As ruas do Irã, que por semanas foram palco de intensas manifestações, agora se encontram em um silêncio sepulcral. Esta calmaria, no entanto, não reflete paz, mas sim a subjugação pela força após uma onda de protestos que abalou o país.

Um morador de Teerã descreveu o ambiente como o que antecede o Ano Novo iraniano, porém sem a alegria festiva, apenas uma sombra de repressão mortal. O regime iraniano enfrenta a maior ameaça à sua sobrevivência desde sua fundação em 1979.

Este cenário complexo levanta a questão crucial: o que virá a seguir para o Irã, guerra, diplomacia ou uma nova revolta? As informações e análises a seguir são baseadas em dados divulgados pela agência de notícias CNN.

A repressão e o silêncio nas ruas

A última onda de protestos, que começou com queixas econômicas nos bazares de Teerã, rapidamente escalou para um movimento nacional. Milhares de pessoas saíram às ruas, gritando “Morte ao ditador” e pedindo a queda do regime, um desenvolvimento sem precedentes.

Em alguns locais, manifestantes chegaram a exigir o retorno de Reza Pahlavi, o filho exilado do último Xá do Irã. A escala da repressão que se seguiu foi brutal, com o regime iraniano agindo sem concessões, possivelmente enfraquecido por conflitos anteriores com Israel e os EUA.

O bloqueio da internet isolou os iranianos do mundo, dificultando a compreensão da verdadeira dimensão da violência. A agência de notícias HRANA, sediada nos EUA, reportou que mais de 3 mil pessoas foram mortas desde o início da repressão à dissidência, embora a CNN não tenha conseguido confirmar esses números de forma independente.

A escalada das tensões com os EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump, havia ameaçado repetidamente atacar o Irã caso houvesse violência contra manifestantes. Contudo, ele indicou que os assassinatos haviam cessado, o que sugeriu uma desescalada militar imediata.

Autoridades do Golfo, incluindo Catar, Omã, Arábia Saudita e Egito, teriam instado os EUA a evitar ataques, alertando para os riscos de segurança e econômicos na região. Esses esforços diplomáticos parecem ter contribuído para uma redução da tensão.

Apesar disso, a ameaça de ataques americanos ou israelenses ao Irã ainda persiste. Analistas como Trita Parsi, vice-presidente executivo do Instituto Quincy para a Diligência Estatal Responsável, afirmam que as tensões subjacentes não foram resolvidas.

A movimentação de um grupo de ataque de porta-aviões dos EUA para o Golfo Pérsico, com previsão de chegada na próxima semana, mantém o cenário de alerta. No entanto, o foco atual parece estar mais na possibilidade de negociações do que em um confronto militar direto.

Espaço para a diplomacia?

Mesmo que Teerã e Washington busquem retomar as negociações, o Irã o fará a partir de sua posição mais frágil até o momento. O equilíbrio de poder mudou drasticamente em comparação com rodadas anteriores de conversações.

Instalações nucleares iranianas foram severamente danificadas por ataques dos EUA no verão passado, comprometendo partes essenciais do programa nuclear. Além disso, muitos dos grupos armados que o Irã utilizava para projetar poder foram neutralizados por Israel.

Trita Parsi observa que os iranianos “perderam uma enorme vantagem”, e que Trump provavelmente “adotará uma posição muito maximalista” em futuras negociações. O escopo das discussões também pode se expandir, incluindo o programa de mísseis e o apoio a grupos como Hamas e Hezbollah.

Estes pontos, considerados “inegociáveis” pela liderança iraniana, podem complicar a diplomacia. Contudo, a história mostra que o regime já aceitou acordos dolorosos, como o cessar-fogo da guerra Irã-Iraque em 1988, descrito por Ruhollah Khomeini como “beber de um cálice envenenado”.

O contrato social rompido e o futuro incerto

Especialistas afirmam que os protestos recentes demonstraram que o contrato social entre a República Islâmica e seu povo está irremediavelmente rompido. O Estado falhou em proteger, em proporcionar prosperidade e em permitir liberdade, recorrendo à violência brutal.

Para Trita Parsi, o sistema está “danificado para sempre” após o nível sem precedentes de violência empregado pelo regime. Muitos iranianos agora esperam nada menos que uma mudança fundamental, uma tarefa extraordinariamente difícil.

A oposição interna foi sistematicamente esmagada ao longo das décadas. Figuras como Mostafa Tajzadeh e Narges Mohammadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, passaram anos presas por desafiarem o sistema, tornando a oposição viável escassa.

Parsi sugere que uma mudança significativa é mais provável que venha de dentro das próprias estruturas de segurança e poder, e não do enfraquecido campo reformista. “O cenário mais provável é que haja outra variação do regime, por meio de elementos internos do mesmo regime”, afirmou.

No exterior, os grupos de oposição permanecem fragmentados. Reza Pahlavi, apesar de se apresentar como figura unificadora, é controverso e tem dificuldade em construir uma coalizão ou um plano sem intervenção externa, como apontou Dina Esfandiary da Bloomberg Economics.

A incerteza sobre o futuro do Irã é grande, incluindo o risco de fragmentação da nação devido à sua diversidade étnica. Esfandiary conclui: “Uma linha foi cruzada e chegamos a um ponto sem retorno”, indicando que novas ondas de protestos são inevitáveis para a crise no Irã.

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