direitos humanos, bloqueadores de sinais sofisticados estão conseguindo barrar o tráfego de dados da rede de satélites.
Rashidi, que monitora o acesso à internet há duas décadas, declarou ao TechRadar: “tenho monitorado e pesquisado o acesso à internet nos últimos 20 anos e nunca vi nada parecido em toda a minha vida”. A singularidade e a eficácia deste bloqueio de internet destacam a seriedade da situação.
Ainda segundo Rashidi, a tecnologia empregada para o bloqueio da Starlink é de nível militar, sugerindo que, se não foi desenvolvida internamente pelo Irã, pode ter sido fornecida por países como Rússia ou China. Curiosamente, o bloqueio não é uniforme, com algumas áreas do país ainda conseguindo acesso à internet, indicando uma distribuição irregular ou eficácia variada dos equipamentos.
Por Que o Irã Bloqueia a Internet?
As motivações por trás do bloqueio de internet no Irã parecem claras. Tudo indica que essa é uma tentativa do governo iraniano de dificultar a organização digital dos grupos que têm promovido protestos massivos no país desde o final de 2022 ou 2023. A supressão do acesso à informação é uma tática comum em regimes autoritários.
Além disso, a restrição do acesso à internet serve para dificultar o trabalho de cidadãos, jornalistas e ONGs de registrar ou noticiar eventuais abusos por parte das autoridades na contenção dos protestos. Ao limitar a comunicação, o governo busca controlar a narrativa e evitar que imagens e relatos de repressão cheguem ao mundo exterior.
Inicialmente, os bloqueios afetavam apenas serviços fixos e móveis de telefonia, mas rapidamente escalaram para redes de satélites e sinais de GPS. Essa progressão mostra a determinação do governo iraniano em estabelecer um controle total sobre o fluxo de informações, mesmo que isso signifique investir em tecnologia de ponta para bloquear provedores como a Starlink.