Regime iraniano usa TV estatal para exibir confissões forçadas de manifestantes
O regime islâmico do Irã tem sido acusado de intensificar suas táticas repressivas, forçando manifestantes capturados a assumir publicamente, em transmissões da televisão estatal, a responsabilidade por crimes que não cometeram. Essa prática desumana visa deslegitimar os protestos em massa que varrem o país e intimidar a população, segundo denúncias de organizações de direitos humanos e reportagens da imprensa internacional.
A estratégia envolve a exibição de vídeos cuidadosamente editados, nos quais homens e jovens, muitas vezes com os rostos desfocados e sob música dramática, admitem supostos erros ou envolvimento em atos violentos. As declarações, conforme ativistas e entidades de direitos humanos, são obtidas sob tortura física e psicológica severa, configurando uma grave violação dos direitos humanos fundamentais.
Desde o início das manifestações contra o regime teocrático, milhares de pessoas foram presas. Uma parcela desses detidos está sendo utilizada pelo governo em vídeos de propaganda, apresentados como “prova” de envolvimento em atividades criminosas, conforme informações divulgadas pela Human Rights Activists News Agency (HRANA) e outras fontes.
A escalada das “confissões forçadas”: um número sem precedentes
A Human Rights Activists News Agency (HRANA) revelou um cenário alarmante: ao menos 240 chamadas “confissões forçadas” foram exibidas pela televisão estatal iraniana nas últimas semanas. Este número é considerado sem precedentes, indicando uma escalada na estratégia de repressão do regime. A utilização massiva dessas gravações serve como uma ferramenta poderosa para moldar a percepção pública e justificar a violência estatal contra os manifestantes.
As exibições televisivas não são apenas uma forma de propaganda interna, mas também uma mensagem clara de intimidação para qualquer cidadão que considere participar dos protestos. Ao mostrar indivíduos confessando crimes, o regime busca criar um ambiente de medo, onde a dissidência é publicamente criminalizada e punida, mesmo que as acusações sejam fabricadas. A quantidade de vídeos sugere uma campanha coordenada e sistemática para suprimir a voz popular.
Essas “confissões” são frequentemente apresentadas em um formato que busca manipular as emoções dos telespectadores, utilizando trilhas sonoras dramáticas e imagens que ocultam a identidade dos detidos, mas que reforçam a narrativa de que os protestos são liderados por criminosos ou agentes externos. A prática visa aterrorizar a sociedade, dissuadindo futuras manifestações e minando a solidariedade entre os cidadãos.
Táticas brutais: tortura física e psicológica para extrair declarações
As denúncias de organizações como a Anistia Internacional e a HRANA são categóricas: as declarações exibidas na televisão estatal iraniana não são voluntárias. Elas são o resultado de tortura física e psicológica imposta pelos agentes do regime. Esta prática é uma violação flagrante das leis internacionais de direitos humanos, que proíbem veementemente a tortura e tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Relatos de ativistas e ex-detidos indicam que as autoridades iranianas empregam uma série de métodos coercitivos. Além da violência física, há evidências de que os presos são obrigados a assinar documentos sem poder lê-los, ou a gravar “confissões” relativas a delitos inexistentes. Em muitos casos, os “crimes” admitidos são, na verdade, atos pacíficos de dissidência, como participar de manifestações ou expressar opiniões contrárias ao governo.
A tortura psicológica também desempenha um papel crucial, com ameaças a familiares, privação de sono, isolamento e outras formas de pressão mental destinadas a quebrar a resistência dos detidos. O objetivo é extrair qualquer tipo de declaração que possa ser usada para incriminá-los ou para servir à agenda de propaganda do regime, independentemente de sua veracidade. A Anistia Internacional classificou abertamente essas gravações como vídeos de propaganda, desprovidos de qualquer valor legal ou moral.
A narrativa do regime: culpar inimigos externos pela dissidência interna
Em um esforço para desviar a atenção das causas internas dos protestos e justificar a repressão brutal, as autoridades iranianas consistentemente atribuem as manifestações em curso a inimigos externos. Estados Unidos e Israel são os principais alvos dessas acusações, sendo frequentemente apontados como os arquitetos de uma conspiração para desestabilizar o Irã. Essa narrativa, no entanto, é veementemente rejeitada por organizações de direitos humanos e analistas internacionais.
A estratégia de culpar forças estrangeiras é uma tática antiga e recorrente em regimes autoritários, utilizada para desacreditar a legitimidade das demandas populares. Ao invés de reconhecer as profundas insatisfações sociais, econômicas e políticas que impulsionam os protestos, o governo iraniano prefere pintar um quadro de interferência externa, buscando unificar a população contra um “inimigo comum” e justificar a repressão interna como uma medida de segurança nacional.
Essa abordagem ignora as verdadeiras raízes dos levantes, que incluem a insatisfação com a falta de liberdades civis, a situação econômica precária, a corrupção e a repressão sistemática. Ao invocar a ameaça externa, o regime tenta invalidar as vozes dos próprios cidadãos e marginalizar os manifestantes como meros peões em um jogo geopolítico maior, em vez de reconhecê-los como cidadãos com reivindicações legítimas.
O impacto devastador nas vítimas e na sociedade iraniana
O impacto das confissões forçadas é devastador tanto para as vítimas individuais quanto para a sociedade iraniana como um todo. Para os detidos, ser forçado a mentir publicamente sobre crimes não cometidos, sob ameaça de tortura ou retaliação contra si mesmos ou suas famílias, é uma experiência profundamente traumática. A humilhação pública e a desmoralização podem ter consequências psicológicas duradouras, além do risco iminente de condenação e punição severa.
A exibição dessas confissões na televisão estatal serve como um instrumento de terror psicológico para a população. Ao ver seus concidadãos, muitas vezes jovens, admitindo crimes em condições duvidosas, a mensagem é clara: qualquer forma de dissidência pode levar à prisão, tortura e à exposição pública forçada. Isso cria um clima de medo e desconfiança, onde a liberdade de expressão é sufocada e a participação em protestos se torna um risco ainda maior.
Além disso, a prática visa minar a credibilidade dos movimentos de protesto. Ao apresentar os manifestantes como criminosos, agentes estrangeiros ou indivíduos que cometeram “erros”, o regime tenta quebrar a solidariedade entre os cidadãos e justificar a repressão como uma ação necessária para manter a ordem e a segurança. Essa tática busca isolar os ativistas e deslegitimar as causas que os levaram às ruas, enfraquecendo a capacidade da sociedade de se organizar e resistir.
O papel crucial das organizações de direitos humanos nas denúncias
Em meio à opacidade e à repressão do regime iraniano, o trabalho de organizações como a Human Rights Activists News Agency (HRANA) e a Anistia Internacional torna-se fundamental. Essas entidades são a principal fonte de informações sobre as violações de direitos humanos no Irã, atuando incansavelmente para documentar e denunciar as atrocidades cometidas pelas autoridades. Suas denúncias são essenciais para trazer à tona a verdade sobre a situação no país.
A HRANA, por exemplo, foi a responsável por quantificar o número chocante de 240 confissões forçadas exibidas, destacando a escala sem precedentes dessa prática. A Anistia Internacional, por sua vez, tem sido vocal em classificar essas gravações como vídeos de propaganda, obtidos sob tortura, e tem detalhado as táticas coercitivas, como a assinatura de documentos não lidos e a confissão de delitos inexistentes. Ambas as organizações desempenham um papel vital em desafiar a narrativa oficial do regime e em chamar a atenção da comunidade internacional para a gravidade da situação.
Ao coletar e verificar informações de ativistas, familiares de detidos e outras fontes confiáveis, essas organizações fornecem um contraponto crucial à desinformação estatal. Elas não apenas expõem as violações, mas também pressionam governos e organismos internacionais a agir, exigindo responsabilidade dos perpetradores e proteção para as vítimas. Sem o trabalho dessas entidades, grande parte da verdade sobre a repressão no Irã permaneceria desconhecida.
Precedentes e as graves consequências jurídicas das confissões coagidas
Especialistas ouvidos pela agência AFP confirmam que o uso de confissões televisadas é uma prática recorrente do regime iraniano para intimidar a sociedade e manipular a opinião pública. Essa tática não é nova, mas sua intensidade atual, com um número recorde de exibições, reflete a crescente pressão que o governo enfrenta em decorrência dos protestos. A reincidência dessa prática sublinha a natureza sistemática da repressão no país.
As consequências jurídicas dessas confissões coagidas são extremamente graves. Tais exibições servem a múltiplos propósitos para o regime: elas buscam legitimar a repressão, desestimular novas manifestações e, crucialmente, preparar o terreno para condenações severas. Com base em declarações obtidas sob coerção, os tribunais iranianos podem proferir sentenças pesadas, que podem incluir longas penas de prisão e, em casos mais extremos, a pena de morte.
A utilização de confissões forçadas em processos judiciais viola os princípios mais básicos de um julgamento justo e do devido processo legal. Em qualquer sistema jurídico que respeite os direitos humanos, as evidências obtidas sob tortura ou coerção são inadmissíveis. No entanto, no Irã, essas “provas” são rotineiramente utilizadas para justificar condenações, transformando o sistema de justiça em uma ferramenta de repressão política. A ameaça da pena de morte, em particular, baseada em tais confissões, representa uma das mais hediondas violações dos direitos humanos.
O cenário internacional e o futuro dos protestos no Irã
A divulgação das denúncias sobre as confissões forçadas coloca o regime iraniano sob um intenso escrutínio internacional. Embora a fonte não detalhe uma resposta específica de governos, a cobertura da imprensa internacional e o ativismo de organizações de direitos humanos indicam uma crescente preocupação global. A comunidade internacional é chamada a condenar veementemente essas práticas e a exigir que o Irã respeite seus compromissos internacionais em matéria de direitos humanos.
A persistência dos protestos, apesar da brutalidade da repressão e das táticas de intimidação como as confissões forçadas, demonstra a resiliência e a determinação da população iraniana. A coragem dos manifestantes em continuar nas ruas, mesmo diante da ameaça de prisão, tortura e morte, sugere que o descontentamento é profundo e generalizado. O futuro do Irã permanece incerto, mas é claro que a busca por liberdade e justiça continua a impulsionar a sociedade.
A pressão internacional, aliada à resistência interna, pode ser um fator determinante para o futuro. A exposição contínua das táticas repressivas do regime, como as confissões forçadas, é vital para manter a atenção global sobre a situação no Irã e para apoiar os esforços daqueles que lutam por um futuro mais justo e democrático. As organizações de direitos humanos continuarão a monitorar e a denunciar, na esperança de que a verdade prevaleça e que os responsáveis por essas violações sejam um dia responsabilizados.