O Irã está imerso em uma onda de protestos violentos que já se estende por semanas, levando o país a um ponto de inflexão. Diante da crescente insatisfação popular, o governo iraniano tem respondido com uma repressão cada vez mais dura na tentativa de conter as manifestações e assegurar sua permanência no poder.
Historicamente, o regime já enfrentou diversas ondas de protestos, mas o cenário atual é diferente. A pressão é intensa, e o movimento de oposição, que antes focava em questões econômicas, agora exige mudanças substanciais e o fim da República Islâmica, que governa o país há décadas.
Essa escalada da crise reflete problemas profundos, conforme apontado por Holly Dagres, pesquisadora sênior do Instituto de Washington. Ela afirmou à CNN que “há má gestão sistêmica, corrupção e repressão. É por isso que as pessoas querem o fim da República Islâmica”.
Aumento da Repressão e a Luta Pela Sobrevivência
Em meio ao caos, o regime do Irã tem recorrido a táticas conhecidas para silenciar a dissidência. Milhares de pessoas foram presas e centenas morreram devido à violenta repressão das forças de segurança contra os protestos, segundo informações da organização Ativistas de Direitos Humanos no Irã.
Para limitar a visibilidade da situação, o Irã também impôs extensos bloqueios de internet e telefonia durante as manifestações. Sem muitas opções, o governo se esforça para reforçar seu apoio, convocando marchas pró-governo e tentando deslegitimar os manifestantes.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu aos cidadãos que não se unissem ao que ele chamou de “manifestantes violentos e terroristas” ligados ao exterior. Ele os acusou de incendiar bazares, mesquitas e locais culturais, afirmando que “se as pessoas têm preocupações, é nosso dever resolvê-las, mas o dever maior é não permitir que um grupo de arruaceiros venha e perturbe toda a sociedade”.
A Pressão Externa: EUA e a Ameaça de Intervenção
Enquanto o regime enfrenta desafios internos, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem emitido alertas contundentes à liderança iraniana. Trump expressou repetidamente apoio ao movimento de protestos e chegou a mencionar a ideia de uma mudança de regime no país, que é um antigo adversário dos EUA.
Em uma publicação nas redes sociais, Trump declarou: “O Irã está vislumbrando a LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!!!”. Autoridades americanas informaram à CNN que o presidente está avaliando opções militares, mas ainda não tomou uma decisão final sobre uma possível intervenção.
A bordo do Força Aérea Um, Trump comentou que “parece que algumas pessoas foram mortas sem motivo aparente. Esses são líderes violentos. Não sei se seus líderes são justos, eles governam pela violência, mas estamos analisando isso com muita seriedade. Os militares estão analisando a situação, e nós estamos considerando algumas opções muito fortes. Tomaremos uma decisão”.
Contudo, alguns analistas alertam para o impacto limitado de uma intervenção militar. O Dr. HA Hellyer, pesquisador associado sênior do Royal United Services Institute (RUSI), disse à CNN que “o regime é frágil, mas permanece intacto de forma bastante brutal”.
A Crise Econômica e a Fragilidade do Regime
A raiva dos iranianos tem crescido devido à persistente crise econômica. O Irã continua sob pesadas sanções internacionais, incluindo a reativação das sanções relacionadas ao seu programa nuclear, que visam pressionar o governo e seus líderes.
Pesquisadores apontam que as sanções ocidentais também prejudicaram a classe média iraniana, a base do movimento reformista do país, que vê poucas oportunidades de crescimento econômico. Ao mesmo tempo, a liderança iraniana se encontra em um estado vulnerável após a neutralização de vários de seus pontos de influência.
Ataques israelenses enfraqueceram grupos armados regionais apoiados pelo Irã, como Hamas e Hezbollah, enquanto ataques dos EUA causaram danos significativos ao programa nuclear do país. A perda do presidente sírio Bashar al-Assad, um aliado crucial, em dezembro de 2024, também contribuiu para essa situação.
Para Holly Dagres, esses acontecimentos levaram a uma “situação insustentável para a República Islâmica”. Ela acrescentou que “agora, eles estão lidando com essas questões externas e com essas questões internas, em meio a um sentimento anti-regime historicamente alto, que não desaparecerá até que este regime caia”.
Em uma tentativa de aliviar a pressão, o governo liderado pelos reformistas ofereceu auxílios diretos em dinheiro no valor de quase US$ 7 por mês. Além disso, alguns funcionários adotaram um tom conciliatório. O ministro do Interior, Eskandar Momeni, afirmou que as forças de segurança demonstraram “máxima contenção”, mas admitiu “algumas falhas”, prometendo um “futuro econômico melhor” para os iranianos.
O Aparato de Segurança e os Desafios Futuros
Apesar da intensa pressão e da crescente insatisfação, o poderoso aparato de segurança do Irã permanece intacto, conforme observou Hellyer. “Até o momento, não houve nenhuma deserção significativa entre a elite ou a segurança. E se não houver isso, qualquer tipo de intervenção dos Estados Unidos provavelmente não será muito útil no curto ou médio prazo.”
O especialista reforçou que, embora haja “muito esvaziamento, é claro. Há graves desafios econômicos, senão um colapso total. Há uma coalizão de protesto muito ampla, é claro, mas (o regime) se mantém unido, e isso se deve a forças muito coesas e coercitivas”.
A crescente resistência dos iranianos que marcham por todo o país pode, no entanto, representar uma ameaça existencial ainda maior para o regime do Irã. Ali Vaez, diretor do Projeto Irã do International Crisis Group, disse à CNN que “pelo menos ter as próprias ruas sob seu controle é o que eles consideram essencial para a própria sobrevivência, mesmo que isso provoque um ataque dos EUA”.
A oposição, que clama fervorosamente por uma mudança de regime, pode considerar este momento propício para tal impulso, visto que a liderança parece vulnerável à pressão externa e interna. Pezeshkian, em declarações televisionadas, disse aos manifestantes que o governo “deve ouvir o seu protesto e atender às suas preocupações”, indicando uma possível abertura, mas a repressão continua sendo a tônica principal.